"De vergonha eu não morri"

por - 15:09

tinga


Quando menor, era apaixonadinho por uma menina da minha antiga escola. Ela era legal, ela era bonita, ela sabia ler e não parecia nem ter dentes de leite. Quando se tem nove anos, a perfeição é algo muito mais simples de se atingir. Era bobo e inseguro demais para simplesmente chamar ela para ser a minha namoradinha, até porque não saberia o que fazer caso ela dissesse que sim, ninguém explica essa história de relacionamento sendo criança, só se sabe que você é um cara legal se tiver um e que isso afetará você para o resto de sua vida de alguma forma. Crianças são cruéis em aspectos que nem elas mesmas devem compreender.



Num dia randômico, tentei a sorte. Ela disse que não namoraria comigo por eu ser igual a um macaquinho. Poucos moleques eram “como macaquinhos” na minha escola, então senti que de alguma forma ela tinha algo contra mim. Achei até que isso tivesse alguma coisa a ver com a minha “banana”, mas só depois de muito tempo saquei que pudesse talvez ter sido vítima de racismo. Aquilo me abalou, claro, mas não tanto pelo termo ou pela segregação daquela vaquinha (que hoje eu espero que esteja mal pra caralho), mas pelo fato de que havia tomado a primeira bota da vida. E que bota. Uma bota colonial que aparentemente não vai deixar de ser usada, apesar dos disfarces e lustradas que recebe.



Anos depois daquele episódio, fiquei mais velho e mais ligeiro com relação a essas coisas. De certa forma, dá pra dizer que a melanina a mais te prepara para ouvir tudo de todos e exercitar o músculo da paciência e da observação. E isso faço até hoje. Incansáveis as vezes que um imbecil (seja de qualquer etnia) faz uma piada com o fato de você ter uma cor de pele diferente. E a piada, na maioria das vezes, nem ao menos é boa. O efeito Rafinha Bastos, além da depressão e da megalomania, é o mal que mais aflige a sociedade atual. Piadas étnicas as vezes me fazem rir, mas muito mais por serem bobas do que por expressarem realidades ou surrealidades das quais você imagina um ser humano inserido.



Preconceito acontece. E nem sei dizer se não devia acontecer, afinal, está conosco desde sempre. Abandonar hábitos é extremamente complicado se você vê a chance de não extingui-los o tempo todo. É como parar de comer pizza na Itália. A diferença é que este é o tipo de hábito que vai nos destruir literalmente se nunca cessar a nível macro, com ações declaradamente rascistas ou fascistas, e micro, com as piadas retardadas dos imbecis que conseguem achar que discriminação pode ser levado como estilo de vida. Errado estou eu em rir da idiotice que é a canalhice que é uma piada dessas, que aliás, fomenta o prosseguimento do efeito Rafinha Bastos. Mas no fim das contas é engraçado como em momentos parecemos tão avançados em discursos políticos e tão distantes de uma real chance de cessar a discriminação étnica e sexual.



Ao atingir o Tinga, as coisas mudam de figura. Jogador de futebol de uma grande equipe do Brasil, terra onde estes são endeusados como atletas, modelos para a molecada. As campanhas de caça as bruxas começam e a imposição da igualdade é decretada. Não discordo que Tinga e qualquer outrx negrx tenha passado por alguma dificuldade por conta de preconceito. Não, eu sei bem disso. Mas é impondo algo que criamos ainda mais intolerância. Assim também é a luta de classes, a guerra dos sexos, a batalha pela igualdade. Palavras que lembram a devastação juntamente com palavras que segregam um povo só. Mas no fim de tudo, só espero que eu possa caminhar tranquilamente um dia sem um babaca piadista falando do meu suposto pinto gigante, do meu cabelo crespo e da minha índole duvidosa. Sim, eu tenho tudo isto e não, não guardo mágoas de ninguém. Agora vai lá viver e me deixa em paz.


w

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3 comentários

  1. "Aquilo me abalou, claro, mas não tanto pelo termo ou pela segregação daquela vaquinha (que hoje eu espero que esteja mal pra caralho)" sendo machista desse jeito duvido que você pense em igualdade.

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  2. Os comentários. Nunca. Leia. Os. Comentários.

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  3. Não achei o machismo na frase, favor explicar.

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