Mente Vazia Num Ônibus Lotado: a dona do busão

por - 15:06

dama de copas


Ônibus cheio é quase que um pleonasmo. Vai, tô ligado que você concorda. Em época de faixa exclusiva, reorganização e mais um monte de coisa, os coletivos estão cada vez mais lotados. Mas acontece. Principalmente no chamado “horário de pico”, que um bocado de gente sai da firma e está tentando chegar em casa, tanto que nem reclamo muito nesse período. Enfim, era um dia infernal de quente, São Paulo está quase um filial de HellCife e no busão tinha briga para ver quem subia. Mais de quinze minutos esperando o embarque. Uma baita fila lá fora, um busão de 2004, velho pacas, lotado até em cima de gente (e se pá de baratas). Eis que meu fone para de funcionar e eu começo a ouvir uma discussão. Baita de uma briga, diga-se de passagem.


Basicamente a coisa começou porque o ônibus estava cheio. Havia uma mulher de meia idade na frente do coletivo e como já disse, uma fila de gente tentando subir no busão. Óbvio que não ia rolar. Se a lotação do carro é de 65 pessoas e já tem 65 ali dentro, o máximo que podemos chegar é em 80, com muito esforço. Mas o pessoal não larga o osso não, sabia que o próximo só dali 30 minutos ou mais. É que reorganizam o sistema. Aí complica. Essa moça tava reclamando pra caralho. Começou a achar ruim que estávamos parados ali por muito tempo e que ainda tinha gente pra subir. Ela colocou a cabeça pra fora e começou: “ou não vai subir não, não tem como, não sobe não! Ô cobrador!!! Ô cobrador!”, eis que em um momento de genialidade, o rapaz que estava exercendo a sua função vira e diz pra mulher: “eu não abro a porta. Tá vendo algum botão aqui?”. Se o pessoal não estivesse bravo também, provavelmente rolaria aquele grito juvenil e humilhante de “orraaaaaaaa”. Ela ficou meio puta, mas ainda assim, continuou.


Enquanto a senhora gritava, o pessoal do busão começou a ficar contra ela. “Essa louca aí que fica gritando, tá incomodada, sai. Desce e pega um táxi”. Novamente eu ri. E o ônibus ali parado, um calor do caralho. Ela não havia passado a catraca ainda. Colocava sua cabeça pra fora, como naqueles jogos que você tem que acertar a marreta em um bicho que sobe de um buraco, e ia que ia: “ô, não vai subir não! Não vai subir não!”, era como se ela fosse a dona daquela velharia de 2004, todo sujo, com portas mais soldadas que o portão da casa da sua avó. O motorista se encheu e acabou falando alto: “ô minha senhora, o pessoal tem que subir”. Ela retrucou: “subir como? Não tem lugar, pega outro!!”. Ele riu. Vi pelo retrovisor, aquela olhadinha sacana pro cobrador, o riso sínico. A tiazona lá. A rainha do ônibus. Toda puta.


Sem sombra de dúvidas esses foram os 15, 20 minutos mais longos da minha vida. Só que a genialidade da coisa vem agora. Depois de todo o escândalo, o busão cheião, a senhorita olha pra trás, vê outro ônibus e grita: “dá licença que eu vou descer, vou descer”. Saiu empurrando todo mundo, literalmente, como o Fabão dando jogo de corpo. O pessoal já puto, começou a reclamar. Ela falou de novo “sai da frente que eu vou descer, vou pegar o ônibus de trás, sai, sai, sai sai”. Eu comecei a rir de verdade. Porra, ela tumultuou pra cacete e ia pegar outro ônibus? Tá de brincadeira, minha senhora. Misteriosamente, quando ela desceu, todo mundo que esperava para subir conseguiu entrar no coletivo. Em 3, 2, 1 ele partiu. Cerca de 200 metros depois, estávamos lá, parados de novo, mais quinze minutos para o pessoal subir. Só que dessa vez ninguém xingou.

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1 comentários

  1. Ahahahahaha

    "Enfim, era um dia infernal de quente, São Paulo está quase um filial de HellCife e no busão tinha briga para ver quem subia."

    Esses textos são muito bons! É rir para não chorar.

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