Antes do Apagar das Luzes - Parte II

por - 14:06

Cracolândia


Pega a pedra na Gení,
Coloca ela na lata aqui,
Ela é feita pra queimar, ela seca até o cuspir.
Ela trava qualquer um,
a [maldita] pedra da Gení...


Era uma comparação feita por cromossomos que não ocupavam agora mais o lugar que um dia usaram como morada, algo que esvaziou-se durante anos e não retornaria ao seu estado original, muito menos cresceria em intensidade, afinal de contas, lembranças quando amantes desse tipo de sensação mundana, incapazes são de imprimir um saudosismo coronário, entretanto é inevitável não usar a única analogia perfeita ao ato de construir uma lata para aspirar crack, nada além do que o verdadeiro amor. Perfeito em sua intimidade, a causar trepidações musculares quando sente-se tomado pela vontade, uma dor de origem dulcinéica como nas mais primorosas canções da música popular brasileira em festivais, o não agrado sempre recompensado na esperança do cada vez maior luxurioso tesão pelo objeto de desejo, ações que pedem um cuidado primoroso para que não se machuque a musa amada, a pedra filosofal da penetração intensa. O amor mórbido, inclusivo e sem prudência, que reflete dentinas expostas ao acaso dentro de um dia quente de quase primavera, quando você espera o almoço falando sozinho com sua gengiva, o amor, era essa a única comparação, um ato sublime de destreza humana, a agilidade e firmeza dos que recusam-se a investir algo que não a própria vida por uma eternidade. Escolhe-se bem o receptáculo do desejo, com a certeza de quem não deixará o simulacro da realidade escarpar pelas bordas, de preferência algo que misture alumínio e álcool, jamais refrigerantes de cola, pelo óbvio amargo ascendente que vai tomar seu cérebro ao primeiro impacto do corpo celeste “sempre esperei que existisse uma espécie de bebida que amortecesse a depressão subsequente, porém mostrou-se de impossível junção”, de preferência uma marca de cerveja que não possua transgênicos milhos ou trigos, “li algo como redução de danos e após alguns segundos residia em mim uma nova paranoia”, após encontrar o terreno, necessário é levantar o inventário dos móveis da nova casa, um garfo de sobremesa servirá com seus filetes férricos finos para a confecção dos orifícios, de preferência limpo, onde não existam resíduos de nenhum alimento que pode ao advento do incêndio controlado na pedra fundir suas moléculas gastas aos gases produzidos, nesse garfo deve-se torcer as pontas que não serão usadas, como se fosse a letra dê sem a oposição do polegar no dedo médio ou um quê confeccionado de maneira correta na linguagem dos sinais, também sem o polegar. Assim que pronto o garfo, inicia-se a construção da estrutura do ninho de furos, como na natureza dos pássaros eis mais uma analogia com o amor, cafona amor dos pássaros. Reside aqui uma pequena armadilha da química, outra dentre tantas que surgirão pelo caminho, relacionada com as duas forças que no evento da alquimia produzem centelhas destrutivas de umidade. Os restos do líquido dentro da lata ao se aquecerem, evaporam-se, direto contato então com a superfície da lata que contém os furos, as cinzas e a pedra, conclui-se assim a profecia do melado, onde umidade, cinzas e pedra tornam-se uma coisa só, impedindo a fumaça de atravessar as muralhas recém formadas ainda com a juventude em suas selas. Uma traição dos elementos químicos, como todas feitas na ausência de percepção das mesmas, destruindo aos poucos e de maneira certeira os estertores da bonança. Exatamente como o amor, que deve ser cuidado, a feitura dos furos é uma ciência tão exata quanto o respirar mecânico fisiológico do coração, e existem duas técnicas que garantem essa devoção. A primeira consiste em desenhar um retângulo com quatro furos na horizontal e quatro na vertical, deixando um espaço entre eles não maior do que alguns décimos de centímetros, essa formação de dezesseis aberturas modulares deixam espaço de sobra para que a nefasta umidade escoe em direção à libertação do ar, do mesmo jeito que a produção de furos em três colunas de três furos cada, envoltas por dois círculos de furos no sentido da fuga centro-polo, também mostraram-se ímpares na solução do problema aquífero.


