O que eu leio e o que eu faço - Young Lights

por - 12:06

Jay1


Quando as pessoas sabem que você gosta de alguma coisa, quando isso se firma, você é diariamente agraciado com uma lembrança dessas pessoas, principalmente via Facebook. Comigo isso acontece principalmente com bike e com a música folk. Sempre que pinta uma banda que tenha elementos de folk algum amigo meu vem mostrar e assim eu fico conhecendo um monte de coisa, dentro dessas tendo sempre uma que me surpreende positivamente. Foi assim que tive acesso ao trampo do Young Lights, de Sabará (MG).


Confesso que fiquei surpreso com a qualidade do trabalho, altamente profissional e uma das primeiras coisas que pensei foi que a pronúncia do inglês do cara era muito boa, não que eu deixe de ouvir uma banda se a pronúncia não for, mas como professor de inglês eu sempre presto atenção nisso. Foi num post do Vitor Brauer, da Lupe de Lupe, que eu entendi que o cara era gringo.


Entrei em contato com Jairo Horsht Paes via Facebook e, dentre outras coisas, descobri que ele não é gringo, mas que morou dos 3 aos 19 anos nos EUA. Perguntei se ele preferia que a entrevista fosse feita em português ou inglês e ele me disse que se sentia mais confortável de responder em inglês. Essa entrevista é bem especial para mim, primeiro porque é a volta do “O que eu leio e o que eu faço” e segundo porque é a primeira de 2014.


Nesse papo trocamos ideias sobre o processo de composição, de gravação, as referências musicais do universo do Jay, um pouco da história da sua família e os caminhos loucos que o tornaram um artista com uma boa repercussão no cenário brasileiro. So, voilá.


Para ler a entrevista em inglês, por favor, clique aqui.


Jay8


Conte-nos um pouco da sua história...

Bem, eu nasci em Belo Horizonte em 1991, e minha família imediatamente se mudou para Worcester, Massachussets (EUA) quando eu tinha apenas 3 anos de idade. Minha mãe, pai e um irmão mais novo, que tinha dois anos na época. Eles se mudaram em busca de uma vida melhor e eu acho que em busca de mais oportunidades de trabalho. São pessoas muito corajosas por irem a um país estrangeiro com duas malas e duas crianças (risos). Eu entrei na música por meio da igreja, meu pais são pastores. Eles tinham uma pequena congregação e eu aprendi a minha paixão pela música por meio da adoração, podemos dizer. Eu tenho duas nacionalidades, mas são brasileira e europeia. Nunca obtive minha cidadania durante meus 17 anos nos Estados Unidos e isso me levou a decidir vir embora. Meus pais estavam cansados do trabalho puxado e decidiram ir embora em 2008 quando eu tinha quase 17 anos de idade. Não fiquei feliz com isso e decidi ficar mais, porque eu estava no Ensino Médio e tinha meus amigos, minha banda, minha namorada, minha vida inteira. Mas em 2010, depois de 2 anos e meio eu também me cansei de trabalhar em empregos terríveis de meio período e estava com muita saudade da minha família. Decidi vir pro Brasil pra basicamente começar de novo. Meu irmão tinha conexões com uma escola de inglês que estava interessada em falantes nativos, e assim que cheguei eu já tinha um trabalho pra mim. Nunca me senti em casa nos Estados Unidos, sempre me senti deslocado. Me sinto mais em casa aqui no Brasil, apesar de que meu português não é tão fluente e um monte de gente me conhece como Gringo.


Jay10


Qual era o nome da sua banda nos EUA?

O nome da banda era “The Break-Up Season” (algo como “A Estação do Fim de Relacionamento”), tínhamos 16 anos e estávamos cheios de amor fofo, além de ser muito influenciados pela cena pop punk e folk. Nós na verdade escrevemos uma canção chamada ‘The Worcester Song’, que foi como um “hit” entre nossos amigos, ainda sou influenciado por essa música e talvez eu faça outra versão dela. Quem sabe ela estará no próximo álbum (risos).


Que instrumentos você toca?

O primeiro instrumento com o qual eu tive contato foi a bateria. Quando eu tinha 9 anos havia um cara que tocava bateria excepcionalmente bem para o time da igreja do meu pai. Depois do culto em vez de sair e ir brincar com as outras “crianças da igreja” eu sentava naquele trono da bateria e tentava entender como aquilo funcionava (risos). Continuei fazendo isso por um tempo, até que um dia eu comecei a tocar para o time da igreja (risos). É realmente estranho lembrar desses momentos. Eles são impagáveis. Mas depois eu peguei o violão, meu pai sempre tocou. Tinha um piano em casa e eu aprendi a tocar ele por meio da guitarra, colocando todos os acordes em cada tecla separadamente. Mas eu realmente posso dizer que sou um violonista de violão acústico. Não sei realmente como uma guitarra funciona, mas estou começando a entender.


