O Victor Magalhães traz o seu amor em tempo indeterminado

por - 11:06

divulgaçãovictor

Eu não posso dizer que escrevo no Altnewspaper com muita, muita frequência. Mas eu escrevo pra cá tem um bom tempinho! É como aqueles amigos que você vê uma vez a cada dois meses mas, caramba, ainda é mais próximo do que muita gente que você vê todo dia. E eu falo por essa introdução sentimental porque minha primeira matéria aqui foi uma entrevista com uma banda fantástica de Belo Horizonte chamada Iconili. Conhece? Provavelmente sim. E foi com o trompetista da banda,Victor Magalhães, que eu troquei uma ideia pra divulgar o som dos caras aqui no site. E como a vida nada mais é senão um monte de ciclos imprevisíveis e muito loucos, aqui estou eu novamente pra conversar com o Victor, mais de um ano depois, dessa vez sobre esse disco que leva o nome de Trago Seu Amor – nada de detalhes quanto ao tempo de entrega – e que conta com participações de gente boa da região, como Leonardo Marques da Transmissor.


Primeiro disco solo de Victor, Trago Seu Amor às vezes soa como uma daquelas deliciosas semanas de férias numa praia perdida do mapa, desses mares azuis-transparentes que quase se ligam com o céu. Mas no meio dessa agradável alegria-preguiça, desse solzinho batendo no rosto, é como se surgisse uma preocupação, um eco melancólico da cidade vindo de algum lugar que a gente não tinha percebido até então. E é essa a impressão estética que – me parece – transpassa todo o disco: uma constante confluência dos elementos da cidade, de um rock ao mesmo tempo nostálgico e moderno, da dança irresistível dos carimbos, lambadas e afrobeats e outros tropicalismos que já haviam conquistado o mundo inteiro no trabalho do Vitor dentro da Iconili. É esse duelo interminável entre a dança viva, o contato, e essa cidade meio fria e distante de "Palmeiras de Concreto". É também uma certa reinvenção da forma de compor de um músico que aprendeu a trabalhar numa banda enorme, o que não deixa de  ser uma forma de recomeçar as coisas do marco zero. Talvez por isso as dez músicas funcionem muito bem como algo novo, de uma reutilização de estilos que a gente já conhece mas que não havia sido feita dessa forma antes - e de melodias e letras que acabam ficando na sua cabeça.


Coloque o disco pra tocar (baixe aqui ou ouça aqui) e leia abaixo a entrevista sobre o passado, o futuro e o presente desse projeto promissor.

tragoaseu


Então Victor, é compreensível que o mundo te conheça musicalmente como “O Trompetista da Iconili” mas por mais que esse cargo seja honroso, eu queria que você fizesse uma apresentação pra além disso. O que a sua trajetória musical traz além da Iconili?

Minha trajetória musical profissional sempre vai carregar essa conexão com a Iconili, porque foi ali que surgiu a decisão que eu tenho mais clara hoje na minha vida profissional. Só com esse trabalho que eu realizei ali com meus amigos que eu pude participar de outros trabalhos e colher outros frutos. Foi com a Iconili que eu alcancei lugares que nunca imaginei, como tocar no Circo Voador dividindo palco com bandas incríveis e músicos incríveis, Bixiga 70 e Morbo y Mambo por exemplo... Que eu pude esbarrar com o Lucas Santana no camarim em Belém e trocar uma idéia incrível, que eu pude pegar uma van com o Kassin e a banda do Tom Zé e absorver o máximo que eu pude desses gênios nos poucos minutos mais especiais da minha vida. Eu fico muito extasiado com essas situações, porque são pessoas que eu admiro muito desde muito tempo, que influenciaram meu trabalho, e que graças a Iconili e o trabalho que eu tive com meus amigos durante todo esse tempo eu pude conquistar momentos e experiências tão especiais. Eu participei de várias situações até então, já gravei com Dead Lovers Twisted Hearts, Oghene Kologbo (Guitarrista da África 70), já toquei com Graveola e o Lixo Polifônico, Fusile, Transmissor, Cícero, Leonardo Marques etc... Dividi palcos de festivais com Tom Zé, Karina Buhr, Tulipa, etc...


Foi na Iconili que a decisão que eu disse que tomei amadureceu, foi ali que eu decidi que trabalhar com música de fato é o que eu quero e que me deixa feliz, foi ali que eu percebi que era possível.


