Um papo com o Wash sobre o Isosceles Kramer

por - 11:10

Isoceles Kramer

Wash de Souza é parceiro aqui do Altnewspaper (escreve quando quer, reza a lenda que é uma vez por ano), além de sempre mandar o som de suas bandas pra download lá no Hominis Canidae. Neste ano, ele e outros camaradas desenterraram um projeto antigo, o Isosceles Kramer (formado por este pessoal tímido da foto), lançando um disco com sons que remetem há dez anos. Resolvemos conversar com ele sobre o projeto e essa saudade que não passa do início deste século e sonoridades que não voltam mais. Ah, quem conhece o Alt e já leu os textos do Wash por aqui, sabe que ele não curte usar maiúsculos no começo das frases, do mesmo jeito que eu curto usar as reticências, então respeitarei isso. Saca o papo aí.


Pra começar, já que a banda teoricamente é nova, quais as influências que convergem para o Isosceles Kramer, além de Seinfield?


Wash de Souza: bom, é uma banda nova, mas é uma banda VELHA, se é que me entende, hehehe! O Isosceles completaria 10 anos em 2014 se estivéssemos na ativa até hoje. mas por motivos diversos, a banda acabou parando de tocar, de ensaiar e parou, de 2005 até agora.


mas sobre as influências: quando o Chovich, Daniel e Irú me chamaram pra tocar, a intenção era fazer algo que seguisse linhas como At The Drive-In, Sparta, Fugazi, Braid. esse som quebrado típico dos anos 90/00 que acabou sendo conhecido como post-hardcore. um som que de pouco em pouco tá sendo deixado de lado, ficando com um ar de "datado", diga-se de passagem. assim, não creio que esse ocaso tenha sido proposital, mas as bandas que tem aparecido - na cena nacional e gringa - hoje não estão mais interessadas nesse tema. Eu vejo o novo "barulho" (rock fica limitado) tomando os anos 80 como base, seja com o punk urgente de bandas como negative approach, o crossover do suicidal (tendencies) e excel, o ritmo arrastado do pós-punk christian death e siouxsie, ou aquele new wave incansável de romeovoid e plastic bertrand. até o no wave de lydia lunch, teenage jesus, banda patife. enfim, tudo isso, menos o post hardcore noventista. não é nada pessoal ou musicalmente revisionista: essas coisas não são planejadas. a música é uma célula mutante magnífica! é assim porque simplesmente é! acontece! e de qualquer forma, vejo muita gente falando sobre a falta de bandas com essa pegada 90/00. bem, nós voltamos desse limbo, gravamos um disco. agora só falta se organizar e tocar!


Flyer Show Isosceles


Mas essas músicas são antigas ou foram feitas mais recentemente? Como é o processo de composição (instrumental e letras) do IK?


WS: As músicas foram feitas em 2003. Elas tem "cara" de 2003! Nessa época, quando eu tinha um estúdio (, a gente ensaiava bastante e sempre mexia nos arranjos, ficava experimentando vocais, tínhamos tempo pra isso. Entre 2003 e 2005 fizemos vários shows (com College, Bandanos, Colligere, Mordeorabo, Ludovic e até com o Glória!!) e gravamos uma demo que não ficou muito boa, por isso nem foi divulgada. Dai, por vários motivos - viagens, faculdade, mudanças - a banda entrou num hiato. Eu centralizei minhas ideias no Eu Serei a Hiena, e deixamos o Isosceles de lado. Dai no ano passado todos nós acabamos revendo essas ideias e vimos que eram músicas legais, que mereciam ao menos um registro. Falamos com o Rafael Crespo - o cara ideal pra produção desse tipo de som, e ele fez um esquema legal pra gente, com calma, experimentando bastante, pra sair um trampo legal. Usamos basicamente os esqueletos do que tínhamos antes e recriamos muita coisa em cima disso. Os vocais e letras foram todos feitos no estúdio, na hora de gravar, e tinhamos esses retalhos de letras da fase antiga, o Vinicius remodelou a maioria com novas linhas e conceitos. O Vinas é um cara muito criativo na experimentação vocal. Ele gravava uma sequencia de vozes que aparentemente não tinham nada a ver, mas quando o Rafael juntava os canais das vozes, ficava incrível! Na música "Exemplar", ele tinha uma BAGUNÇA de vocais, mas quando juntou tudo da forma que ele tinha na cabeça, ficou muito bom!