Feito isso, agora é a hora de conferir se as cinzas de cigarro adormecidas no cinzeiro de um dia para o outro encenarão seu papel de Antígona, a renúncia do viver em troca do enterrar Polinice, um de seus irmãos amaldiçoados, descendentes de Édipo e Jocasta, da pobreza e esquecimento, da falta de políticas públicas e inclusão capitalista, as relações incestuosas que geraram as cinzas e o crack. Antígona, anunciada pelo temeroso guarda do soberano no segundo episódio da tragédia, deverá cumprir cegamente seu destino heroico e morrer enforcada no melado e fumaça, reencarnada dentro de nossos pulmões como bálsamo, limpará e enterrará o crack Polinice nos arredores da lata. Assim esta, percebendo o cadáver descoberto, prorrompeu em lamentos, proferiu iradas imprecações contra os sacrilégios, sem demora juntou o pó ressequido com suas próprias mãos e com um vaso de bronze forjado verte três vezes libações sobre o corpo antes de cobri-lo. Perseverantes, castas e quentes, assim elas devem ser para que o ritual possa completar-se de maneira épica, e só depois a maceração do crack dever ser a tônica. Iniciar o terceiro ato dessa sofoclesiana história requer o maior dos cuidados, afinal se tem o Graal na mãos, e, a maioria das vezes ele padece pela falta de firmeza e constantes tremores. Abre-se o invólucro e o cadáver de Polinice já sorri aos jarros, de visão amarelada à esbranquiçada, “nesse dia a coloração era mais amarela do que branca, porém isso era menos importante devido as circunstâncias do local e dos presentes”, são pedaços medianos embalsamados e recobertos de poluentes, senhor, não virá dos céus essa obra? Esta suspeita já me inquieta há muitos. Corifeu oferece memórias aos desencantados pela vida, perpetuando a mórbida questão de alinhamento cósmico sobre que criou essa aberração química, mas nada importa, importa mesmo é depois de desembalada a pedra, não se ter mais pressa, o crack ao contrário da cocaína – derivada dela, porém com outra genética – pode permanecer por maiores quantidades de tempo fora de sua jaula plastificada, então nesse momento nada de apressar a vida como se uma proveta galopante fosse, pois ainda é necessária a confecção da pá e base pilão, ambas feitas em papel, um pedaço do cardápio para comida entregue em casa servirá. Retira-se um retângulo maior para a acomodação de Polinice e outro em formato de prancha para a retirada de seus restos imortais, acomoda-se os pedaços de crack na base pilão e amassa-os, recolhe-se o produto da operação, despeja-os no topo de Antígona para que cumpra seu destino, vou falar; o morto, alguém acaba de sepultá-lo, foi-se depois de cobrir o cadáver com pó sedento e cumprir com outras cerimônias prescritas. Abre-se então as câmaras de cremação pelas chamas do isqueiro, sempre nos ângulos de Valéria em libras vulcânicas, o crack enfim perpetua seu destino, o baque é imediato sem precedentes, sua língua adormece em milésimos e o gosto de fel descendente permanece vagando em suas narinas, língua e tronco encefálico, o diafragma entumecido perpetua com suas últimas forças a pressão negativa do infinito e os pulmões absorvem o vácuo existencial da droga com toneladas de fumaça radio ativada, “por que Hercleto me parece enfurecido?”. Não existe pausa entre o tilintar de Polinice, seus pedaços e as reações enfurecidas do sistema nervoso, repetindo mioclonias esparsas e tremores, “trac trac trac, trac ti taque trac, trec trac, ta, ta track em fá sustenidos, uma linha aguda de distorção como nas oitavas acima”, assim canta o coral coberto pelas cinzas até a fumaça dissipar-se pela boca da lata, até o véu do não conseguir mover-se resumir sua vida em gotas de álcool evaporadas bailando sobre seus lábios, as pernas e braços parados, o cérebro em velocidade da luz, os olhos que parecem movimentar-se, “nistagmo”, mas é só a sensação de inércia pelo movimento incessante de sua cabeça, o corpo demora em situar-se dentro do espaço tempo, as dimensões apresentam-se como tendas de circo iluminadas por neons azulados, os eternos quinze segundos onde sua vida passa diante de seus olhos pintada por pasta base, lágrimas te devolverão o juízo já que perdestes a cabeça, nada se movimenta e tudo se movimenta, por centésimos os sons parecem trovões e uma agulha pode despertar a mais desabalada vontade de esconder-se atrás da capa do banco do passageiro ou da cortina da sala, em alguns casos acha-se o esconderijo alguns andares abaixo, espatifado com a cabeça rodada ao contrário para perceber se alguém observa. Prende-se a fumaça o maior tempo possível e se espera o tempo necessário para que a dormência nas orelhas comece, assim os sintomas ganham vida e morrem dez minutos depois, deixando seu corpo pronto para o segundo baque, o terceiro, o quarto e assim por diante, a morada onde não existe o corpo real, onde não existe nada nem pressão do mundo, onde é seguro como os bicos quentes dos seios de sua mãe ao amamentar ou uma vagina rodeada por lábios úmidos dizendo eu te amo, o crack nos adormece da podridão da vida, mostra a ternura do perder-se em si mesmo, enquanto resgata o entendimento que não seremos nada além de átomos dentro da lata humanidade, nos aprisiona na libertação de todos os males, enfim o crack é derradeiro vagão de trem na Segunda Guerra segundos antes de ligarem as torneiras na câmara de gás. Eu a enviarei a um lugar que nunca ninguém pisou, vou prendê-la viva numa prisão lavrada em rocha, de alimento só terá o necessário, “Hercleto continua calado”, lá poderá invocar a Morte, único deus a quem rende culto para não desaparecer.


