Lupe de Lupe - Distância EP

por - 15:05

E Você Se Sente Numa Cela Escura

Distância EP

Lupe de Lupe

Pop Fuzz Records (2013)

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Uma vez me disseram que para fazer uma resenha você deveria levar em consideração alguns aspectos. Eu concordei com todos eles e hoje me vejo cercado de problemas para tentar escrever sobre o Lupe de Lupe. Eles já falaram que cantam alto, bebem e gritam. As guitarras de suas músicas já disseram o quanto eles ainda querem fazer pelo rock - algo meio que inexistente neste país, com raras excessões. Depois de lançar dois discos, o EP Recreio e seu primeiro álbum, Sal Grosso, o Lupe de Lupe volta com Distância, um EP curto, "gótico", como Vitor me disse.


"À Distância na Palma da Mão" é sobre o amor, o tempo, o espaço, a nostalgia, os beijos, os dez anos que se passaram desde então e um coração que hora parece ter cansado de sofrer, hora parece ainda ter esperanças de reatar o relacionamento. “Um sonho que você me encontra e eu me desencontro e estamos dez datas mais / velhos, dez datas mais distantes, dez datas carentes de amor, dez datas nos beijando / com amor e ódio novamente”. Vitor Brauer, o letrista e vocal nessa música – o Lupe de Lupe ama mudar os compositores e vocalistas de suas canções –, berra, faz barulho, não se contenta. A bateria vira um inferno em certos momentos da música: uma espécie de metralhadora sem fim, as guitarras choram, esperneiam para ser sincero. Tudo para dizer que “"a gente foi tão fundo / Onde se pensa em se perder / E a gente foi tão fundo / Pra não ficarmos juntos / Novamente / Quando você me disse "Vitor / Está tudo acabado / E vamos viver longe um do outro" / Será que conseguimos?".


Na segunda música de Distância, é possível observar uma diferença. Se em “À Distância da Palma da Mão” temos gritos, berros, a sensação do mundo estar acabando enquanto as guitarras fritam, a bateria não para e o vocal de Vitor serve como uma forma de exorcismo, “Tainá Muller” é mais calma. Começa até um pouco “tibiruei”. Tainá Müller é irmã da ex VJ da MTV, Titi Müller. Como atriz, participou de filmes como Cão Sem Dono, Plastic City, Se Nada Mais Der Certo, Tropa de Elite 2 e E Aí...Comeu? e hoje está no elenco da novela das 6, Flor do Caribe. A canção é uma homenagem de Renan Benini à atriz. Uma forma de admiração a beleza dela.