Jay6


Como você teve a oportunidade de gravar por aqui?

Eu conheci esse cara chamado Pedro “Cido” Cambraia de madrugada em uma boate alternativa e ele estava cantando com uma garota do lado de fora e eu pensei “O que porra esses dois estão fazendo?”, o que foi bizarro, pois interrompi o dueto bêbado dos dois e nós começamos a conversar (risos). Ele tem um estúdio chamado “Lumen Estudios” e começamos a gravar. O processo de gravação foi puro sofrimento (risos). Em 2 anos completamos seis canções para o An Early Winter. Já que eu estava só foi difícil ter músicas prontas pra gravar, então eu fui completamente despreparado, e essa foi a minha primeira vez que gravei mais do que três canções. A maioria das ideias para as faixas que eu tinha antes foram apagadas. Então o Cido sofreu, eu sofri...


Jay7


O EP soa realmente profissional, quem foram os envolvidos nesse processo?

Muitas pessoas que são amigas do Cido começaram a me ajudar no disco. Eles vinham e diziam coisas como “Ei, cara, o Cido me mostrou teu trabalho e eu achei maravilhoso! Se precisar de alguma coisa, só me avise”. Então eu tirei vantagem dessas ofertas (risos). Então tivemos Pedrinho Muller nas guitarras, Vitor Brauer (Lupe de Lupe) nas guitarras, Daniel Coelho na bateria, Raphael “Chumbinho” Salazar no baixo, Vicente “Preá” Franca (Dibigode) nas gaitas e trompetes, Thiago Salgado (4instrumental) nos pianos. Eu sou muito grato a essas pessoas por me ajudarem e eles acabaram se tornando amigos para tomar uma cerveja nos fins de semana ou dar um rolê. Sou muito grato por tudo que o Cido e o resto dos caras fizeram por mim.




Então, quando você escreve o que vem primeiro? A melodia, a letra?

Sim, me perguntaram isso muitas vezes. Eu conheço um monte de escritores que tem o seu pequeno “caderno preto”, de letras ou ideias. Não sou um desses. Geralmente eu cato um pedaço de papel e rabisco algo que vem na minha mente, quando vem. E eu sempre vou lembrar disso. Mas geralmente meu processo de escrita consiste de 5 coisas 1. Um violão (obviamente); 2. Meu banheiro (para acústica); 3.Meia-noite (porque é silencioso); 4.Cigarros (me ajudam a pensar) 5.Álcool (porque álcool...preciso dizer mais?). A maioria das canções que eu escrevi  a melodia e a letras foram feitas simultaneamente. Mas não é tão fácil como apenas escrever. Tem muita coisa envolvida, emoção e satisfação, mas eu também não gosto de passar muito tempo escrevendo uma canção, parece que atrapalha o propósito da expressão espontânea e estraga as canções e o sentimento. Se eu trabalho muito numa canção eu sinto que ela desaparece. Quase como um artista trabalhando numa escultura. Se você continua a polir, a talhar, seja no barro ou na pedra, você acaba tendo nada mais para trabalhar. Apenas desaparece. Às vezes, canções apenas vem a mim, algo que eu precisava dizer naquele momento, e na maioria das vezes eu fico satisfeito com isso, porque eu sei que é real.


As imagens nas suas canções são muito vívidas, é intencional?

Bem, tipo, eu fico feliz que você tenha essa opinião sobre as minhas canções. Eu acho que todos vêm algo em um trabalho artístico, podemos dizer. O propósito das canções era apenas mostrar as expressões metafóricas que eu tinha na minha mente naquele tempo. A intenção era parecer cru e aberto como quando eu escrevi “Oh, Darling”, tão otimista quando eu escrevi “Alaska”, nostálgico e cheio de culpa como quando eu escrevi “Anybody Else”. Mas fico feliz que as canções pintam imagens vívidas na sua cabeça, ajuda a entender o que a canção significa pra ti. Eu acho que isso é importante.


Jay11


Quais são seus compositores favorites? Os letristas que realmente chamam sua atenção.