Deixei Valéria para trás e com os apelos seguidos de Pantos para que encontrássemos a tal Dona Gení, coloquei o carro em movimento sem ao menos saber exatamente para onde íamos, porém meu passageiro de agonias por mais entorpecido e psicótico que aparentasse estar sabia exatamente a localização do oásis. Enveredamos pela santificada Avenida Rio Branco em direção à Favela do Moinho, porém não era esse o destino, mas nos arrabaldes, geograficamente localizado entre as ruas Ribeiro da Silva, Guaianases e Nothman, no conhecido bairro de Campos Elíseos, “local que moraria tempos depois”, antiga região de casarões dos senhores de engenho e empresários escravocratas que migraram alguns metros acima formando Higienópolis quando a presença de indesejáveis afro descendentes e população mais pobre não mais agradava as senhoras da elite residente no quase francês Champs Elysés, os pequenos comerciantes restantes, como sobras mastigadas em um prato de comida, viram seus clientes transmutarem-se em migrantes que chegavam à São Paulo instalando-se no que anos mais tarde ficou conhecido como Baixo Centro, muito próximo ao marco zero da cidade, porém sem a escuridão reinante nas décadas de setenta e oitenta. Era ali que Dona Gení e seu zepelim estavam instalados, naquelas ruas quase apagadas e suas árvores centenárias, conglomerados de escapismos e surrealismos onde a riqueza de décadas passadas ainda resistia em algumas residências e o papelão do pós modernismo estampado era em cada casa dos moradores de rua que ainda lutavam para manterem-se vivos, fosse debaixo das entradas no concreto do Elevado, fosse nas calçadas dormitórios beliches na Rua Vitorino Camilo. O asfalto em cada esquina consumia o silêncio dentro do carro, nossas cabeças ainda em estado de latência, os cigarros ajudavam ao balbucio de palavras uníssonas, ideias condescendentes ou algum refrão de canções imaginárias, ela estava por perto, era possível sentir seus dois seios falsos percutindo hinos de louvor em tamborins elásticos, feitos da pele de algum cordeiro de deus que jamais retirava os pecados do mundo, ela estava perto e Hercleto sentia suas mãos embebidas em alfazema barata enrolando os plásticos sacos pequenos, estávamos perto agora e a excitação era descomunal, “mais um cigarro e precisarei comprar outro maço”, como se pudesse ouvir ao longe anjos clamando um quinto estásimo na primeira antístrofe, a ti viram-te sobre rochas partidas a chama fumegante (onde dançam ninfas de Corico) e a fonte Castálida.