Minha formação musical veio mais pela vontade que pelos diplomas. Eu faço parte daqueles 80% da galera que acabou seguindo um caminho onde você tem que arrumar uma profissão “séria” pra ser feliz e bem sucedido. Só que sucesso é relativo, e eu só aprendi isso depois de gastar alguns anos em alguma coisa “séria” vendo meu sonho se transformar em um hobbie tentando comprar felicidade com o dinheiro suado na frente de uma máquina. Hoje eu passo por um momento de transição, comecei estudar música clássica, estou me envolvendo ainda mais com bandas e projetos musicais, toco em outras bandas e artistas além da Iconili e pretendo deixar esse caminho mais sólido.


Quando é que o Trago seu Amor começou a tomar forma pra você? Levou muito tempo entre escrever as músicas e o final da produção do disco?


Ele tomou forma de uma maneira confusa. Eu tinha duas ou três músicas prontas, dessas três, duas eram pra Iconili em versões instrumentais, que não entraram. Então eu pensei em fazer um EP, porém de registro, algo pra mim e pros meus amigos, nada pra ser lançado, nada pra ser encarado. Foi então que o Leonardo Marques me incentivou a compor mais coisas, daí cheguei com uma que ele achou legal, depois no dia seguinte com uma outra que ele curtiu mais ainda e ai o disco foi se configurando. O processo começou no final do ano de 2013 e lancei o disco agora em março na internet, foi tudo bem rápido.


Na nossa última conversa, nós falamos sobre a dinâmica complexa de gravar com uma banda-trupe de onze pessoas. Depois dessas experiências, como é que você se sentiu gravando um disco solo? Foi fácil deixar o estúdio mais vazio ou você recebeu muitas visitas?


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Cara, parecia aquele momento em que a festa na sua casa acabou e todo mundo foi embora. Rolou uma discrepância porque a Iconili são doze (entrou mais um, risos) pessoas, são doze opiniões, doze bocas pra falar e comer, doze vontades, um ambiente onde uma ideia nem bate e volta mas samba num carnaval de terremoto. Quando eu me vi ali sozinho compondo e arranjando não tinha onde a ideia bater pra voltar... me deu um certo desespero.


Esse foi o grande desafio, de botar a ideia pra girar, tornar-se uma terceira coisa, e o papel do Leo (Leonardo Marques) foi importantíssimo nesse sentido. Foi com ele que eu batia a bola, que eu mostrava minhas dúvidas a respeito de algumas músicas e arranjos. Nós ficamos fazendo a pré produção durante uns dois meses no estúdio dele, o “Ilha do Corvo”, ficamos de quarentena trabalhando no disco e até hoje nas rodinhas de amigos tenho que aguentar as comparações de duplas dinâmicas e sertanejas.


Depois disso tudo correu mais natural, mandei umas coisas pro Guto Borges (Dead Lovers Twisted Hearts) e fizemos uma música, o Henrique Matheus (Transmissor) e Thiago Correa (Transmissor) fizeram a co produção, Nara, Henrique e Lucão (iconili) gravaram algumas músicas.


O Leo  que além de membro da banda mineira Transmissor é também responsável por uns trampos muito bonitos que tão surgindo pelo selo La Femme Qui Roule – pelo que eu entendi já era seu parceiro musical de épocas passadas. Mas algum motivo especial te levou a pensar nele para a produção? Algum toque que você queria dele no seu som? E a gente pode esperar mais coisas vindo dessa dupla sertaneja? (risos)


Eu já conhecia o Leo de vista, amigos em comum, fora do que normalmente as pessoas o conhecem, pela sua trajetória no Diesel ou Transmissor. Quando ele lançou Dia e Noite no Mesmo Céu em 2012 eu fiquei em choque. A atmosfera que ele criou pras suas canções foram de uma sensibilidade ímpar! Entrou pra minha discografia. A gente acabou se aproximando mais, em festas, amigos em comum e então a relação se tornou uma amizade. Comecei a tocar teclado no projeto solo dele e a fazer alguns subs no Transmissor de baixos e teclados, enfim, Leo é uma daquelas pessoas que eu me pergunto por que não conheci antes. Em um dia qualquer ele me apresentou algumas gravações do La Femme Qui Roule que ele tava produzindo, em especial duas músicas, do Thiakov “O Bêbado” e do Vinikov (Dead Lovers Twisted Hearts) “Burn”, as duas muito boas, então eu expus minha vontade de fazer esse registro em EP e ele animou de produzir. A ideia cresceu como eu disse anteriormente e acabou virando um disco. No Dia e Noite no Mesmo Céu me chamou muita a atenção de como o Leo percebe a qualidade de um som. Seu disco é cercado de mellotrons e atmosferas nostálgicas e isso me atraiu muito como o olhar de um produtor que eu gostaria que trabalhasse no meu disco.