Chris Martin, do Coldplay, sempre foi uma inspiração. Eu acho que o cara sabe como escrever uma bonita canção. Justin Vernon, do Bon Iver, na maioria das vezes eu não sei o que porra ele está dizendo mas chama minha atenção pela maneira como ele canta, e o que ele faz com suas canções. Bob Dylan, tipo, não há muito a dizer, o cara apenas diz todas as coisas certas a partir de experiências muito, muito, muito sensíveis em sua vida. Kristian Mattson, do The Tallest Man on Earth tem sido uma grande influência nas minhas canções esses dias. Ele faz canções fáceis de ouvir, bem estruturadas e comoventes. Nunca vou me cansar desses quatro artistas. Tenho curtido muito rap e hip hop como Kendrick Lamar, A$AP Rocky, NWA, Notorious B.I.G. Esses caras tem grandes hits que dizem o que é preciso dizer para contar sua história e eu sinto isso como uma inspiração. Quem sabe, talvez você vai ouvir mais canções influenciadas pelo rap no futuro.


Como você se sente sendo parte da Geração Perdida, de Minas Gerais?

Tipo, eu gosto de ser parte de um grupo que de uma maneira ou outra tem algo em comum comigo, uma crença em comum com relação a algumas coisas, um interesse comum em um certo tipo de música, livro, filme, sonho. Eu acho que somos um bando de bons garotos que estão sempre tomando conta uns dos outros, aprendendo juntos, vivendo experiências e crescendo juntos. Estamos fartos do meio que circula nossas a cultura na nossa cidade e queremos melhorar isso no senso de que devemos tentar, então queremos fazer com nossas vozes sejam ouvidas e compreendidas. Eu gosto desse grupo de garotos perdidos, o mais importante é que somos perdidos juntos.


jAY5


Você gosta das bandas brasileiras inspiradas pelo folk, como o Vanguart?

Tenho inveja do Vanguart. Os caras realmente conseguem escrever uma música de folk americano em português. É muito difícil fazer isso. Eu tentei e falhei miseravelmente (risos). Minhas canções acabam soando como um tipo MPB de som o que é decepcionante. Eles são uma grande banda e podem escrever grandes sons.


O quão importante são os livros na sua vida?

Tenho que admitir que não sou um grande leitor. A maioria dos meus amigos se graduaram em letras, e são ou professores, ou artistas ou escritores, ou tem bandas. Eu vejo como a literatura é uma grande parte da vida deles, e como eles são uma grande parte da minha vida tudo vem junto. Eu gosto de ler os romances do Ernest Hemingway porque eu realmente me identifico com as facetas selvagem/raivosa sensível/emotiva da sua escrita. Bukowski porque ele realmente não tava nem aí pra porra nenhuma, e não entendia uma sociedade que não compreendia seu pensamento e sua maneira de inspiração via álcool sempre me atinge (risos). J.D. Salinger que escreveu provavelmente meu livro favorito, O Apanhador no Campo de Centeio. Esse livro explica muito dos meus pensamentos juvenis/ingênuos/adolescentes. De uma maneira ele influenciou minha auto-descoberta e traz inspiração para um processo de escrever canções, eu acho.


Jay2


Existe algum filme que você gostaria de ter feito a trilha sonora.


(risos) Não acho que minha música é foda o suficiente para os filmes que eu realmente gosto. Um dos meus filmes favoritos é D’ e eu acho que o College/Eletric Youth fez um trabalho realmente muito bom com aquela canção "Real Human Being". Eu poderia provavelmente ver minha canção em alguma comédia romântica bobinha, que, secretamente, são meus “guilty pleasures” (risos).


Qual será o próximo passo do Young Lights?


O próximo passo? Não tenho certeza absoluta. Eu acho que apenas conseguir shows com bandas mais conhecidas localmente como Lupe de Lupe, Quase Coadjuvante, até Camera, Constantina, Dibigode e tentar promover o EP que lancei. Mas já estou escrevendo canções novas. Eu tenho um amigo, Erik Batista que tem escrito canções comigo e estamos procurando por músicos dedicados/estáveis que queiram escrever músicas sérias e se divertir com isso. Vamos tocar em Brasília esse fim de semana, 2 de fevereiro, com ajuda do meu amigo Artur, da Tiro Williams. E esse é um grande passo para mim! Tocar para um público totalmente novo, um lugar totalmente novo. Essa vez em Brasília vai definitivamente ser um grande capítulo na nossa curta carreira. Eu adoraria sair em tour, mas vou apenas focar em tocar em shows locais e ajudar a cena a crescer. Eu acho que Belo Horizonte precisa de um algum tipo de revival musical.


Jay3


Pra terminar, você pode me dar uma lista dos 5 livros que você mais curte.

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger
O Velho e o Mar – Ernest Hemingway
Mulheres – Bukowski
Angústia - Stephen King
O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

Você também pode gostar

0 comentários