Cooking_Crack


Tebas enfim aportava em nossos olhos sedentos em epopeia grega, o carro parado alguns metros para trás do portão, acima do capô, uma amarração de galhos executada por dois mastodontes da fotossíntese, desse modo ficaríamos invisíveis, “precisamos ser rápidos por favor”, porém escondeu nossa visão das sombras que por trás de nós instalavam-se. Hercleto clama o nome de Dona Gení na porta, o relógio marcava exatos dez minutos depois das duas horas na madrugada, ela não atende, “se bem conheço Hercleto”, mais uma vez e de maneira nervosa ele aperta a campainha e grita, não existe resposta, sinto sombras apertando meus calcanhares e olho ao redor, nada, “vamos logo com isso porra”, Hercleto impaciente grita o sagrado nome mais uma vez, nem ao menos um suspiro é ouvido, mas Polinice não entende recusas, dentro de nossos corpos, doendo, o desejo de mais crack é mais impassível e forte do que nunca, as sombras sussurram nossos nomes, a campainha recebe outra pressão e os berros incessantes acordam os gatos da vizinhança, Hercleto grita, grita e mais uma vez grita, “pelo amor de alguma coisa atende essa porta”, as sombras derrubam um pedaços de galho mais baixo e automaticamente sinto minha nuca prestes a sofrer um acidente vascular cerebral, elas movem-se e meus olhos enganam-me com a figura de duas outras pessoas ao nosso redor, “não é possível acabei de olhar de novo e não há ninguém lá”, Hercleto chuta o portão, esperneia, eu acendo o cadáver do último cigarro que resgato do chão, minha saliva tão grossa estava que eu poderia usá-la como argamassa, as sombras agora falam um pouco mais alto, “eu acabei de escutar algo como vai devagar”, Pantos chuta o portão, meu peito prestes à explodir de ansiedade, engasgo em meu próprio inspirar, as sombras agora parecem mais com dois corpos, mas minha cabeça permanece morando em nuvens de desespero cego, “elas caminham, tenho certeza, elas estão aqui”, nossa salvadora não responde, o tempo corre mais rápido, Hercleto urra e bate no rosto da campainha, as sombras em minha nuca, meu ombro, “vou morrer aqui deitado como ninguém”, seu grito acende a luz da casa ao lado e nesse instante a porta de Dona Gení se abre, ao mesmo tempo em que as sombras apertam meu braço, sorrisos largos abrem o final da canção com violência de uma surdo de terceira em cima de minha cabeça.


Creonte e Tirésias eram dois policiais do Denarc, possuidores de uma caracterização tão clichê, que nem o pior roteiro noire poderia ser capaz de produzir, o governante da metrópole das bacantes era o mais velho, colete marrom imitando couro, branca camisa de botão circulada por manchas de suor no peito e axilas, falhas nas laterais da barba acinzentada, uma voz traqueostomizada como se Hal 9000 pudesse andar sob a Terra, calças de linho pretas impecavelmente passadas, botas escuras e duas sinceras meias roxas. Creonte era o chefe, empresário da venda de crack nas ruas adjacentes na chamada Cracolândia, tanto a nova quanto a antiga, estava no negócio desde o início, gerenciando os vendedores de Dona Gení, “sócia de longa data”, com ralos cabelos amarelados e sua prepotência, auxiliado por Tirésias, mais magro, quase um endoesqueleto deambulante em calças jeans surradas por intempéries do tempo, o andar gaseificado como se bolhas o levassem vagando por eternas ponderações do calçamento, bigode aparado nos cantos, perfazendo finos traços de pelos nos cantos da boca repleta em saburra oxidante, as mãos trêmulas em um nervosismo intrépido próximo demais do gatilho de sua ponto quarenta, pesada demais para os galhos finos que formavam seus braços, mesmo assim o baque dado por seus dedos em minha cabeça permaneceu doendo durante dias, maldito magro acelerado como se tivesse enfiado pelo nariz toda a produção de coca em Medelín. A dupla ímpar jamais imaginaria que dois trincados pudessem estar naquela hora, arrumando confusão com a sócia de Creonte, ainda mais deixando claro que a lei do silêncio estava prestes à conhecer seus últimos inimigos e a polícia deveria tomar providências, infelizmente os homens da quase lei estavam estacionados ao lado de meu automóvel, porém sem meus sentidos operando em todo potencial, nunca os percebi ali, se não existia deus até aquele momento, depois disso ele virou-se e jamais mostrou a outra face para contemplação mundana. Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou, nem a Justiça com trono entre os deuses dos mortos as estabeleceram para os homens, nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder se superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Era tarde demais e Dona Gení com a maestria de alguma organização não governamental os fez entrar levando consigo dois lunáticos esvaindo-se em suor, desespero e quase arrependimento.


