O Anti-herói de uma cena forjada

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Angelo Souza, atualmente mais conhecido pela alcunha de Graxa, fez um dos melhores trabalhos musicais de 2013. Tudo feito de maneira simples, calma e sem muita estrutura, mas de coração e verdadeiro. Um exemplo de um trabalho lo-fi e caseiro da mais alta qualidade, como tem sido cada vez mais comum na música brasileira.


Também em 2013, vimos no Recife mais um exemplo de necessidade de rotular ou forjar a existência de uma cena, uma atitude para nós tão desnecessária que nunca foi falada por aqui. E esta tal “Cena Beto”, do mesmo jeito que nasceu rápido, morreu rápido. Um exemplo do que seria uma cena em tempos de velocidade, internet e século XXII. Isto por que uma cena precisa atuar no mesmo tom, entre os artistas e o público. Não adianta um jornalista definir algo, quando os músicos não se unem e se fecham em algum ponto no qual tenham afinidades desde o principio.


Graxa fez isso em Molho, seu primeiro trabalho solo. Nele temos toda uma cena, criada por Angelo intencionalmente, ao chamar todos os amigos com ideias convergentes para participarem do disco. O mesmo ele tenta repetir ao vivo, quem o acompanha nos shows são integrantes de outras bandas e projetos, tal qual se faz numa colcha de retalhos dos bons. D Mingus (hoje Rama), Tiago Marditu Soundz, Leonardo Vila Nova (Dunas do Barato), Hugo Coutinho (Sábia Sensível). No disco, temos todo esse pessoal, além de Aninha Martins, Matheus Mota, Jean Nicholas, entre outros nomes. (Leia o faixa a faixa)



Ao vivo, Graxa é um sopro de personalidade dentro da cena e da música nacional cada vez mais homogênea. Não perde seu jeito lo-fi de outros tempos e outras bandas, e isso pode assustar quem escuta o disco. No show o som é cru, o vocal não tem frescuras e efeitos rebuscados e por isso você pode entender claramente a mensagem passada em suas canções. Modesto, Angelo não espera a terceira música para se apresentar, ele solta um “E ai Rapaziada!” antes mesmo de começar a apresentação. É um deleite poder acompanhar atitudes tão naturais no palco em tempos de tanto profissionalismo.


No palco, ele age do mesmo modo que fora dele, do mesmo jeito que leva a vida e faz seu som, um tanto introspectivo e demonstrando certa timidez, mesmo que à vontade. Porém, Graxa expõe seu problemas no palco, do mesmo modo que faz em seu disco. Ao mesmo tempo em que se eleva, o músico demonstra todos os seus vícios, como um anti-herói. E isso pode demonstrar fraqueza e causar estranhamento ao personagem, elevando outros nomes da forjada e ultrapassada cena.


Outros destaques da ex-cena Beto demonstram potencial e qualidade para tal posto. Porém, passam longe de sair do modismo da música nacional. Juvenil Silva faz um rock simples, e eficiente. Eficiência demonstrada por ser um bom compositor, mesmo se expondo bem menos que o parceiro de canivetes em suas letras. Em suas apresentações, o som de Juvenil (que é bem comum no disco) fica encorpado, vivo, fruto do pensar uma banda voltada para isso. Aliado a isso, Juvenil tem um carisma natural, ganhando a simpatia e atenção do público.


Aninha Martins, a diva/musa da cena recifense é outro exemplo de modismo e qualidade. A bela voz, aliada a boa presença de palco, atrai a atenção de todos os aficionados pela musica pop da cidade, mesmo que ela ainda não tenha lançado nenhum trabalho. Ao vivo, Aninha é sempre o alvo de sua apresentação, o que demonstra o talento da moça e uma possível disparidade entre ela e a banda que a acompanha. Outra característica que faz com que ela seja um potencial midiático é a capacidade de interpretar ou dar voz as palavras dos outros, um fator muito comum nas cantoras femininas de sucesso na história da música nacional. Mesmo que, desde este início de carreira, Aninha tenha composições e letras em parcerias.


Juvenil e Aninha são exemplos de quão forte é a possibilidade da música pernambucana alçar voos cada vez mais altos na escala nacional e midiática. Porém, em termos de arte e fascínio, não chegam perto do que o som de Graxa pode provocar. Caso você que leu este texto esteja, seja ou venha para o carnaval do Recife, terá a oportunidade de tirar suas próprias conclusões comparecendo ao Festival Recbeat em 2014, onde os três irão se apresentar.


PS: Foto por Bernardo Sampaio/ Ostra Monstra

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2 comentários

  1. Esse tal de Beto deve ter feito mal a muita gente. Todo mundo querendo matar o pobre! Hahahahahahahahahahahahaha..

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  2. Leonardo, só se mata algo que está vivo. Beto nunca existiu! :)

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