Som e muita arte na floresta

por - 15:08

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O IV Festival de Arte Livre Pai da Mata foi um respiro para a cena musical da cidade do Recife, ainda mais com esta prefeitura retrógrada tentando impedir ações culturais como o Som da Rural. Falo em respiro porque além de integrar diversas ações, o festival desde seu início tenta descentralizar sua localização e fazer com que o público tenha mais contato com a natureza. Em sua quarta edição, o Arte Livre Pai da Mata conseguiu aliar a integralidade de artes como cinema, música e design, além de diversas performances, tudo acontecendo com toda liberdade presente no nome do evento.


Moro no centro do Recife, a menos de um quilometro daqui é o marco zero da cidade, local onde tem início a contagem e extensão da cidade. Do Marco Zero até o Bar Boca da Mata são cerca de treze quilômetros, lá no Bairro de 2 Irmãos, perto da BR 101. Falo da distância, porque tanto ela, quanto o não conhecimento do local, são fatores que normalmente não atraem os interessados em música da cidade. Porém, isto foi deixado de lado no último sábado, e este é o primeiro triunfo que ressalto no festival. Cerca de 850 pessoas estiveram presentes na Estrada do Passarinho, número 250, seja para participar de oficinas, ver os shows, os curtas, entre outras ações do evento.


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Cheguei por volta das 18h no Boca da Mata e pude ver que já tinham alguns curiosos esperando o começo do primeiro show do dia, aproveitando para conferir as outras ações do festival. Vi algumas artes para vender, além de belas camisas. O festival se espalhava e era dividido dentro do terreno do bar. Na entrada, mesas para alimentação e bares para bebida, além do palco livre para jam sessions. No meio do caminho, vi pessoas subindo e descendo de um tecido pendurado bem alto em uma árvore, sem proteção alguma. No final do terreno, um toldo com o palco que se preparava para a primeira atração musical.


Sérgio Wakuni aparece na frente do palco acompanhado de uma moça com bastões de ritmo e começa a entoar alguns cantos indígenas, uma espécie de benção para que tudo corra bem durante a noite. Depois disso, se junta a ele a Orquestra de Didgeridoo, também portando instrumentos indígenas e percussivos. Depois de um ou dois temas, apareceram instrumentos de corda no palco, como o violão e violino, e a Didgeridoo seguiu o show com algumas de suas composições. Achei o som bacana, bem calmo, com um pé na MPB e não sei porque me lembrou um pouco o fado (mas sem vocal).


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Depois deles, foi a vez do primeiro show da banda uïu, um projeto instrumental com alguns nomes já famosos da cena pernambucana. Marcelo Campello tem um trabalho solo instrumental de violão. Ele, Henrique Vaz e Lucas Alencar também fazem parte da banda Poruu. Além disso, o grupo ainda conta com Mateus Alves, que no começo deste século fazia parte da banda Ahlev de Bossa com o próprio Lucas Alencar e outros integrantes. Para fechar, o uïu conta com Hugo (da Rua) na bateria. Neste primeiro momento do projeto uïu, posso dizer que vi nuances de Poruu e Ahlev e o show foi bem bom. Posso dizer também que a banda é promissora e espero que a galera continue com o projeto.


Veio a mostra de curtas, com filmes da galera da Símio Filmes, como Daniel Bandeira e Marcelo Pedroso. Aqui vai minha crítica/problema pessoal. Acho muito disperso ver vídeos em sequencia ao ar livre, ainda mais com cerveja, na hora do jantar e na expectativa pelos demais shows. Seria mais interessante ter intercalado os curtas entre os shows, já que existe a troca de palco e daria para passar um curta numa boa. Acho que os filmes teriam mais atenção do público no final, mas teve uma galera que sentou e assistiu tudo numa boa, aplaudiu e vibrou. Deve ser problema meu.


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A próxima apresentação foi do trio instrumental de música do mundo Saracotia. Música do mundo porque a banda passa pelo chorinho, pelo samba, transforma Beatles em uma espécie de xote e ainda manda versão do "Chick" Corea, caindo pro jazz. O grupo mandou faixas de seu primeiro disco homônimo e apresentou novas composições. Dentre elas, uma chamada “Das Holandas” chamou minha atenção, mas o som deles continua muito bom e o público acompanhou tudo com bastante atenção.


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Depois foi a vez de Aninha Martins com o show mais disputado da noite, começo a ver um pequeno hype em torno da musa desta nova cena independente do Recife. Mesmo antes dela lançar seu primeiro disco, vi várias pessoas acompanhando e cantando todas as canções da moça. Aquela áurea da MPB setentista revisitada vem bem a calhar com a voz de Aninha, mas ainda acho que a banda pode evoluir um bocado. Destaque para o já hit “Faz ideia”, mas ela tem vários hits em potencial e ela é uma excelente interprete, mesmo que ainda pense em clichê e machismo quando vejo uma cantora não atuar como compositora desde o início.


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Vi apenas um pedaço da performance no tecido, que aconteceu depois do show. Resolvi passar esse tempo na área do palco livre, onde jams já rolavam desde mais cedo. Vários nomes da cena independente da cidade passaram por lá para tirar um som, em meio a um pessoal que eu não conhecia, mas que também mandaram bem. Foi uma ótima ideia o palco livre com uma guitarra, uma base de bateria e um baixo. Foi uma das melhores diversões da noite. Do lado do palco, acontecia outra performance, com uma menina cortando o cabelo da galera no meio do bar. Espero que essa interação saia do palquinho e apareça em parcerias posteriores.


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Começou então o último show que eu tive condições físicas de acompanhar no fim da noite de sábado, já passando para o domingo. Graxa subiu no palco, lançou algumas palavras para o público e mandou uma sequência de músicas do seu primeiro disco, levando os presentes ao delírio. Depois aproveitou o espaço para apresentar composições de seu novo trabalho, seguindo com algumas letras ácidas, trocadilhos e a sonoridade já marcante de Angelo Souza. Destaques para “Um Bando de Crocodilos”, a nova “Gengibre” e outra canção, que ainda não foi lançada, que fala dos jornalistas culturais e esta aqui que fala de calhambeque. Algumas pessoas acharam Graxa um tanto apressado em mostras as novas músicas, mas ele disse que para quem não conhecia o som, era tudo música nova e eu gostei do show. Para mim, Graxa é a verdadeira cena dentro de uma cena forjada.


Já era quase uma da manhã quando Ivinho iniciou sua apresentação, eu já estava morto da maratona e acabei perdendo o show dele e o do Anjo Gabriel, que encerrou a noite tocando o novo disco Lucifer Rising (que é muito bom). Fico devendo ver um show dos camaradas na próxima oportunidade. Resolvi ir atrás de um taxi com alguns amigos e dar a bela noite na floresta por terminada. O Pai da Mata está cada vez maior, trazendo as pessoas para a natureza e com uma ótima estrutura.


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PS: Todas as fotos tiradas pela Ostra Monstra.

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