Agora a banda voltou ou foi apenas a gravação do disco e pronto?


WS: na verdade a banda voltou pra gravar esse disco, em primeira instância; um dia tava tomando umas cervejas com o Vinas e comentamos que seria legal gravar essas músicas que ficaram abandonadas num limbo, que eram musicas legais e mereciam ao menos um registro e tal; dai falamos com o Daniel, o Daniel falou com o Irú, e já que todos iam participar, eu falei com o F. Chovich pra completar. Todos toparam fazer a gravação, mas não falamos nada sobre shows, nem tampouco sobre a banda "voltar"; mas depois do resultado final eu me empolguei em fazer uns shows, e veremos isso muito em breve!


mas ainda não significa que a banda está ativa; só oficializamos as músicas e provavelmente faremos uns shows... depois disso, sinceramente, não sei o que acontece.


E essa saudade do fim dos anos noventa e início dos anos 00 que não passa, de onde vem?


WS: hahahah! rapaz, nem sei se é "saudade" isso que eu tenho, que a gente tem. eu sou uma pessoa que ouve de tudo (não uso a palavra "eclético", porque denota MAL GOSTO musical); ouço de tudo, mas sou limitado pra compor. minha base de composição principal tava nessa fórmula por muitos anos, esse esquema post-hardcore quebrado de ATD-I, Braid, Faraquet, Fugazi, Trans Megetti, Jawbox... inevitavelmente tudo que eu compunha saia com essa cara. Mas tô superando isso. Tenho me inspirado em outras áreas e ritmos, o jazz bebop, o afrobeat, o hip hop clássico, os ritmos do leste europeu e as escalas klezmer/arabescas tem feito mais minha cabeça nos últimos tempos, principalmente depois que adquiri um double-bass 4/4, esses popularmente conhecidos como "rabecão". me despertou novos interesses.


A vontade de reativar o Isosceles pra gravar e fazer uns shows foi estritamente porque a banda inteira chegou à conclusão que as músicas ainda eram legais e seria um belo desperdício jogar essas músicas na lixeira do esquecimento. Já tinha uma boa galera que aparecia nos nossos shows em 2004, 2005, que curtiam os sons... assim que terminamos o trampo com o Rafael e jogamos o disco pra download na rede, muita gente veio me falar "cara! que saudade de ouvir essas músicas! muito legal vocês terem gravado isso e tal!"... acho que só por essas mensagens dessas pessoas que acompanhavam nossos shows já vale o trabalho que nos dispusemos à fazer.



Por que Seinfield é legal? Me convence aí, não vi com afinco, mas o que vi não me convenceu...


WS: mermão, se eu for me estender nesse assunto, isso vai virar um TRATADO! isso é quase uma questão filosófica, hehehehe! eu considero Seinfeld o melhor apanhado de conhecimentos do homem moderno que já foi exibido em rede televisiva, hahahaha! seríssimo! os criadores da série venderam a ideia de que era um show sobre NADA, mas eu acho que por um bom tempo eles abordaram absolutamente TODOS os assuntos que podem ser "irrelevantemente RELEVANTES" pro bem-estar e pro convívio social. quer dizer que os personagens demonstravam a prática das "regras invisíveis" do convívio social? sim, mas do jeito AVESSO que deveria ser: ELES eram as pessoas horríveis, reclamonas, preconceituosas, afrescalhadas, cheias de manias toscas... enfim, tudo de ruim que pode existir no caráter de uma pessoa que pensa estar agindo corretamente no mundo, se abstendo simplesmente de matar ou roubar, mas fazendo todo o resto de besteiras que um humano pode fazer... não é genial, isso??!!! e se for colocar na balança com a atual classe média que temos nos grandes centros brasileiros, a série fica ainda mais atual! pega uma coletânea de presepadas do George Constanza pra você entender do que eu to falando! hehehe.... que coisa horrorosa....


Resumindo, nessa época eu assistia tanto Seinfeld, que acabou acontecendo esse nome. Isosceles Kramer. eu deixava rolando na tv do estúdio umas VHS com 6 horas de Seinfeld em cada, deixava lá rolando eternamente, e ficamos um tempão imaginando nomes pra banda, até que bateu esse. o Vinas não gostou, mas acabou se acostumando!


Por que vocês demoraram tanto pra lançar o disco? Melhor, o que mudou da compilação Dance To the Radio para o atual momento do lançamento do álbum?


