É carnaval de novo, e o novo?

por - 11:05

Carnaval de rua no Recife em 1947 – Foto Pierre Verger

De uns tempos para cá tenho pensado que não sou um cara muito carnavalesco. Digo isso por que me lembro do carnaval do Recife antes de se tornar “multicultural” e atrair as atenções de todo o Brasil. Naqueles tempos, existiam os blocos líricos tradicionais, as troças, orquestra de frevo e eu não tinha muita paciência para esse tipo de sonoridade.


Depois se tornou multicultural, trazendo diversas atrações nacionais e de outros países, deixando a brincadeira mais democrática e plural, além de criar um novo perfil de folião, aquele que gosta dos shows. É nesta categoria que sou um ser carnavalesco, com diversos anos de “Carnaval na Obra” e alguns outros de “Carnaval no Inferno”. Mesmo que tenha simpatia por alguns blocos, tendo comparecido a prévias e até os seguindo, nunca fiz disso uma tradição, como é a de ver shows descentralizados ou centralizados no carnaval do Recife.


Talvez por esta explicação acima, posso me permitir dizer que se não fosse por minha mulher, provavelmente não passaria carnaval no Recife. Escolheria uma praia, ou alguma outra cidade para ter o apelo turístico de conhecer um lugar novo, além do carnaval tradicional e falo isso porque a programação deste ano conseguiu ser menos relevante que a do ano passado, que já foi deveras problemática.


Não quero entrar no mérito do uso do dinheiro público e da política, mesmo porque grande parte do público local (além dos turistas), fará deste feriado mais um sucesso. O carnaval do Recife parece muito com a política no estado e no Brasil. Isto porque em ambos o senso da população é alterado, já falei em mais de uma oportunidade que se eu subisse com uma caixa de fósforos no palco do carnaval, eu seria aplaudido. Ou seja, o crivo não é lá muito alto.


Provavelmente pela questão do crivo, os artistas também não se esforçam em inovar seus shows. Existem vários exemplos, entre eles vejamos a situação do Otto, que no ano passado fez seis apresentações durante o carnaval no estado e neste ano tem pelo menos duas. Vi o Otto duas vezes ao vivo ano passado em locais diferentes e ambas as vezes, as coisas foram bem parecidas em praticamente tudo. Isso porque o Otto tem uma das bandas mais competentes do país, que não se importaria em tirar o Condom Black ou Samba Pra Burro todo para um show especial dentro do carnaval, e isso seria bem interessante.


Outro exemplo é o Eddie, que neste ano comemora 25 anos e mais uma vez toca com Erasto Vasconcellos, como já aconteceu em outros anos. Por se tratar dos 25 anos do Eddie e pela presença do Erasto, não vejo como o grupo poderia inovar uma coisa que já repetiu por várias vezes. Bem mais interessante seria ter tocado o disco do Erasto com ele em outros anos e nesta oportunidade mandar o Sonic Manbo na integra, inclusive com participações especiais que estarão por aqui, mas isso não irá acontecer. Um exemplo positivo e a ser seguido é o de Siba, que aproveita o único show no carnaval para apresentar um novo projeto.


O respiro de novidade nos últimos anos tem sido o Rec-Beat, mas a repetição do modus operandi acarreta em enfado, o que pode ser visto neste ano. As atrações latinas são sempre uma roleta russa, alternando momentos horríveis com outros sublimes. As vezes penso que seria muito mais interessante trazer mais atrações nacionais, com uma passagem mais barata. Neste ano, destaques (não novidades) são poucos, e boa parte deles concentrados em um mesmo dia. Entre eles, Emicida não é novidade, mas pelo menos tem um disco novo. Já o João Donato é a cara da MIMO, Arrigo Barnabé no folk é uma aposta e Boogarins é o respiro de novidade para a maioria do público. Entre os gringos, a banda instrumental Bélgica DAUU é bacana e o blues do Mud Morganfield também é responsa, entra na cota do Festival de Jazz de Garanhuns. Sobre os locais, já falei dos destaques aqui.


No fim das contas, deve ser por isso que vários pernambucanos que conheço tem abdicado cada vez mais do carnaval e viajado por ai. Atrações repetidas e pouco atraentes, locais públicos se transformando em camarotes privados, toque de recolher das ruas. Tudo isso atrapalha a festa do povo e faz a festa ser apenas de alguns, dos tais turistas encantados por muita luz e pouca cultura (ou muito barulho por pouca coisa).

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