"Não vai ter copa mas já não tem nada"

por - 16:15

nao vai


Acertaram um rojão na cabeça de um jornalista que cobria protestos contra a copa, como todo mundo já deve ter cansado de ouvir falar. Tentemos ser neutros em uma análise um pouco mais sóbria dos fatos: ninguém é a prova de balas de borracha, gás lacrimogênio, rojões e pedras. Tudo bem que o repórter estava trabalhando, mas este é apenas um lembrete importante para se fazer em situações extremas como uma passeata cheia de moleques tarados por revolução blackblockbuster americana de filmes da sessão da tarde. E veja bem, concordo que os meios de protestos tenham que ser incisivos e focados num interesse, só tentem não explodir morteiros nas pessoas erradas. Se é que há uma pessoa certa para se fazer isso.



Até pegaram um moleque que foi meio que cúmplice na coisa toda também. Meu chefe ao comentar o caso disse na hora “esse aí é vagabundo, tem que ir trabalhar”. Na mesma hora me perguntei se ele empregaria um ~vagabundo~, como havia acabado de rotular e a resposta com certeza seria não. O emprego não é a solução, até porque o emprego pode as vezes fazer com que coisas piores aconteçam a pessoas. Qualidade de vida as vezes me parece jargão de uma propaganda de manteiga sem gordura trans. Ser vagabundo as vezes é o único jeito de liberar o trabalhador de um ataque fulminante do coração, o único problema talvez seja mostrar ao vagabundo que o culpado por sua marginalização não é necessariamente aquele que mostra o quanto suprimido você está sendo e o quanto liberal você pode ser.



A mídia é o isqueirinho do diabo, eu sei. Mas quem se queimou foi o repórter que fazia apenas o que lhe mandaram e o moleque que fez merda tentando limpar as coisas. Seria inocente convocar uma revolução com todas as partes juntas e por uma causa maior que o não-acontecimento da copa. Não vai ter copa, nem gente que entende que o problema é maior que este. Com pequenas batalhas se ganha uma guerra, mas qual é o ideal por trás da guerra mesmo? Nem eu sei. Se for pra mostrar o quanto o povo é forte, estamos no caminho de tornar as coisas medievais.



Onde estão os ditos justiceiros quando necessitamos deles? Representantes do povo, aderentes à vingança daqueles que só vingaram a venda de quadrinhos e dos mesmos blockbusters americanos. Os anônimos aparentemente não precisam de máscara nenhuma que os represente, pois se calam frente às barbáries contra eles mesmos. Nós todos devíamos nos envergonhar, mas estamos ocupados com nossas próprias preocupações. Talvez a culpa também seja minha, afinal. Aquele que disse ser meu advogado está ocupado demais advogando por causas mais nobres, das quais até desconheço.



E assim estamos. Dando e tomando porrada por algo que, independente de acontecer ou não, já foi investido. Muito me faz lembrar da mãe que gasta mundos e fundos com um carrinho de controle remoto para o priminho distante que vai chegar em dois dias e do filho que destrói ele todo só porque se sentiu com inveja. Acho que passamos da idade para sentirmos inveja de um carrinho e estamos na idade de entender se um carrinho é o melhor presente. E ainda que tudo continue como está, ao menos sairemos mais cedo do trabalho.


seis

Você também pode gostar

1 comentários