Toda a generosidade do dia

por - 11:06

Amigo Imaginário

Ajeitou a saia e sentou-se em seu banquinho amarelo de sempre, lá longe da confusão do recreio. Abriu emburrada a lancheira, detestava aquele cheiro de comida guardada, e pra completar, alguém a havia mordido. Uma bomba relógio instalara-se nela e ameaçou explodir antes da hora quando cercada por toda impertinência que pode acometer uma pequena dama, derramou suco de caju em seus babados.


Não tinha mais hipérbole, um resmungo longo travado na boca cheia de biscoito recheado decretou a ordem do dia, tinha o maior bico de raiva de toda a escola agora, o maior já visto no jardim de infância. Cruzou os braços e não quis mais comer.


Diante de toda a generosidade do dia ela foi ingrata. Uma pequena lágrima de frustração passeou pelo seu rosto até que ela sentisse-a salgada no canto da boca e esfregasse o nariz que também escorria.


Parecia não ter mais jeito aquele dia besta, mas tinha. Chegou Dudu, cativando-a como sempre de maneira inesperada, para vê-la disfarçar o choro e limpar seu nariz.


Havia ido até ela pelo mesmo motivo de sempre, queria conversar com aquela garotinha emburrada enquanto penteava seus cabelos cacheados da maneira que ela achava mais bonito.


E conversaram, falaram de gatos, balinhas de goma, leões medrosos, espantalhos, homens de lata, picolés de uva, também sobre a Mafalda e o Snoopy. E o mais importante, ele penteou seu cabelo e ela mesmo disse ter ficado lindo, pra ela um campo inteiro repleto de girassóis.


Pouco mais de dez minutos foram suficientes para que Dudu desarmasse a bomba que ela tinha dentro do peito, era uma pena que ela tivesse que ir. Justificou-se, estava na escola, e ele entendeu, fez que sim balançando a cabeça pequena.


A justificativa aconteceu tarde, o penteado demorou mais que o previsto, o recreio acabara já havia algum tempo. A professora procurando a menina que tomou conta sozinha dos banquinhos amarelos quando a encontrou indagou sobre seu atraso.


Explicou-se contraindo os ombros, dizendo que Dudu estava penteando seu cabelo, e singela como sempre, fez questão de mostrar a professora seus cachos que agora ocupavam toda a Via Láctea. Mas não havia Dudu.


 

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