"Sexta feira cinza"

por - 17:07

bfriday


Nos Estados Unidos de antigamente, foi feito um feriado baseado na comilança dos colonos e na exploração dos índios nativos da região que hoje abrange o território americano e este feriado foi chamado de Thanksgiving. Logo após esta data, por alguma razão muito plausível , eles montaram um feriado onde todas as lojas venderiam produtos pela metade do preço. Seria legal se não fosse pela mania mundial de internacionalizar os bens mais valiosos de seus respectivos países, fazendo parecer com que estes sejam irrelevantes frente a possibilidades ditas inovadoras. E este evento veio parar aqui.


Tal como o Lolapalooza, Papai Noel e o programa do Jerry Springer, o grande problema com a importação de cultura estrangeira é a execução empobrecida e desleixada aplicada por aqui. Desde sua primeira edição, a Black Friday é uma putaria sem tamanho em terras tupiniquins, no entanto, isto não significa que estamos fadados ao capitalismo selvagem e imbecil de quem compra produtos pela metade do dobro. Eu acho. Apesar de absurda em sua maioria, consegui aproveitar umas ofertas. Sim, eu me utilizei do recurso capitalista e imoral cuja razão e origem antropológica são duvidosas. Agora me processem por isto.


O que devemos nos atentar não é de fato o modus operandi da ação de graças ou da Black Friday, mas sim àquilo que ela pode te trazer como benefício. Somos todos proletários e o consumo dirá o quanto nossa sociedade evolui, sendo assim, a Black Friday nada mais é senão a margem de erro do medidor evolutivo econômico da sociedade vigente, e se tratando do erro que o sistema precisa pra ser corrigido, porra, estou dentro! Claro, todo mundo é mais inteligente que você, o que quer dizer que eles sabem rebater a chance que temos de ver isto tudo indo à ruína com um feriado-não-feriado monetariamente relevante. Eis o motivo pelo qual ele é esta tremenda palhaçada de “metade do dobro”, conforme vemos pela segunda vez em nossas bandas.


Especulações a parte, alguém tem que sair ganhando de alguma forma e vamos fingir que nós mesmos somos os vencedores porque culturalmente, temos uma nova chance de aderirmos ao Thanksgiving e desta porra virar um feriado. Talvez nem seja provável, mas vale a pena pensar na possibilidade. Além disso, nenhuma outra data acaba sendo puramente comercial como esta, mostrando o quanto a importância de uma data não mais é atrelada a seu valor simbólico, mas a qualquer outra merda. Na verdade, até o dia da árvore, que é mais tupiniquim, não tem a relevância e a memória que a Black Friday (aliás, estou até escrevendo ela em letra maiúscula), provando o quanto estamos relaxando no regime e nos adaptando de forma rápida às tendências de uma civilização mais online e menos off-line. E isto por si só não é ruim, mas claro, não é um indício de melhora com relação à nossa condição atual.


Por fim, fico no aguardo da minha mercadoria. Por mais que possa estar soando hipócrita, era uma oferta interessante. Cada um tem seu valor e consequentemente seu preço, mas isto não quer dizer que sejamos facilmente vendidos ou negociáveis. É mais sobre um instinto ostentativo de MC da baixada santista que todos nós carregamos dentro de nós e que é liberado de alguma forma específica. Alguns carregam esta característica com mais afinco, enquanto outros só querem comprar o bilhete do metrô e usar papel higiênico com dupla folha. Discutir os valores das pessoas, por mais fúteis que sejam, é como fazer um castelo de cartas. A vontade é de assoprar e fazer aquilo tudo ir abaixo, mas deve-se ter um respeito descomunal e entender qual a lógica de não se ter um baralho dobrado.


castelo de cartas

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