- As mocinhas vem com a gente, Tirésias, olha o quarteirão e depois entra.


Dona Gení, com seu vestido semi árido azul liderou o caminho, caminhava com dificuldade arrastando os chinelos de algodão pelo corredor coberto de folhas, a voz inalterada sempre, um riff de guitarra dos anos cinquenta, dois rés e dois fás, dois acordes no máximo, abriu a porta lateral da casa, desembarcamos dentro da sala, repleta em livros nas três estantes postadas na parede dos fundos, uma mesa de centro amadeirada em tons vermelhos, pintada à mão, enfeitada por uma toalha sexagenária soltando baforadas de tabaco egípcio, ao lados das estantes outro móvel onde dormia uma vitrola e duas caixas cheias de discos, alguns de setenta e oito rotações, “como eu largaria tudo agora para ouvir essas raridades”, a mulher então mostra as cadeiras e nos faz sentar, pede encarecidamente que fiquemos à vontade, “como se possível fosse com essa arma fora do coldre”, vai à cozinha volta com uma lata de cerveja vazia nas mãos e mais quatro cheias em uma sacola plástica, um garfo de sobremesa e um cinzeiro, quando despenca em uma das cadeiras é possível ver os dois seios mecânicos que servem como anteparo estético para os dois procedimentos mastectômicos que retiraram os de verdade, o sutiã preto parece mais cheio à direita, repousando no bico de candelabro estão pelo menos dez papelotes com crack, a visão quase erótica desses apetrechos é interrompida com a óbvia entrada de Tirésias.


crack


– Tudo em cima chefia. Nada de viatura ou parceiros nos quarteirões, como sempre podemos fazer o que quisermos.


- Com impunidade. “Creonte sabia muito bem governar Tebas”. Não te recomendo alimentar esperança nem esperar outro resultado.


“Era uma comparação feita por cromossomos que não ocupavam agora mais o lugar que um dia usaram como morada”. Gení prepara a lata, a câmera inicia sua translação ao redor da mesa, ela volta seus olhos ao comandante e lhe fala sobre o lucro da semana. – Até agora e sem retirar o salários dos vapores, pelo menos mil reais ao dia. Teremos problemas, porque essa semana um dos meninos descobriu outro vendedor na Helvetia, com o preço de dois reais o pacote, quebrou dois dos nossos dizendo que isso era coisa para gente grande.


- Calma Gení, sua pedra ainda é e sempre será a pedra; esse moleque aí é capanga do vereador Cintra, aquele que mês passado veio com o plano de derrubar a Cracolândia na porrada. Esse vagabundo não sabe que se um dia o inferno cair, não será pelas mãos dos ternos e sim pelas bombas de efeito moral e cassetetes; o vereador sabe que o dinheiro está nas mãos dos zumbis e ele quer mais além da parte dele na Câmara, mas pode ficar tranquila que esse vendedor do vereador acorda sem a arcada dentária e queimado em breve. E os dois playboys fazendo escândalo, como duas putas com a buceta ardendo, quem são?


