Antes do Apagar das Luzes

por - 11:06

Crack_na_latinha



Uma trilogia pré epidemia do crack


Parte I: De como as intenções jamais podem ser definidas através de uma baforada


Seria o sonho consumista de qualquer yuppie nos anos oitenta. Aquele apartamento outrora inexistente geograficamente no iniciante bairro sulista da cidade de São Paulo, seria na época dos empresários nomeados com a supracitada alcunha, uma rara ave empalhada e embrulhada no mais caro papel, daqueles papéis que depois de desembrulhada a surpresa, pode-se usá-lo confeccionando-se um malabarista baseado em proporções atômicas. Assim era aquele lugar com seus inumeráveis noventa metros quadrados de pisos amadeirados em coloração âmbar jurássico, encobrindo as mazelas de felicidade no espaço destinado à sala, uma sala tão bem encaixada no contexto métrico, que possivelmente iria corar as faces de Álvaro de Campos aos berros dentro da tabacaria à dizer hey lá ho ey benevolente martírio que expande a quântica da cera, ele certamente morreria pela exatidão mecânica dos encaixes daquele chão, exaltando as engrenagens que os criaram, as perfeitas exatidões do meta matemático. Azulejos biofísicos, que, alcançando apenas a metade das paredes da cozinha, delimitavam dois escrupulosos guarda-volumes jardins suspensos, um corredor desmembrando a bem dividida área útil, contendo em seus arrabaldes pequena limítrofe sacada férrica de gosto alumínio, o grande banheiro com seu box intacto e a privada. Aquela privada possuía maestria capaz de edificar o melhor de seu ser apenas servindo de assento, nada mais era necessário dentro daquele apartamento a não ser sentir-se inteiro aos pés da beleza em plástico amarelo vômito daquele vaso. Complementando a vista de sua imortalidade a descer ralo abaixo o espelho quadrado, marca registrada de qualquer banheiro recém inaugurado e seu corredor em estreita luz, desaguando nas duas sínteses chamadas quartos, tão amadeirados em seu calçamento quanto a sala, porém florescendo uma guinada mais intimista sem a luz necessária aos efeitos hipnóticos da meia fotossíntese artificial, aquela que emudece mulheres e faz corar o mais diabólico dos homens. O piso frio da cozinha, moldado por lajotas que não se pareciam com as mesmas, eram na verdade seda em vime carvão prensado abstrato de Dali, aquele chão era um acorde da quinta de Bach tocado ao revés, era a suntuosidade de uma orgasmo jorrado após anos de reclusão em bispado eunuco, aquele piso da cozinha convidava ereções matinais e a obrigatória água gelada escorrendo pela faringe em todas as manhãs, enquanto suas mãos apoiadas estariam no mármore branco da pia, era o sunita convertido em budista, uma alma iluminada de frio que forçava sua mente redescobrir o aconchego de se beijar o chão.


Porém, e inversamente proporcional à sua beleza sócio econômica de uma futura classe média emergente, aquele imóvel estava oco, vazio e sem mobília, pois os caminhões de mudança só chegariam pela manhã e ainda eram exatas doze badaladas passadas da noite, uma quinta feira tão inóspita que deveria ter sido riscada do mapa cartesiano até aquele momento, tamanha a tacanhez que acontecia nos minutos noturnos. Mas existia ainda um jogo de armar que proporcionava grande prazer.


De quatro, lambendo o rejunte entre os azulejos, tentando dissolver com a tromba os restos de cocaína deixados para trás após duas enormes linhas colocadas no chão da cozinha como forma de comemoração, e, também pelo simples fato de que não conseguia enxergar onde elas estariam se fossem colocadas no mármore da pia, afinal de contas estava ligeiramente paranoico sobre perder a cocaína devido à algum problema oftalmológico. Cheirava então de quatro no chão, sozinho e sem espelhos reflexivos alarmantes, por segundos imaginando colocar as carreiras na janela da área de serviço, porém ventos.


