Mente Vazia Num Ônibus Lotado: A máquina de sorvete

por - 15:05

Sorvete


Em um dia quente o transporte público fica ainda mais insuportável. Tudo bem que era sábado, por volta das duas da tarde, mas mesmo assim, ali na minha área a situação tá complicada. Estão reorganizando os ônibus aqui em São Paulo e tirando várias linhas para oferecer “conforto e rapidez” aos passageiros. Essas coisas estranhas que fazem por aí. Em um dia desses, cortaram uma importante linha do meu bairro, o que causou superlotação instantânea em outra, que já vivia cheia. Por isso era sábado, estava um calor do caralho e o ônibus cheio. Se pá com umas baratas ali perto da porta, mas nem me atrevi a ver.


Como a condição do transporte estava horrível, com direito a uma caravana de idosos espremidos na porta, uma senhora achou que estava na hora de reclamar do prefeito. “É esse Prefeito otário! Ele tem que se ferrar! Mas ele vai pagar o que está fazendo com o povo! Ele vai pagar e vai ser rápido! Como que ele tira essa linha? Muito idoso usava ela! É um estúpido!”, berrava a senhora. Até aí estava tudo bem, meus fones vazavam um pouco e eu até concordo com ela que essa reorganização está cagada por demais.


No meio da conversa ela soltou uma pérola. “O prefeito deveria colocar ar-condicionado e água gelada nos ônibus. Olha esse calor. R$ 3 e não temos nada!”. Aí eu já comecei a rir. Primeiro que ônibus com ar-condicionado é uma parada escrota pra caralho e segundo que, minha senhora, se não temos nem ônibus, imagina um veículo com água gelada? Mas isso eu guardei pra mim, aí que surgiu o lendário cobrador. Ele começou a comentar com uma passageira. “Beleza, vou colocar uma máquina de sorvete aqui do lado. Roda a catraca e pega um picolé”, dizia. Aí eu não sabia se ria ou se ficava triste pela senhora. Ela continuava reclamando e ele ria e emendava. “Mas é claro que vai ter água gelada, água quente no inverno, vai ter o que quiser. HAHAHA”.


A viagem continuou e o ônibus virou uma confusão. De um lado a senhora conseguiu angariar mais pessoas pra sua conversa. Instantaneamente todo mundo reclamava do Fernando Haddad. O cobrador ria. Ficava gargalhando e continuava falando do sorvete – que modéstia a parte foi uma ótima piada. Só que o bagulho ficou tão sério que sobrou até pra ele. A mulher que tava conversando com ele virou e falou que não poderiam ter cortado a linha, que o Prefeito foi um vacilão. Ele teve que concordar.


Enquanto isso, lá fora, o Sol ardia. 35°C, Deus chupando um picolé – talvez da mesma máquina que o cobrador ia solicitar pra senhora -, e eu ali dentro, esmagado, ouvindo reclamações e vendo meu sábado se passar de um modo igual a segunda-feira.


A senhora desceu antes que eu. Continuava reclamando. O cobrador, depois que a mulher e a idosa desceram, começou a trocar ideia por códigos com o motorista. Eu sabia sobre o que se tratava e ria. Minha partida chegou, enfrentei o Sol e acabei chegando a conclusão que se tivesse uma máquina de picolé, talvez eu ficasse feliz. Vem pra rua, vem, pelo sorvete!


Você também pode gostar

1 comentários

  1. Barata, calorão, ônibus lotado, sabadão e sorvete no meio dessa confusão... nem tente entender como nascem as ideias num ambiente desse.

    ResponderExcluir