- Hercleto senhor.


“Eu não sou playboy”. – Eu não sou playboy.


- Olha só Tirésias, temo aqui com a gente um revoltado. Como cê chama playboy?


- Eu não sou playboy. “Porra”.


A câmera para por alguns segundos antes de iniciar a translação no sentido anti-horário, Creonte sorri com escárnio e Tebas acende um cigarro e oferece o maço aos presentes, Hercleto aceita, eu também. Espero o sangue escorrer de minha têmpora, porém ele não vem.


- Eu imagino que vocês estão aqui na casa da minha sócia obviamente não para venderem bíblias, muito menos pregar a palavra, o que seria de uma idiotice tamanha, afinal de contas neste lugar o Todo Poderoso não apita nada, aliás ele nem sabe que esse lugar existe, e não pense nenhum de vocês que vai querer algum dia redescobrir essa terra maldita, porque antes disso eu coloco o pente inteiro da ponto quarenta no rabo dele sem a menor cerimônia. Imagino que vocês playboys estejam aqui para comprarem o que eu vendo, meu ouro branco, a vagina mais deliciosa que você poderia lamber, a pedra, a bigorna do absurdo, não é mesmo? – Mas como vocês chegaram muito tarde e bateram sem a menor educação na casa sagrada de Gení, só poderão ir embora depois que eu contar uma histórias.


Hercleto não conseguia concentrar-se, olhava afiado a lata na mão de Dona Gení, chuparia os seios inexistentes dela se fosse necessário para conseguir colocar as mãos naquele invólucro de alumínio, “quero mais uma, quero mais uma, e outra e outra”, em minha cabeça apenas a vontade de arrebentar a cara de Creonte e Tirésias, sequestrar o sutiã de Gení e arrebentar pela Vinte e Três de Maio, subir no obelisco do Ibirapuera, equilibrar-me de ponta cabeça e descer a espiral maçônica de costas, Creonte aperta meu braço e com um sorriso ácido leva a arma ao meu queixo.


- Sabe qual o passeio que eu mais gosto de fazer com minha família? – Aquele que coloca espanto nos olhos de minha esposa e deixa os nosso filhos maravilhados? – Um lugar onde a natureza mostra-se com toda a sapiência que nenhum de nós poderá reproduzir um dia? – O Jardim Zoológico, lá mesmo, onde algodão doce e répteis frios conseguem as mesmas reações de alegria, aquele lugar longe de tudo, cercado para sempre onde a memória, gostos e sons são maravilhosamente testados em nossa alma, como se fosse possível encarcerar a felicidade na vida dos animais, que se mostram em esplendor e selvageria. O zoológico dominical, sagrado como uma santa ceia de fim de ano, invólucro do capitalismo naturalista, a metáfora perfeita para isso que você está vendo essa noite. O que vocês com toda sua sapiência, blogues e Facebooks não conseguem entender, é que isso tudo aqui é um imenso zoológico e os zeladores dessa merda toda, somos nós. Quem recolhe o excremento dos animais, os alimenta todo dia e chama o veterinário quando estão doentes não são vocês, deitados nas caminhas de lençóis arrumadinhos, jogando Playstation e fumando maconha, quem conduz a vida dentro desse safári é a nossa empresa, é essa ponto quarenta aqui na tua testa que produz o regimento da não revolução dos bichos, e como todo bom zoológico, esse aqui funciona com uma precisão que deixaria envergonhado qualquer figurão que possui orcas em tanques minúsculos, a administração mantém os animais cercados em jaulas imaginárias, você consegue entender que nós desenvolvemos um método de encarceramento que funciona sem a presença de nenhuma estrutura física? – Todos bichos trancados sem ao menos verem suas celas, presos e exibidos diariamente nos telejornais ou programas dos justiceiros nos tubos, esses bichos nem ao menos sabem que estão ali, sabem o que precisam comer, a ração na lata ou no cachimbo, apenas restos de mamíferos bípedes, como as jaguatiricas presas no seu cercado, eles apenas imaginam o que possa ser a liberdade, mas nossa estrutura é tão perfeita que eles não querem saber de porra nenhuma, só interessa a pedra, o próximo trocado que ele vai pedir, roubar ou trocar para que nossa cota de ração diária seja entregue com beleza, a nossa empresa é tão benevolente que entregamos até os cachimbos, eles ficam lá parados, não saem nem vão querer sair, são nossos de estimação até o momento em que morrem e trocamos os defuntos por outros mortos vivos. Vocês assistem, reclamam de vez em quando, mas é só, como no zoológico dos quadrúpedes, aqui a sociedade de bem paga o ingresso, assiste, e, de vez em quando, torna-se um deles, porém a jaula de vocês é outra, aqui vocês vem para sentirem-se mais perto da loucura e da selvageria, mas logo depois também voltam para seus cercados, e só. Párias e mais párias que lhes dão uma aventura de humanidade tão nefasta que é bem melhor para todos que apenas se discuta o assunto, porém nada se faça, é aí que nossa administração entra, nesse buraco que vocês com suas gordas barrigas encostadas na mesa do computador deixaram, no vácuo de seus votos que entramos, porém como todo serviço, nós cobramos, e cobramos caro. Ou você acha que alguém que cuida da bosta de algum animal desses vai fazer isso pelo salário que a tua sociedade estipula? – Essas ruas todas deixadas de lado pelo simples fato que ninguém quer saber de mexer na sujeira deixada embaixo do tapete são nossas, administramos, conduzimos o negócio e ai de quem quiser retirar nossa liberdade dentro do capitalismo, nada vai roubar essa empresa da gente, nem o Estado, nem o povo, nem ninguém.


