Mente vazia num ônibus lotado: imagine depois da Copa

por - 14:09

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Existem diversos personagens nos ônibus do Brasil e nos últimos dias tenho passado pelas viagens no coletivo sem música, isso porque meu celular não reconhece mais meu fone de ouvido. Sendo assim, tenho prestado atenção em diversas situações que os passageiros passam parados no trânsito do Recife, eis algumas.


Outro dia peguei o busão e consegui sentar mais na frente, perto do cobrador. No ponto seguinte entrou um figura cabeludo no ônibus, que logo na entrada arrumou problema com uma senhora que descia pela frente e xingamentos rolaram de ambas as partes. Depois disso, percebo que não se tratava de um passageiro e sim um ambulante, já que o mesmo estava com uma caixa de goma de mascar pra vender. Iniciou seu discurso dizendo que o motorista não permitia que ele entrasse por trás do carro, rolou um solavanco e praticamente derrubou sua mercadoria. Pediu para cobradora deixar ele passar, que depois ele pagava a passagem, mas ela não permitiu.


Ele soltou um “tá muito difícil hoje, to me segurando pra não fazer besteira!” com os olhos cheios de lágrimas. Um pessoal ficou comovido e pagou a passagem dele, que retribuiu dando chicletes para quem pagou (deixando claro pra todo mundo). Depois, ele começou o discurso tradicional, dizendo que tinha um bebê, mulher em casa, que já tinha sido viciado em crack. Vendeu alguns produtos, insistiu para que todos no ônibus comprassem e desceu.


Depois disso, a cobradora solta a seguinte conversa “esse camarada vem sempre com a mesma história, quem não conhece o dia a dia que compre. Outro dia a mulher dele entrou atrás dele aqui e disse que ele gasta a grana toda em crack”. Por sinal, Recife segue sendo uma espécie de São Paulo reduzido e com praia. Pra quem não está ligado, ta rolando uma minicracolandia na Rua do Hospício, no centro do Recife. O poder público faz que não é com ele, a policia não sabe como agir, e diversos viciados seguem consumindo no meio da rua, de dia e principalmente de noite.


No mesmo dia, na mesma linha, porém no sentido de volta para casa. Adentro no coletivo, passo a roleta e tem um camarada sentado nas escadas da porta do meio, um tanto transtornado. Duas paradas depois ele se levanta e começa o seguinte discurso “Pessoal, estou aqui por necessidade, o motorista soube da minha história e quis me ajudar...” Ele contou que mais cedo teria sido assaltado por dois indivíduos, cada um com uma arma .40 (caro leitor, você consegue identificar o calibre da arma em um assalto? Sabe a diferença entre um calibre e outro?), que levaram a aliança dele de ouro e todo o dinheiro de um trabalho que ele tinha feito.


Disse que era de Escada (cidade do interior do estado) e que não tinha dinheiro para voltar pra casa e que preferia pedir ajuda a roubar (pela lógica dele, quem foi assaltado, tem o direito de assaltar). Muita gente ajudou ao ponto dele dizer que o restante seria para água e um comprimido, pois a cabeça dele doía. Ele seguiu falando dentro do ônibus, que conversando as pessoas se entendem, que era do bem e depois saiu abrindo as janelas (estava chovendo!) e dizendo que iria morrer, desmaiar de calor e que todos deveriam se molhar para que isso não acontecesse, até que ele se acalmou e parou de falar. Virou um passageiro parado nos engarrafamentos da cidade.


No meio da mesma viagem, entraram três indivíduos pela porta do meio do ônibus, um com umas maracás em mãos, se apresentou, disse ser da Venezuela. O segundo, que segurava um violão, seria da Colômbia e o terceiro, com um atabaque, seria da Itália. Depois disso, começaram a cantar e tocar canções latinas como "Quiça" (que nem ficou tão ruim), entre outras. Imaginem meu desespero, parado no meio do busão, com um camarada gritando e tocando maracás nos meus ouvidos e sem fone?! Depois de três músicas (que pareceram seis ou sete), foram aplaudidos e deram o golpe de passar o boné e pedir uma ajuda para continuar alegrando viagens e viajando pelo mundo afora fazendo música.


Desceram duas paradas depois, não antes de o venezuelano ser azarado por uma tiazona perdida que perguntava se ele era da Colômbia (com um portunhol dos infernos). Fiquei imaginando o que faltaria acontecer neste meu dia dentro do coletivo ou se o resto da viagem seria tranquilo. Eis que sobe Jamesson, um garoto que diz ter 15 anos (mas parece ter 10) e que fala de maneira ensaiada e até parecida com um repentista (mais sem o violão) que prefere pedir do que roubar e matar, que tem família necessitada e não usa drogas e sai coletando moedas entre os passageiros.


Ao ver que não obteve muito sucesso, sai pedindo o que ver pela frente entre os passageiros, biscoito, água, chiclete, bombom, etc. E mesmo tendo ganhado água e estar com a garrafa cheia em mãos, passa por mim e diz “Tio, to com sede, me da a água ai!”. Quase como uma ordem, que eu não poderia recusar, e quando questiono sobre a garrafa cheia que ele tinha em mãos, ele solta que iria vender na rua, e que não se deve negar água a ninguém! Mostro a ele a minha garrafa vazia, digo que estou parado em pé naquele ônibus tem mais de uma hora e que estou morrendo de sede. Ele olha pra mim em desespero e desce correndo do ônibus dizendo que a água é dele e ele não da prá ninguém!


Então eu soltei: “Pense que tem muita figura nos ônibus do Recife!”. E um camarada respondeu: “Tá todo mundo tentando garantir o dinheiro do ingressos da copa!”. Imagine depois da copa então...

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