Distância possui seis faixas e a terceira delas é um descanso. “3:00”, arma a cama para a próxima canção, sem sombra de dúvidas a melhor do disco e a melhor e mais sincera de toda a carreira do Lupe de Lupe, superando a polêmica “Há Algo de Podre no Reino de Minas Gerais”. “3:00” tem sons de passos, não tem guitarra, um barulho, nada demais. Uma pausa, um suspiro para “Homem”, a quarta música do EP. O som é uma carta, uma carta pessoal e endereçada a um amigo. Vitor expõe todos os detalhes disso em uma composição que lembra bastante o método que Morrissey escrevia suas letras. O eu-lírico pede desculpas por um ato homofóbico, cometido há anos, com um de seus melhores amigos. “Houve um tempo em que nós dois éramos feito unha e carne / Houve um tempo em que nós dois éramos inseparáveis / E por isso imbatíveis / Nascidos numa cidade construída na boca do inferno, nós vencemos / Porque nos fizemos irredutíveis”. A cidade, Governador Valadares, sempre serviu como ambiente para as críticas de Vitor. Conservadora, preconceituosa – assim como qualquer outro município do Brasil -, ela serviu de palco para um linchamento moral, do qual o eu-lírico participou. Enquanto canta versos como “Quando você assumiu que era gay, eu nem liguei, eu nem liguei / E na hora eu nem pensei, mas pior, eu nunca me importei / Sem nenhuma malícia pra ver, nós fomos nos separando / Achando que era tudo natural, tudo natural, tudo tão natural”, Vitor grita, a bateria desacelera. O grande desabafo. É como se você tivesse conseguido de fato abrir seu coração, a sensação de poder gritar para o mundo uma coisa, de cima de uma montanha para que se tenha eco, e que isso vá, atravesse as ondas sonoras, chegue aos ouvidos da pessoa e de todos. “Eu devia ter escolhido você ao invés desses animais sem nenhuma dó / Mas deus sabe o quanto eu sentia falta de algo moderado / E o talento é sempre mais bonito quando desperdiçado / Feito homens cegos e um elefante, nós te julgamos e te analisamos / Mas hoje eu sei, hoje eu sei, que eu errei, deus, como eu errei / Nascidos num lugar em que se quebra regras pra sobreviver / Eu não quebrei a pior das regras, eu não quebrei, eu nunca me importei", confessa Vitor, gritando, exaltado, a bateria acelerada, as guitarras altas, distorcendo, rápidas, criando a atmosfera perfeita para o grande fim, para o golpe maior de sinceridade desse disco. Antes da última estrofe, o instrumental fica ainda mais rápido, até que o vocal canta "25 anos sem beijar um homem / 25 anos pra chegar e te dizer / Que se eu tivesse beijado um homem, esse homem seria você / Esse homem seria você" e encerra, gritando aos quatro cantos, enquanto o instrumental fica mais alto, mais rápido e vai baixando. Um choro, a descarga emocional, o grande pedido de desculpa por um ato imbecil.


Após escutar “Homem” é complicado encontrar razões para expressar algo, para se continuar procurando alguma canção no disco. Mas a bem da verdade é que a canção gótica e legião-urbanista, “Areia Suja”, com participação de Young Lights, é a continuação perfeita para o clima criado com a faixa anterior. A letra, dessa vez, foi criada inteira pelo estadunidense Young Lights, que hoje mora em Minas Gerais e faz parte do grupo chamado Geração Perdida, encabeçado pelas bandas Lupe de Lupe e Quase Coadjuvante. Aqui há uma melancolia tremenda que vai sendo acompanhada por uma distorção delicada, porém realmente esquisita, e um violão em versos tristes.“Aonde fui parar? / Será que vai melhorar? / Eu deixo parte de mim / Na areia suja do mar / Feito duas nuvens / Que ao se encontrar / Se desfazem”, encerra o estadunidense, que faz o vocal na música.


A última música do álbum é “Os Dias Morrem” foi lançada como single e inclusive ganhou um vídeo clipe. A canção, que é muito mais tranquila que as duas anteriores (“Homem” e “Areia Suja”), trata sobre amizade, o passar do tempo, o envelhecer. “Hão de ser benditos / Os tempos que não me lembro mais / E os passos perdidos / Registrados estão / Nos rastros que deixei / Ranhuras que forjei / Na palma da minha mão / Os calos doem”. É mais uma daquelas crises que, em meio a idade e os questionamentos, é necessário rever o que você já fez de útil. Manter os amigos próximos, as pessoas queridas ao seu lado, pois há uma hora, que infelizmente, a vida chega e nos avisa que os dias não passam, morrem.


Desde o lançamento de Recreio que o Lupe de Lupe vem se mostrando uma das mais importantes bandas de rock do país. As guitarras sujas, a necessidade e espontaneidade de mantar todos à merda sem nenhum pudor sempre serão os pontos altos da banda. Com Distância, os mineiros conseguem subir alguns degraus numa escadaria chamada “fazer algo pela música brasileira”. Se não fossem eles, e mais uma pequena parcela de músicos, estaríamos fadados a covers de bandas velhas e pseudonovidades vindas de um indie rock forçado, bobo e sem emoção. Nenhuma emoção. Nós só temos a agradecer a eles.

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