"Gritos de guerra, Novelas de Amor"

por - 16:09

copa


Pela primeira vez na vida, devo dizer que assisti a uma novela das oito. Fiz este comentário despretensiosamente num dia desses da semana e fui surpreendido com a falsa revolta da pequena parcela da esquerda reacionária que até então só tinha ouvido falar. Um cara que havia sido detido na última passeata realizada contra a copa do mundo desferiu sua inconformidade para o meu repentino interesse por novelas. “Enquanto eu tento mudar o mundo, você assiste esse lixo”, disse ele. Refleti profundamente seu comentário, mas devo dar o braço a torcer, ele tem razão. Ou quase.



Verdade seja dita, novelas não são o primor do entretenimento, ou melhor, não deviam ser. Por mais que nada que tenha o objetivo de te fazer esquecer da vida deva ter algum valor sociocultural, é chato admitir que as novelas praticamente exibem padrões comportamentais vigentes, levemente apresentam tendências comportamentais e alertam situações não aceitáveis na forma de drama primário ou conflito coadjuvante com relação aos personagens envolvidos. E isso por si só é meio chato porque elimina possibilidades de reflexão acerca de um problema social vigente, pois só mostra um dos pontos de vista, que é sempre o errado. Qualquer obra que te aponta um problemática nunca vai abordar a origem do problema, mas somente a solução, que nem sempre é a melhor possível.



O retrato da sociedade está lá estampado e sinceramente espero que ele não nos represente de forma geral, ou então serei convencido de que estamos todos fodidos. A visão dos autores de muitas formas é deturpada e só mostra os extremos, já que capturar o medíocre é difícil por não se destacar em absolutamente nada, senão em sua própria qualidade de mediano. Preconceito é alimentado na intenção de combater preconceito. A mensagem é tão clara nas pequenas películas que abre precedentes para outras interpretações, que a meu ver mostram claramente a dificuldade em ser coerente ou lógico do ponto de vista mais cético. Novelas dão a ilusão de que podemos ser mais, quando na verdade estamos apenas assistindo tudo isso calados literalmente.



Por que estão protestando mesmo? Ah, não querem a copa aqui. Não querem que o pensamento colono seja disseminado e que os estrangeiros pensem que somos uma nação relapsa, corrupta ou subdesenvolvida. Dizer “não reparem a bagunça” nunca cola quando você leva visita pra casa. Vão reparar na bagunça e vão pensar no quanto você é desprezível por não arrumar nada. Ou talvez nem reparem mesmo. Mas verdade seja dita, ninguém conserta um país com uma passeata ou duas, o que não tira em nada o direito de protestar, mas também não tira o meu direito de assistir novela. Temos aqui dois cenários: os que assistem a bagunça e os que querem acabar com ela. Eles podem se inverter a qualquer momento, a novela das oito acabou, somente lembrando.



Mas o que faz o esquerdinha metido a Guy Fawkes estar certo quanto a toda essa discussão de novelas e revolução? Simples. Sempre teremos novelas e o babaquinha revolucionário. Ele pode até fazer inferno na Avenida Paulista, ser detido e se gabar por ter participado de algo tão grande que vai contar aos netos todo orgulhoso, no entanto, nunca vai enxergar o símbolo de sua luta, que é muito mais profunda que a Copa do Mundo no Brasil, que aliás, acabará ao final de junho, e que o próprio talvez nem seja capaz de compreender por estar ocupado demais com algemas na mão e discurso heroico na ponta da língua. E o mesmo se aplica a novelas, porém, com elas temos a opção de assistirmos ou não e independente do que seguirmos, é mais fácil compreender seus símbolos e dilemas. Mas enquanto um já começou errando e o outro estava ocupado vendo novela e nem começou, a ele dou meus parabéns. De prêmio, ganhou um beijinho xoxo e semi-homossexual do Felix.


beijo

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