Tirésias, Hercleto e eu estamos meramente escutando as frases de Creonte, pois tragamos mais do que devíamos a lata, talvez isso explique o que aconteceu em seguida, uma náusea que acometeu minha vista e dilacerou meus braços em seis pedaços de igual perímetro, o asco de sentir-se preso na cela pessoal, que me espera com as pernas abertas, a anestesia dada todo dia, o tapa buraco de uma alma vazia que insiste em ficar entorpecida com todas as tecnologias existentes dentro da sociedade, o involuntário marasmo da vida executado com perfeição durante os dias, a hipocrisia em usar vermelho com a mão esquerda me riste, com a cabeça presa nos moldes escravocratas, dependendo de senhores do zoológico para que minha humanidade seja mostrada sem filtros e da pior maneira possível, eu tinha nojo de Creonte, mas ele era um pedaço de mim naquela sala, ele era eu ao avesso dos meus restos, o comandante do meu invisível mundo, e, eu tinha uma enorme vontade em chutar seu saco quando me mostrou o espelho. O tapa mal dado na arma que espatifou-se na vitrola, os berros exalados de minha faringe. Tudo indica que tarde reconheceste a injustiça.


-Você é um grande de um filho de uma puta corrupto, um arrombado do caralho que mata essas pessoas aos poucos apenas para manter esse seu pau murcho duro.


A mão de Creonte em minha garganta sufoca a respiração, aos poucos sinto que morreria ali, chapado de crack e nicotina velha. Apertando mais e mais, expelindo os últimos resquícios essenciais pelo meu rabo. Gení então com a paciência de uma sacerdotisa expele seu pensamento.


- Creonte, larga esse merda, imagina a cagada se acontecer uma morte aqui dentro.


O comandante espera mais um pouco, se diverte com a suposta morte, solta meu pescoço e respiro enfim o resto da minha cota diária de ar, Dona Gení nos dá trinta pedras de crack e nos manda embora. São quase quatro horas da manhã, quando Hercleto no banco do passageiro monta outro cigarro com a droga e restos de tabaco, estamos ao lado do Parque do Ibirapuera, voltando para nossas jaulas, na minha cabeça imagino-me em quatro apoios, relinchando dentro de um fardo de feno infinito, e, quando olho o obelisco penso que seria uma ideia idiota descer por ele de costas.


Leia a primeira parte aqui

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