O dia e sua trajetória de normalidade, para esses padrões, seguiam fielmente o roteiro descrito antes do contrato assinado, iria terminar o frasco de laboratório onde agora a cocaína era acondicionada (uma sábia manobra dos comerciantes), masturbação com um resto de pênis semi-flácido que segundos antes da ejaculação tornar-se-ia semi duro, fumaria um baseado, tomaria três analgésicos e iria dormir, ou pelo menos tentar no chão de minha tumba, talvez não existisse saída a não ser pular do quinto andar e torcer para que no caminho o pescoço resvalasse em alguma grade de proteção, quebrando assim as duas vértebras cervicais, poupando passar pelas eternas eras com fisioterapeutas ou tentativas de encher uma bolsa plástica com o pau preso ao longo tubo de borracha. Mas isso não era necessário, pois bem sabia quem com sofreguidão de uma parturiente aos solavancos estava no portão de entrada. Não é necessário um nome que dê cor ao relato, um segredo bem consumido pelo tempo será a alcunha de meu amigo em drogas, Hercleto Pantos.


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Hercleto apresentou-se pela primeira vez quando ainda era residente em meu primeiro apartamento na zona sul, bairro Santa Catarina, alugado por módico preço e sem a menor intenção em ser mobiliado. Foi a época onde aconteceu o caso com uma produtora de televisão que fazia vezes de modelo e dividia seu gosto por cocaína com o meu por problemas emocionais e pessoas perturbadas, além de cheirar anestésico de cavalo aos sábados. No dia do primeiro enlace com Pantos, voltava de um desses encontros, rezando para que pudesse deitar e acordar no dia seguinte vivo. Ao abrir a porta do elevador quase sem êxito, uma voz mais grave curando-se de uma faringite pediu um minuto, era ele. Instantaneamente entendi que a espontaneidade de Hercleto era uma de suas mais apaixonantes características, instinto de sobrevivência elevado ao patamar divino, sua fala não possuía nada de severo, e pelo muito contrário era como se alimentasse desse feedback vocálico, uma restrita dieta em trinta e oito rotações. Amigos nos tornamos de imediato e assim se fez, até aquele dia, onde as luzes estavam em vias de apagar-se.


A noite semifria como eram todas as de junho naqueles arredores do sistema urbano de São Paulo, existia um mísero silêncio naquele ligeiramente entediante bairro, nada de pássaros, ou melhor, haviam alguns mortos como a brisa gelada, e isso era algo reconfortante, São Paulo tem essa artéria de melancolia em sua área urbana a confortavelmente estabelecer afagos em nossas almas, algo muito longe da castração mecânica que insistem em dar à cidade, a megalópole de ferro e carvão desumanizante construída em zeros e uns. O que existia era calmaria perversa que inverte as imagens em pleonasmo na sua cabeça, sempre aos milésimos de segundos, pausadamente como o prender a respiração antes do ejacular, como na última terminal respiração, o silêncio antecedendo o trágico. Aquele ensurdecer no interfone apenas deslocou porções de ar, porém nada conseguiria me mover do mais baixo patamar do chão. Outro toque e não há movimento, a glande inerte apenas fica colada ao pavimento, mais alguns segundos e percute-se novamente a sineta de entrada, o corpo avermelha-se e não consegue levantar, outro toque, nada responde, o mundo torna-se inerte, outro e outro toque. É assim que se entende a insistência de Hercleto, pois não existem pensamentos suficientes para preencher o espaço de tempo entre os acordes de chegada. Sempre exato, agora repetidamente outra e outra vez, sendo assim, existe o levantar do chão, criando um suspiro do outro lado da linha no interfone, cansaço repleto nas últimas cinzas de cigarro. A voz dele estava mais rápida que a normalidade, essa foi a isca vermelha e desencadeou o reflexo, era preciso tomar as chaves do carro e sair de casa, acompanhado de uma última cerveja e o baseado morfeu, enquanto cortaria o petróleo compacto seco na Vinte e Três de Maio. As únicas palavras de Pantos foram:


- Você precisa conhecer isso.


Até a entrada em solavancos do Viaduto Júlio de Mesquita Filho, nosso ator principal escondeu o cigarro de maconha e disse que nada mais seria o mesmo depois da minha primeira “paulada”, entendi então pela primeira vez que no futuro a simples menção dessa palavra teria fisiológicas reações no corpo, violentas ou mais brandas de acordo com o futuro, mas era preciso seguir e terminar aquele pacote de cigarros ainda hoje, a paranoia de não ter o que fazer mostrava-se inteira, e as surpresas estavam longe de terminar.


