"Teoria e prática na voz de uma veterana ofegante"

por - 16:11

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Minha avó veio passar uns tempos aqui em casa. Apesar do aperto no qual ficamos em termos de espaço físico, tudo está maravilhosamente bem, exceto por ela mesma. Não me leve a mal, eu adoro aquela velha, mas como antes dito, minha avó está avó demais. Desconfia de tudo e de todos a todo segundo, usa o banheiro como se não houvesse amanhã e só fala de gente morta ou doente como assunto favorito. Minha mãe, sua filha, não aguenta mais, mas mãe é mãe e por isso não abre mão da companhia da velhota, que depois de uma semana, está se habituando à vida em São Paulo.


Ela veio pra cá fazer uma cirurgia. A cidade dela na Bahia é minúscula e só ouvem falar em cirurgia lá quando o SBT reprisa Plantão Médico de madrugada. Em teoria, o procedimento é simples e levaria pouco tempo para ela se recuperar e voltar para sua amada terra. Mas teoria e prática são distintas. Melhor para a velha que pode descansar do meu avô cachaceiro que enche o saco dela com suas traquinagens de quem paga em cruzado novo sua garrafa de rabo de galo.


Aliás, por teoria e prática serem tão diferentes, vovó não possui sistema de saúde eficiente em sua pacata cidade. Por isso talvez vovó só fale de gente morta e doente. Também por isto, talvez vovó fale tanto sobre isso, digo, o medo de ser a próxima a mercê de algo tão elaborado é algo que deve ser considerado uma vez que se possui 78 anos. Na verdade, não há teoria que salve a falta de prática que é o descaso para com um ser humano, que aliás, tem sorte de ter filhos na “cidade grande”, no caso de vovó. Esta sabe bem da teoria, só não consegue mais praticá-la pela idade avançada. Compreensível.


Reflexões sobre um cenário de injustiças sociais a parte, possivelmente não será a discussão da antítese teoria X prática que nos levará ao que realmente deve ser mais considerado em ações coercivas, mas a que nível de debate devemos elevar a questão a fim de pensarmos em um resultado melhorado e numa mudança de panorama. Tanto teoria quanto prática são necessários em seus devidos aspectos e supervalorizar um ou outro seria simplista demais, mas o que devíamos nos questionar é a falta ou excesso de ambos em nossas vidas.


E no fim das contas o que vovó tem a ver com tudo isto? Absolutamente nada. Coitada, só queria passar no médico e ficar de boa, mas nem rolou, já que o netinho pseudo ativista quis divagar sobre sua situação. Como uma senhora de muita teoria e pouca prática, vovó teria muito a dizer sobre seus amigos mortos ou moribundos, mas não libera nem a metade da verdade daquilo que chamamos carinhosamente de sociedade. Existem debates que devem ser feitos com a intenção de provocar mais debates e estes são os mais difíceis de se promover, uma vez que temos que instigar a teoria e a prática conjuntamente. De qualquer modo, é importante lembrar que na teoria tudo está ótimo e na prática não está. A distopia pode parecer grande, mas maior ainda é a admiração de vovó pelo trânsito. Carros, buzinas, luzes vermelhas e amarelas piscando. É, na teoria ou na prática, o mundo ainda tem salvação.


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