Pensamentos numa cidade de chuva

por - 14:05

229Por algum motivo, o frio da chuva me deixava feliz. A cidade parece funcionar melhor quando chove. Os ônibus param o trânsito como se o mundo inteiro entrasse em pane, e é apenas a pane forçada e momentaneamente irreversível das cidades que lhes permitem tempo para repensar sua existência. Sob água, elas se transformam em alguma outra coisa... como se as gotas as despissem ou cobrissem com uma capa. Até os passos são tomados por uma áurea diferente enquanto toda essa gente atravessa a rua. E até eu começo a falar sobre áureas.


Talvez seja isso que esses dias tem de tão interessante: a tendência inesperada que as pessoas adquirem de fazer coisas impensadas. Parece que molhar-se derrete alguma crosta invisível – que se foda, aura – e por algum motivo, a perda dessa crosta invisível é uma surpresa com a qual ninguém está preparado para lidar. A capacidade que as surpresas tem de te deixar completamente vulnerável; a nudez do mundo na chuva. Mais alguns passos, duas esquinas viradas e um esbarrão - os guarda-chuvas segurados firmemente como se fossem extensões físicas dos nossos corpos – que eu senti como calor na minha pele. Ela continuou em frente, o medo apressado da chuva a impulsionando em direção a qualquer que fosse o seu destino. As gotas que tentávamos tanto isolar poderiam nos lavar de tantas coisas... Temos medo da chuva (mesmo quando ela não é mais que lágrima), e às vezes acho que ela aumenta o medo que temos uns dos outros. Ou talvez, apenas nos presenteie com mais meios de fugir. Talvez a nudez do mundo devesse ser mais... literal.


Procurei a caixa de fósforos no bolso. Molhada, ela não acenderia fogo algum. E mais um mérito dos dias úmidos: nada de cigarros. Ao menos no caso daqueles que realmente estivessem dentro da chuva, e era o meu caso, agora sozinho na avenida. Tudo funcionava como um elaborado tapa na cara: as paredes de trânsito, a recusa dos cigarros. As enxurradas nos guiavam para algum lugar e ainda assim as pessoas se perdiam em esbarrões cegos. As únicas luzes que podiam sobreviver ali se guardavam dentro das redomas de vidro das lâmpadas. Poderiam ser vagalumes, se não fossem tão estáticos, petrificados. E agora que eu parava para olhar ao meu redor, as luzes trêmulas dos postes estavam em todo canto. Nas paredes, no asfalto que parecia escorrer pela ladeira, nas poças fundas que transformavam as irregularidades e os buracos em espelhos lisos e quase perfeitos. Reflexão.


A cidade olhava para si mesma e finalmente podia entender o que era e significava. E as almas presas dentro dela, e os rabiscos sujos das suas paredes; durante a chuva, tudo se via de forma anormalmente clara e entrelaçada. As luzes da cidade refletidas de volta na sua própria carne, e ainda assim, as pessoas não paravam pra ver. A poça enorme na minha frente me fez estancar, e a mergulhei com os olhos: mas as gotas faziam cristas demais pra que eu pudesse enxergar qualquer coisa mais precisa do que um amontoado formas. Do outro lado da rua, vultos se escondiam sentados e protegidos pela marquise da padaria. O frio da chuva também corta dobrado, como espelho em cacos pra todas as direções. A dor úmida do frio também sabe se fazer enxurrada e dilúvio. Ela apaga os homens. E qual – pensei enquanto atravessava as ruas brilhantes de céu refletido – é o problema dos homens com o esquecimento? Por que não podemos aceitar as panes e o trânsito interrompido por um momento, que seja? Por que não parar? A verdade é que o frio doía demais pra isso.  As pessoas seguiam o fluxo da chuva que se fazia rio quando encontrava o chão. Todos esperando que as ruas os escoassem para algum lugar. E no fundo, sabíamos que elas haviam sido criadas para isso. As ruas andadas nos levam pra longe de nós mesmos.  Pra onde eu estava indo? Me dei o direito de não saber e deixei o guarda-chuva como um presente para os vultos cansados do outro lado da rua. A chuva nunca me molharia de verdade ali: a cidade e os homens se cobriam mutuamente sem nunca se entregarem totalmente à tempestade. Um senhor de idade olhava para o lado de fora, preso atrás dos portões de sua casa. Não sei dizer se a lucidez que eu via nos seus olhos vinha mesmo da velhice ou da água da chuva.

Você também pode gostar

0 comentários