Cada pedaço da cidade de São Paulo deixado no limbo do passar horas, dias e anos, refletia algo nunca desejado por aqueles que residiam na lateralidade. A sujeira das ruas, os restos humanos vagando por entre os abrigos das bancas de jornal, a virulência do correr antes de ser atropelado, a fuligem nos rostos escondidos como uma equipe de elite do exército, vagando através do concreto, derrubando soldas divisoras dos níveis sociais, todas as coisas que não servem ou não encaixam nos moldes de inexatidão calculada, são colocadas sempre à margem do que se condicionou vida. A ideia até poderia obter algum sucesso se as dimensões do Universo fossem mais achatadas do que circulares e seus cantos não estivessem também localizados em seu centro. Isso tornou a cidade um grande aquário violento nas arestas, reflexivo em todos os passantes tentando esconder as faces pálidas nas sombras da vocação cosmopolita, e o pior, mesmo enxergando seus iguais, a insistência em se jogar tudo aos cantos do ostracismo separatista permeou a evolução urbana. Bairros centrais como Campos Elíseos com o decorrer dos anos não mais interessavam aos navegantes abastados pelo aumento populacional e desvalorização imobiliária, o que dentro de uma sociedade onde a valorização do indivíduo é intimamente ligada ao valor monetário criou espaços intermináveis de separação social. As castas separam-se e os afastados multiplicam-se, e isso em uma dimensão circular cria milhares de locações e pessoas que serão inevitavelmente colocados debaixo do tapete. Foi assim nos bairros e assim era nas proximidades da Estação da Luz e Centro, locais cuidados apenas como barganha na guerra de egos entre facções quase criminosas chamadas partidos políticos. O que estava prestes a experimentar era um dos subprodutos desse abandono, algo como um bastardo filho concebido no calor de uma prensa vulcânica, metal no seu mais veloz ódio. O sabor da ferrugem subiu pelas narinas no minuto em que o passageiro dentro do Palio azul acendeu o que parecia ser um cigarro, e era, mas ao mesmo tempo possuía uma natureza de zinco, alumínio e saliva queimada, eu como motorista, médico e também comparsa, sou a falta de vontade de meu passageiro, parte de uma irmandade em desequilíbrio químico em direção ao Viaduto Nove de Julho e a mineração de elementos estava apenas começando, o som irrompe as narinas vindo do rádio onde Guarda Belo não gosta das coisas assim assim, e os Secos & Molhados liberavam as cores da cidade assim assado. Quando a segunda tragada perpetuou seu caminho por meus alvéolos, um grande túnel abriu-se e percebi o assento do carro empurrado para mais e mais fundo da outra entrada, longe, a luz na saída do outro lado, piscava como um sinal dentro de uma barbearia comandada por lebres dopaminas prostitutas. A consciência trabalhava em outra velocidade, mais branda, como um longo boquete cheio de saliva rodeando a faringe, contaminando os olhos e os maléolos distais, tremores ao pé do ouvido ressoam trombetas e seu corpo imediatamente é envolto em uma folha de papel manufaturado de alumínio, como um pedaço de carne assada deixada de lado na grelha. O som eleva-se e diminui independente de sua vontade, o cuspe cessa e a saliva torna-se ourives de segunda mão, coreia e balismo na mesma frase de infinitivo presente, tiques tsunâmicos de um sorriso mioclônico. O carro rasga a entrada na Rua Ipiranga, e meu cérebro derrete em crack, barato quanto rápido, um pugilista sem a menor noção da força em seu gancho de esquerda, um vértice de abandono social maior do que qualquer redenção em amor nas ruas de São Paulo, e, mesmo assim hipnótico, como seu pau no meio de fartos seios e desenfreados lábios, o crack é o haicai das drogas, três linhas apenas de natureza ímpar e dois améns puderam ser ouvidos dentro do carro enquanto deslizávamos pela língua da Avenida Nove de Julho próximo ao terminal de ônibus. Enquanto a rua retornava ao seu tamanho original, Hercleto apontava as árvores na via lateral onde estávamos e dizia que enfim esse túnel escuro dissipava-se na entrada do mudo paralelo. Pequenos aclives sem a menor possibilidade, como sempre desde aqueles anos dois mil e três, para se achar vagas de estacionamento, algo mais raro que sanidade. Naquele momento, onde o ar fresco estuprava uma passagem, a parada antes que em nossas mãos nascesse um rifle automático era obrigatória, a garganta enaltecendo a sede do álcool assolando o querer desistir, era preciso parar imediatamente. A entrada lateral logo depois da saída do túnel na Nove, que passa por debaixo da Avenida Paulista, convidativa estava ao mesmo tempo que escura, uma declaração de amor cego aos sincronizados pneus que rolavam nossas cabeças na direção do asfalto, esmagando sinapses e recolhendo os restos da alma que ainda insistia em manter-se em pé, mesmo com as repetidas tragadas no cigarro de amianto durante o trajeto. O meio fio a sorrir desespero, as árvores arquitetando entroncamentos, arrancando o asfalto do marasmo seco e repleto em sacos plásticos com seus restos de humanidade, inundados por nicotina nascida no necrotério do que um dia foi parte do marco inicial na história da cidade. Uma curva à direita e uma subida recolocam nossos cérebros em traço, os sons não mais fazem sentido e as canções do rádio tornam-se pedaços de corpos jogados sangrando diretamente em nossas cabeças. Pensem nas crianças mudas telepáticas, as flautas roçando nossas nucas, línguas em chamas tocam o peito e por instantes a ereção parece possível mas inatingível, pensem nas feridas como rosas cálidas, o carro dança e o violão penetra minha pele sem piedade, a rosa com cirrose, tripas regurgitando os pedaços de asfalto solto, uma curva a mais e enfim chega-se ao oásis dentro do maremoto, o último resgate possível de seres humanos em conserva, as luzes nascem corroídas e pela metade, porém são tão fortes que jamais poderiam ser acusadas de negligência oftalmológica, sem cor sem perfume, sem rosa sem nada, como se pudesse existir algum sinal dentro desse labirinto, o poste foi escolhido como porto e assim se fez na oitava hora de loucura no oitavo dia, a visão persistente do paraíso em decomposição era como bálsamo à nossa fúria seletiva de homens brancos insatisfeitos com suas vidas. O quarteirão construído pelas ruas São Francisco, João Adolfo e Quirino Andrade era naquela hora da madrugada uma construção de impossível arquitetura de entendimento raso e a praça onde a Ladeira da Memória instalava-se não parecia um refúgio onde o coração pudesse acobertar-se de catarse, assim o asfalto fustigado pela brisa serviu-nos de cobertor por alguns segundos onde colocávamos certos pedaços de carvão goela abaixo ou poderiam ser restos da pedra de crack que fumamos no caminho.


