É só arte, e nada mais

por - 14:05

Oscar Wilde
“All art is quite useless”
Oscar Wilde

Estou assistindo a aula de artes. O tédio bate na porta, o monólogo do meu professor a abre e o deixa entrar, ele vai até o sono, desmaiado na última carteira, e o acorda. Meus olhos fecham.


É do mundo onírico que escrevo este relato, uma confissão do meu desinteresse nesse assunto. Não entendo porque há uma veneração de autoproclamados gênios. Esses parasitas, desocupados que fazem algo aleatório, abusando da burrice da elite intelectual que põem sentido onde não há e dão um preço arbitrário nas obras para sustentar esses inúteis.


Você, ao ler essa confissão, provavelmente pensa que eu sou um ignorante, um imbecil, que não consegue valorizar aquilo que há de mais belo no mundo, a perfeição divina da criação humana, a materialização do delírio único de cada indivíduo... Por favor, me poupe desse discurso medíocre, e caso faça questão de dizê-lo, faça em voz alta, porque a maior vantagem de registrar esse texto em escrito é que não importa a resposta de meus leitores.


Já acabou? Então retornaremos a minha opinião, a única que importa aqui. Vocês precisam reconhecer que a arte é algo fútil e desnecessária. Eu como alimentos, não palavras. Eu bebo água, não tinta. Respiro ar, não música. Eu não preciso da arte para viver, e nunca precisarei.


E daí se Poe consegue; usando apenas um conjunto específico de substantivos, verbos e adjetivos assustar-me ao ponto que meu coração bata com força, rebelando-se contra a prisão que é a caixa torácica e tentando fugir daquelas sinistras frases ao pular para fora do peito? Isso é só palavras, e nada mais.


E daí se Chaplin consegue me fazer sorrir, conceber gargalhadas desse meu espírito monótono e combinar com perfeição a comédia com a tragédia, cujas cenas geram ora cataratas de lágrimas ora vendavais de risadas? Isso é só imagens, e nada mais.


E daí se Van Gogh consegue criar obras cuja beleza surreal sequestra minha atenção e amarrando meu olhar, prendendo minha mente em sua louca imaginação. Isso é só tinta, e nada mais.


E daí se ao ouvir Beethoven consigo ser elevado a uma revelação tanto alucinógena quanto sagrada, onde visualizo maravilhosas fantasias em que batalhas épicas e eventos cósmicos decorrem diante de meus olhos fechados? Isso é só barulho, e nada mais.


Só objetos, e nada mais, que conseguem causar as mais diversas emoções, me elevar aos mais loucos devaneios e parir incontáveis reflexões.


E o sinal toca, meus olhos abrem. Agora é aula de matemática, finalmente acabou a aula inútil e tediosa. Retorno para o mundo real, prático e racional. Voltei para a só vida, e nada mais.


Texto por: Cai Santo

Você também pode gostar

0 comentários