Mente Vazia Num Ônibus Lotado: Cuspiram no banco

por - 15:03

Chuva


São Paulo é assim: de dezembro até fevereiro, chove pra caralho. Quase todo dia. E nem é na cidade toda, é só em um bairro, às vezes, em só um lado do lugar, pior ainda, tem dia que no começo da rua tá caindo mó água da porra e no final tá tranquilo, sol bonito, calor insuportável. E o que acontece em dias como esse? Quando São Pedro resolve brincar de mandar uma quantidade exagerada de h20 pra sua cidade? Isso aí, temos que enfrentar transportes coletivos.


Quando a chuva vem do nada, os bancos próximos a janela sempre estão molhados, encharcados, mas eu nunca ligo e sento mesmo assim. Poxa, sério que vou ficar de frescura porque vou molhar a bunda? Enfim, era um dia chuvoso pra caramba na Avenida Paulista. O motorista do ônibus que estava me fez andar uns 100 metros, só de brinks, na chuva. Fiquei ali, esperando o outro veículo. Do nada o mundo cai. Depois de uns dez ou quinze minutos, aparece o meu busão. Entrei nele, a galera de guarda-chuva querendo subir antes e eu tomando toda água na cabeça. Pro inferno o pessoal. Subi como um gato. Rapidão. "Valeu, moto", sorri. Procuro um lugar próximo à porta que descerei, porque ele vai encher. Sempre lota. Não importa o dia, o horário, a gente brinca aqui no bairro que esse ônibus vive cheio, gente espremida e etc.


Na minha busca pelo lugar ideal perto da porta, vi um perfeito mas tava molhado. Sem erro. Só que pra minha surpresa não tinha apenas água ali. Um negócio viscoso e meio esverdeado boiava no meio daquela água da chuva. "É brincadeira, vai", tentei me convencer. Olhei de novo. Catarro. O mais puro creme da doença estava ao meu lado, em um banco de ônibus razoavelmente isolado. Eu tentei me perguntar o porquê alguém faria isso. Não obtive respostas. Sentei ao lado do suco de gripe. Um senhor ia sentar. Adverti. "Ô, melhor não". Ele retrucou. "Pô, um pouquinho a mais ou a menos de chuva não faz diferença", riu. "Meu senhor, eu tenho certeza que isso aí é catarro", lancei a real, né. "Caramba...". "Senta no meu lugar aqui, sem erro", disse pra ele. Ele era legal. Simpático, carregando uma mochila pequena, daquelas que sempre quis mas nunca usei porque tenho 1,90 de altura e iria parecer uma lancheira em mim.


Enquanto eu ficava em pé, encarava de um modo estranho aquela gosma verde em cima do banco. Sabe, a gente já reclamou de barata no ônibus, meu bairro está circulando com veículos fabricados em 2002, com letreiros escritos a giz, parecendo lixeira de zoológico, cheio de lata, resto de comida, cordinha pra dar sinal e saco de salgadinho jogado no chão, mas poxa, catarro, velho? Essa foi inédita até pra mim. Quem quer que tenha cuspido ali dentro, por favor, faça isso novamente e me deixe registrar o momento. Se foi uma criança, ela é idiota. Se foi um moleque querendo ser engraçado, de fato, ele é engraçado.


Gostaria de deixar um recado aqui para a SPTrans, empresa responsável pela administração dos ônibus em São Paulo: catarro não dá, né, pessoal. Barata, ok. Cheio, ok. Sujo, ok. Mas catarro, bicho?

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