Crack


O combinado seria simples, aqui nesse quarteirão foi o local onde Hercleto pegara as pedras que serviram na confecção do cigarro, o lugar era novo assim como ele no lugar, então precisaria entrar no mais fundo pedaço da caverna para que pudesse achar mais pedras, a mineração é um trabalho muito desgastante, conseguir um traficante àquela hora no meio da semana travados como duas portas de cofre bancário não seria fácil, por isso cavar deveria ser feito com máximo cuidado, pois existiam pedaços inenarráveis de dinamite por todas as calçadas e a ladeira à direita desabaria no momento em que a primeira explosão fosse ouvida, os pássaros de longo bico e pelagem ácida nos bicariam os olhos e cegos vagaríamos por toda a eternidade da Memória, então nos preparamos agachados ao lado das rodas dianteiras, no contar três levantamos. Hercleto seguiu direção centro, eu direção bairro, ou ele centro eu bairro, ou nós centro e nós bairro. Andamos enfim e não vi mais Pantos, apenas depois de vinte minutos. Até lá, a arquitetura cinza dos prédios radioativos fazia-me companhia, entradas com portões descendentes de ferro exaltavam a mecânica das engrenagens de entrada, as feridas do calçamento sangravam esgoto e o cheiro era como uma gangrena clamando amputação, nos lados pares e ímpares onde a luz tornava-se mais sépia e perdida, os bares possuíam cápsulas de endoesqueleto com poucas necessidades, um cigarro, cerveja, aguardente ou qualquer tipo de droga, mesmo que ela fosse o desaparecer de uma vez por todas da face da terra. Como exilado dentro de minha própria cidade, andava até não sentir mais o ar desabar sobre minhas unhas, um cigarro aceso e lembro das estrelas cálidas ou seriam crianças?


