Os melhores discos de 2013 por Paulo Marcondes

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Os melhores discos de 2013 por Paulo Marcondes

O ano chega ao fim e a gente continua com aquela coisa de tentar dar uma retrospectiva criando listas dos melhores discos e esse tipo de coisa. A grande verdade é que a gente sempre tenta dar o panorama mais variado aqui no Alt, tanto que em 2013 continuamos com a nossa política de não repetirmos discos na lista. Um dos meus, que optei por colocar em primeiro (e apenas ele eu ordenei), também era o melhor disco do ano para o Fernando Gomes. Entramos em um acordo e ele está aqui. A gente realmente espera que vocês nos xinguem, porque isso mostra que sempre estivemos no caminho certo: a contramão. Não ligamos muito para alguns lançamentos. Não porque somos um bando de babacas na frente de seus computadores que apenas ouvem bandas que são releituras de um passado ridíciulo, é porque estamos prestando atenção, na maioria das vezes, no novo. Porque já diria Belchior (e o Lupe de Lupe), "o novo sempre vem".


  Don L - Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L

A coisa aqui é simples. Em 2013, o Don L colocou nas ruas sua primeira mixtape e ela é foda. Um disco denso, como ele gosta de dizer, sem ostentação, mas longe do clichê que se acumula o rap nacional. Eu gosto de fazer uma parábola sobre esse álbum. Vamos dividir o rap em três níveis. Ensino fundamental, médio e superior. Enquanto o fundamental tem como maior diversão cabular aula e achar que vai ver um peitinho no final de semana, o médio trabalha, mesmo que com preguiça, para chegar no superior. E quem está lá em cima, na faculdade? Ele mesmo, Don L. Com uma gata do lado, vivendo o jogo de um modo meio Tyler Durden, sabendo o que a vida tem de bom e de ruim a lhe oferecer. É rap para adulto, e se resta alguma dúvida disso, é só escutar “Enquanto Acaba”, “Slow Jam”, “Me Faz Acreditar” ou “Beira de Piscina (Remix)” e ver a sexualidade se manifestando do modo mais puro e bonito, assim como um adulto enxerga a vida, sem a afobação juvenil que não sabe onde fica o clitóris. Don venera as mulheres e elas o ama. Mas nem só de mulheres e contemplação vive Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L, a contemporaneidade e o vício em tecnologias estão presentes em “Chips (Controla ou te Controlam), e a grande voadora no peito em tudo isso, “Caro Vapor”, faixa em que Don assume seu potencial para o mundo, em uma das canções mais marrentas de 2013 (o que é ótimo). “E se eu não for seu rapper favorito / Eu provavelmente sou o favorito do seu favorito / Primo”.


CESRV - One Thousand Sleepless Nights

Eu nunca consegui ficar vidrado em música eletrônica, fui mal acostumado a ela. Meus amigos gostavam de David Guetta e esse tipo de coisa, logo, era complicado gostar de fato disso. Mas há algum tempo me mandaram uma lista cheia de discos realmente legais e bons desse estilo. O engraçado é que o produtor paulistano CESRV me faz sentir em um espaço e tempo diferente. Não sei o que é. Eu só me sinto realmente bem ouvindo esse disco, como se a vida fosse muito mais fácil. Eu poderia passar horas tentando explicar o porquê ele está aqui, mas deve ser muito mais tranquilo você dar play e embarcar nessa adorável viagem.


Passo Torto - Passo Elétrico

Quando o peso da cidade cai mais ainda sobre os ombros dos membros do Passo Torto, a coisa vira elétrica. O violão, voz, cavaco, baixo e bateria do disco homônimo lançado em 2011, acaba dando lugar a ruídos vindo de guitarra, processamento de efeitos no cavaquinho e por aí vai. A culpa não é de Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Romulo Fróes e Rodrigo Campos, é de São Paulo, que aparece com seu caos, sua chuva ácida e canta, lá de cima, sobre “O Buraco”, sobre o típico cidadão de uma megalópole em “Homem Só” e por ai a coisa segue de um ótimo modo.


Síntese & Distúrbio Verbal - Buracos ao Chão

O Neto se juntou a Inglês (Distúrbio Verbal) e lançou o split Buracos ao Chão. Tem base lo-fi, tem aquele papo pesadão do Síntese – e o Distúrbio Verbal não fica atrás –, e em alguns sons ambos estão juntos. O disco é a necessidade de expressão tanto de Inglês, quanto do Neto (que agora é quem cuida sozinho da parte musical do Síntese, enquanto Léo está encarregado das partes espirituais). Falar, sempre é melhor do que ficar calado, como diz o txt que vem de brinde com o disco. “Apesar do teor denso, e de vibrações negativas emanadas nos registros, acreditamos que trazemos um princípio além de um propósito, num formato de músicas que, às vezes, até gostamos e achamos mais relevante que o silêncio, no momento”.


Thiago França - Malagueta, perus e Sambalanço


A malandragem come solta, a sinuca, uns merdunchos por aí, como gostava de dizer João Antônio. Esse álbum, lançado no final do ano, é uma homenagem e foi todo inspirado no livro Malagueta, Perus e Sambalanço, do paulistano João Antônio. Nele, o escritor conta a vida de três malandros (que dão nome ao livro) em uma noite. João Antônio é ótimo em retratar as figuras mais marginalizadas da sociedade: os cafetões, as prostitutas, travestis, a malandragem e porque não, os otários. O disco é uma ode ao livro e consegue, de um ótimo modo, embarcar em toda a viagem que ele traz ao leitor.



Gringo


John Zorn e Thurston Moore - @


Uma vez eu e um amigo nos juntamos e lançamos um EP. O disco que gravamos basicamente partia da premissa de que precisávamos fazer música, ao nosso modo, como uma forma de unirmos vontades e nos expressarmos a respeito do que estava acontecendo naquela época. @ é isso. Uma sessão em que Zorn e Moore se juntam e tocam, como dois amigos, sem nenhuma pretensão, apenas pelo bom e velho prazer de criar algo, musicalmente falando. É como se você e seu melhor amigo sentasse um dia em quarto, ligasse toda a aparelhagem às 9h e ficasse até às 22h tocando, viajando, brincando e deixando a coisa fluir com a maior naturalidade do mundo. Porque assim que precisou ser.

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