Admiro muito o Leo, além de agora integrar a banda do seu projeto solo no teclado, junto com Pedro Handam (Transmissor) e Henrique Matheus (Transmissor) eu tenho esse desejo constante de trabalhar com ele. Seja em que projeto for, será sempre um prazer, é um cara que eu quero estar perto, absorvendo e aprendendo o máximo possível. Tenho tocado com o Transmissor também, mas não sei onde isso pode dar, as ideias vão entrando em sintonia e coisas novas vão surgindo, a certeza que eu tenho é que esse encontro não termina aqui.


Como eu disse, o disco me deixou entre muitas outras essa sensação discreta de conflito, de crítica política, principalmente em “País Tropical” e essa coisa linda das “pessoas de concreto”. É por aí ou não era essa uma das intenções? (fica à vontade pra dizer se eu tiver viajado!)


Existe! Essas composições carregam um pouco desse momento que acontece em Belo Horizonte, elas foram feitas no meio disso e pensando nisso. “País Tropical” é a que mais resume – na minha opinião – esse tormento ou a parte ruim do conflito, que é o que muitos estão sentido aqui, de viver numa cidade que não quer se deixar viver. O carnaval mineiro é esse conflito que tento colocar no disco, numa parte que luta pela alegria e por um suspiro de viver na cidade, ocupando, contra um governo sem diálogo com a população e de pessoas conservadoras que se espremem cada vez mais num ideal de felicidade/consumo e negligência. É claro que em “País Tropical” tudo isso passa pelo meu ponto de vista, e eu me coloco mais no meio disso tudo do que os outros, mas as pessoas compartilham disso também, viver feliz em Belo Horizonte é um desafio. Não existe um transporte público que de fato é democrático, transitar está cada vez mais difícil e caro, os espaços estão cada vez mais condicionados a não nos aceitar, despejos, falta de diálogo, tudo isso gera uma angústia enorme. A prefeitura já se fechou pra população diversas vezes, com correntes, com barreiras policiais e a cada atitude surreal do nosso prefeito aponta pra um caminho de insanidade medonha. Pra quem acompanhou as ocupações na câmara e as reuniões dos representantes com o Márcio Lacerda sabe que essa cidade está na mão de um cara louco, que faz declarações como essas: "Vocês na luta de vocês, nós aqui na nossa" (defendendo a máfia dos transportes).
/ "Nós vivemos na democracia, se fosse ditadura seria mais fácil, mas não é" /
"Eu não vou ficar a disposição de vocês"/
"Vocês não podem sair fazendo denúncia por aí" (se referindo ao Ministério Público)./
"Se você está em um espaço democrático, você tem que respeitar o espaço em que está"/ 
"Vocês precisam agir com lealdade" /
"Tá bom, eu recebo vocês, mas a data é sob conveniência minha, como toda autoridade."/ 
"Vocês precisam entender, gente, a prefeitura é como a família”/ “Olha, não me pressionem nesse limite, vocês vão gostar ou não gostar da minha agenda."

Mas o disco carrega mais canções que apontam pra alegria que uma tristeza, acho. E falam desse momento, dessas pessoas, dessas transformações, de amor principalmente, e eu gostaria de terminar essa resposta com um texto do meu parceiro em “Lambada da Goiabada”, Guto Borges.


E agora que pariu a cria, o que vai fazer do Trago Seu Amor? Tem show de lançamento marcado? Turnê pra gente acompanhar?

É tudo mais difícil sozinho, mas eu me vejo cada vez mais bem acompanhado e me considero um sujeito de sorte (risos)!. O show de lançamento com disco físico está com previsão para maio, aqui em Belo Horizonte. A banda conta com Yuri Velasco (Graveola e o Lixo Polifônico), Leonardo Marques (Transmissor), Henrique Matheus (Transmissor), Gustavo Cunha (Iconili), Nara Torres (Iconili) e eu, tudo isso com a produção executiva da Jana Macruz. Vou dando uma vez pra cada passo e tentando fazer a coisa girar e acontecer.


Uma pergunta bônus-surpresa: E o pó do helicóptero do Perrela?

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3 comentários

  1. Bom dia,

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  2. Po, legal o site, mas pelo que vi precisa ter login para fazer download, ou seja, isso limita muito o público que vai baixar o som.

    mas valeu a dica.

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  3. entrevista boa, ainda mais seguindo o protocolo: dar o play no som do cara e ler sobre a produção do mesmo.

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