A rosa hereditária, a rosa radioativa, estúpida e inválida, sinto o cheiro de maconha e a obrigatoriedade em buscar sobriedade através do canhoto era a tônica, pois estava iniciando minha paranoia quanto ao paradeiro de Pantos. Na calçada um travesti sentado estava em restos de uma escada que em seus anos áureos fora passagem de marchas ou presos políticos e ainda lutas, agora iria separar por alguns escombros duas almas em distorção. Sento-me ao seu lado e ela me pergunta se eu queria uma chupeta, respondo que não e que estava esperando meu amigo que fora buscar crack em algum lugar dentro da selva, ela sorri e me diz que isso seria algo quase impossível e que Hercleto poderia encontrar-se com os verdadeiros donos da droga, os senhores da guerra. Como estava completamente enraizado na cocaína e com relances do cigarro no carro, a nicotina mantinha-me acordado e atento aos olhares lânguidos e maternais da menina com o rosto de meu pai falecido, o batom rasgado e roxo cobria a metade superior do lábio, as bochechas com meia maquiagem e o cabelo ralo emolduravam o restos do nariz cravejado por joias e fosseis de pó que provavelmente residiam em seu corpo por séculos, suas mãos trêmulas em cor amarelada tinham perfeitamente encaixadas em sua geografia uma lata e um isqueiro, o longo pescoço rodeado por seis colares de cores intrínsecas, a pulseira de praia confeccionada por algum hippie que pediu como pagamento ser penetrado e no tórax apenas um peito de silicone, o que a deixava com aspecto de paciente oncológico voltando da mastectomia. Ela me disse que vendeu o peito direito para poder comprar mais crack e que obviamente era viciada, talvez fosse considerada a paciente zero dentro da epidemia que estava por vir. Valéria era uma monge budista, deixando parte de seu pau mostrar-se por entre a calcinha deslocada na saia que não existia, a lata em sua mão repleta com cinzas e pontos derretidos como calda doce, o cheiro de zinco no hálito era um batismo no Rio Jordão e seu semblante nada mais era do que a Virgem Maria, a virgem penetrada no ânus e tratada como Madalena, apedrejada e deixada nos cantos onde ninguém a pudesse encontrar ou ver, mais um ser humano deixado à beira do abismo, onde não existia Estado, não existia família muito menos um Deus, que provavelmente essa hora se masturbava em sua própria bosta, pensem nas mulheres rotas alteradas, pensem nas feridas como rosas cálidas. Ela então oferece-me a lata, eu embriagado pelo zinco me rendo, por segundos quero beijá-la, mas sei que na verdade a minha vontade é colocar a língua na boca do dragão que Valéria segurava, a besta que soltava fumaça pela boca e em suas costas derretia lava e cinzas de cigarro, não me interessava mais minha hipocondria sobre diabetes ou qualquer herpes que pudesse dividir com aquele travesti, algo era mais forte e se Hercleto colocara sua vida em risco, eu também poderia, a rosa com cirrose, a anti rosa atômica. Ela me passa a lata e ensina a colocar o isqueiro na posição correta, o polegar deveria ser postado na face anterior, alcançando o gatilho, os dedos indicador e médio obrigatoriamente seriam colocados no terço inferior do artefato, deixando a metade de cima livre para que a chama não alcançasse os dedos, ninguém gostaria de queimá-los durante a tragada e assim jogar longe todo o material, isso seria uma sentença de morte. Enquanto me preparo, trêmulo, Valéria me conta uma de suas histórias de ninar para que consiga usar a lata de refrigerante da maneira correta.


