Luiz Estrela e a ocupação do espaço público

por - 12:05

Foto retirada do perfil do grupo no facebook

 Foto retirada do perfil do Espaço Luiz Estrela no Facebook


Faz muito tempo que eu não apareço no Alt. Com exceção de uma resenha aqui e outra ali, eu fiquei um bom tempo sem escrever os textos que eu mandava pra cá, os desabafos políticos, as cutucadas e afins. Acho que porque desde aquela situação toda que aconteceu em junho (as manifestações receberam até um nome bonito, Jornadas de Junho né?) eu fiquei com a cabeça meio confusa. Confusa porque me parece que depois desses momentos únicos de convergência, de catarse e de um súbito “entendimento” de todas as coisas, parece que a gente tende a retornar à divergência. Eu me arrisco a dizer que o grande motivo das manifestações não terem ido pra frente com a mesma força é o fato simples de que toda aquela multidão que participava não queria realmente as mesmas coisas. E infelizmente, se cada um puxa o pano da mesa pr’um lado... ele não cai. Então eu queria entrar nesse mês de retrospectivas com uma notícia relativamente recente, de um processo que chegou a algum lugar e que me deu uma coisa curiosa: vontade de escrever matérias de novo.


É um casarão bonito que ficou abandonado durante muito tempo no bairro Santa Efigênia. Tinha aparência de já ter sido um lugar muito legal. E não são poucas as construções abandonadas, pelo menos por aqui: é como se a sina de quase todas elas fosse ou cair, ou ser esquecida. É uma metáfora interessante, inclusive: o casarão que foi inaugurado em 1913 e funcionou como Hospital Militar era de responsabilidade da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Ainda com o convênio, ele ficou parado durante anos, um espaço vazio esperando pra ser preenchido na paisagem desse lugar. Como na própria cidade – e de certa forma, no nosso país inteiro – é como se esse vazio, esse marasmo que já nos parece natural fosse entendido como a única realidade possível. Mas o próprio casarão já parecia pedir por alguma intervenção.  E  em outubro, ele ganhou vida. Ativistas o ocuparam incentivando atividades artísticas e a cultura popular em geral, com o nome de Espaço Comum Luiz Estrela. E hoje, finalmente, o Governo do Estado concedeu à ocupação o direito ao casarão – o grupo vai arcar com a reforma do local e com todos os outros custos.


Desde que o fogo das manifestações diminuiu, eu fiquei assistindo a passagem dos eventos sem saber exatamente o que fazer, porque eu não me identificava sinceramente com nenhum dos pontos de vista que estavam sendo expostos. É claro que as discussões acerca da forma de financiamento de campanha são importantes, por exemplo; mas é que os debates pareciam afastados da principal questão de tudo isso: os cidadãos. É claro que é importante mudar as regras do jogo se elas estão erradas, mas nada disso tem sentido se as pessoas não quiserem jogar. E o que a gente percebe com iniciativas como a do Espaço Luiz Estrela é que muitas vezes os nossos direitos  estão mais próximos do que a gente imagina. Só falta a coragem de estender a mão pra alcançar. É claro que esse tipo de ação não surgiu de repente; é uma linha de atuação que vem crescendo discretamente, num período em que o Black Bloc se tornou o único sinônimo de manifestação popular para a grande mídia. E além da ocupação do espaço público ter se mostrado uma estratégia mais prática e viável, ela se vale de uma das expressões mais sinceras da participação do povo: a cultura popular.


Há quem possa argumentar que em algum ponto as ações devam ser mais políticas. Mas a minha opinião é que talvez, nós só tenhamos entendido o conceito de “política” de forma errada esse tempo todo. Existe algo mais político do que a arte? Do que pessoas se reunindo pra se expressar e aceitar as vozes dos outros? Encher a rua de povo é o primeiro passo para que a população aprenda que esse casarão vazio que o Brasil tem sido nos últimos anos é a sua casa. Cada um luta do jeito que pode, do jeito que aprende. E eu acredito que talvez tenhamos encontrado a forma de lutar que o povo mais compreende. Luís Estrela era um morador de rua e um artista. Alguém que tinha algo para dizer, mas não tinha espaço. Eu só espero sinceramente que ele se mostre um ícone adequado para todos nós.


Espaço Luiz Estrela
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