Terminal_Rodoviário_Tietê


- Quando você chega em São Paulo, pela Rodoviária do Tietê, a primeira coisa que você sente ao ver aquele amontoado de concreto e sujeira, as barracas de camelôs, o cheiro de hambúrguer barato e óleo dizimado em frigideiras paralíticas, é uma sensação de calmaria tão grande, que sua vida reencarna no útero quente de sua mãe imediatamente, é algo lindo e intoxicante, é a maneira que a cidade te pega pelas bolas e acaricia a cabeça de teu pau com saliva morna, aconchegando sua fase oral com perfeição, você rende-se e não tem mais volta, mesmo que com o decorrer dos anos a vontade de ir embora seja maior, é algo lindo e tenebroso, o tesão da vida logo que você chega aqui é inexplicável, então a primeira coisa que você procura é permanecer onde o tesão é mais forte e a sensação da mudança de vida seja ininterrupta, achar um lugar para ficar e um trabalho são as óbvias saídas, e, é nessa hora que você sente a reverberação do que está por acontecer, a volta da corda ao redor do pescoço começa a apertar, porém você está ereto, pronto para a penetração e não vai parar apenas por algum contratempo, mas a cidade é uma alma morta, só você ainda não sabe disso, a cada dia que passa ela te mostra mais e mais a cara do monstro, mas você está recoberto de êxtase, não tem saída.


Eu trago a lata de novo, Valéria não liga e continua.


- Desde o começo São Paulo joga você nas cordas, pois não existe emprego suficiente para essa calhamaço de gente que a cada dia chega, não existe morada pelo mesmo motivo, e do metrô até a vida empurram seu corpo nos cantos e te prendem lá, asfixiado pelo prazer cosmopolita e enclausurado em uma medieval morsa que enterra seus ossos nos tijolos, aos poucos você começa a ser esquecido pela metrópole, de tanto permanecer apertado nos cantos, emoldurado em um quadro de carne humana que se acumula a cada dia, as pessoas acabam não mais enxergando ninguém, todas essas almas são deixadas lá, no quadro pintado por suor e sangue coagulado depois de vertido aos montes pelas veias abertas dos que são invisíveis aos políticos, moradores descendentes das grandes famílias aristocratas ex-residentes nos casarões do centro ou para a falsa intelectualidade elitizada que vomita citações europeias e acha que no Brasil do Rio de Janeiro para cima não existe nada higiênico, assim São Paulo aos poucos esconde seus moradores indesejados, isola suas almas em favelas, nos cantos escuros do centro, sem redenção, sem piedade e higienizados de toda a riqueza cagada na Oscar Freire ou nas Bienais, desse jeito a pirâmide se forma, desde os assassinos bandeirantes, até os especuladores de imóveis que aos poucos vão empurrando esse monte de carne humana para debaixo do tapete. Mas é nesse exato momento, onde não existe mais salvação, que Deus fornece a melhor ideia de todas, o crack, e, ele não é apenas uma droga, é a mais efetiva forma de revolução social que eu conheci, pois é visceral ao extremo e não tem mais volta, do momento em que penetra seu cérebro perpetua uma vontade inesgotável em manter-se embriagado por ele, em ficar eternamente sem sentir a miséria da tua vida que todos os dias acerta sua cara bem no meio dos dentes, essa droga é isso, não é um volátil modo de ficar chapado, é uma maneira eficiente de nunca mais ficar escondido nos cantos, amontoado com os restos de carne humana compactada, quanto mais se usa mais amortecido se fica desse isolamento e assim vagamos como zumbis que somos, criados em laboratórios da elite, controlados pelos senhores de guerra vendedores eficientes que nem ao menos sabem que estão nos deixando fortes, cada vez mais, e, chegará um dia onde seremos tão numerosos que será impossível não nos perceber, seremos um exército tão grande de pessoas vagando sem rumo e consumindo o cálice de Cristo que aos poucos uma sagrada aliança será impossível de não ser notada, tudo aquilo que estava escondido por debaixo dos ralos sanitários irá florescer, iremos ser vistos e ninguém mais poderá negligenciar essa situação, obviamente que alguns de nosso soldados irão morrer pelo bem da causa, mas uma revolução não se faz sem cadáveres e como sempre as pessoas de bem precisam sentir-se seguras, então seremos higienizados, mas o movimento não poderá ser interrompido, assim um dia vai brilhar a luz dos que são apenas a carne mais barata dentro dessa máquina. – O crack é a saída da invisibilidade, pode escrever isso em algum lugar e me passa essa lata que teu rosto já me falou que você é um dos nossos.


Hercleto correndo chega exausto, com a voz embargada repete o mantra pelo menos setenta vezes:


- Nós temos que ir para a casa da Dona Geni.


(continua...)

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