WS: hmm, ok, esse som .. Margins. Foi bem no começo da banda e essa era praticamente a única música que a gente tinha redondinha, com começo, meio e fim, vocais, tudo. O Nenê ensaiava no meu estúdio, deve ter visto a gente tocá-la, e perguntou se a gente queria participar dessa coletânea que ele tava fechando. Concordamos em gravá-la do jeito que estava, ele prensou e nos deu umas cópias do CD. Provavelmente se fosse gravá-la novamente pra esse disco, teria mexido na estrutura dela inteira, do começo ao fim, e o motivo é óbvio: depois de alguns meses de gravada, alguém veio nos dizer que Margins era muito, mas muito parecida com uma música da banda inglesa Placebo... eu mal conhecia a banda, muito menos esse som em particular - every me every you, acho que é essa... eu disse "sério? como assim??", fomos ouvir a música... e a primeira estrofe do vocal era realmente IDENTICA ao Placebo... "que merda", a gente pensou. foi total sem querer, ou se houve alguma influência foi de forma racionalmente subliminar, sei lá como rola essas coisas! ...de qualquer forma, continuamos tocando ela desse jeito mesmo, mas uns anos depois eu refiz esse trecho todo. ficou melhor, mas não a regravamos.



A demora dessa fase pra atual foi completamente casual, foi uma série de erros não planejados: eu tive uma reviravolta na vida, vendi o (estúdio) Caffeine e fui embora do Brasil. depois que voltei, o Iruatã, nosso baixista, se mudou pro Rio de Janeiro. o Daniel e o Vinicius acabaram se distanciando de tudo também pra cuidar de suas vidas. eu e o Chovich, juntamente com o Barata TEST, nos empenhamos mais no Tri Lambda... e assim o Isosceles foi colocado de lado por 10 anos! essas coisas acontecem!


Vocês não tem medo do nome e da origem de onde ele foi tirado (uma serie de comédia), a banda não seja levada a sério? Ou não deveria ser levado mesmo?


WS: hahaha, não sei, nunca pensei nisso dessa forma. afinal é só um nome de banda né! hehehe! acho que o pessoal acabou associando o nome à figura geométrica, trigonometria, essa coisa meio matemática que rola no post hardcore, de tempos meio malucos. durante o tempo que a banda existiu efetivamente, poucas pessoas chegaram na gente e disseram algo tipo "Isosceles Kramer... Seinfeld né!"; só quem sacava muito do seriado que associava o nome, diferente de hoje, que é só fazer uma busca no Google e você já dá de cara com a própria cena!


na real nunca pensei que alguém se interessaria a esse nível sobre o nome da banda, entende? acho que sou do tipo que nunca pensou em "ser levado a sério" por ter uma banda. fazer uma banda é juntar umas pessoas, de preferência uns amigos, pra tocar um som que todos estão a fim de tocar, só isso. E é ai que entra o problema do nome, porque se você tem uma pretensão maior ao montar uma banda, vai escolher um nome pra ela, daí a preocupação com o nome é maior. não significa que vai funcionar! mas se você colocar qualquer nome genérico, também não vai chamar atenção... depende muito do seu propósito pessoal ao montar uma banda. A gente optou por um nome engraçado, mas só é engraçado pra quem quer ver graça nele!


isso me lembrou algo parecido que aconteceu com uma banda "indie-emo" dos anos 90, que chamava JEBEDIAH, acho que era australiana. era uma puta banda densa, dessas bem choronas mesmo, nível Mineral, e os caras tiraram o nome dos Simpsons! (Jebediah Springfield era o fundador da cidade-palco do seriado, Springfield); enfim, faziam um som "sério", mas no fundo era uma bela gozação com esse lance de dar nome em banda.


Como você acha que seria o disco se ele tivesse sido lançado lá atrás? Quando a banda era ativa?


WS: boa pergunta. acredito que existem prós e contras nessa situação, olha só: se tivesse sido lançado em 2004, esse disco seria mais contemporâneo com novas sonoridades que estavam despontando ali naquele período, naquela cena. óbvio que pra nós como banda, em momento criativo, seria muito melhor! é muito bom você concluir uma composição e já ter a oportunidade de gravá-la de modo profissional no estúdio, um momento assim pode ser tudo pra uma banda! mas tenho certeza que a produção não teria saído satisfatória pra nós. O tempo que tivemos pra revisar a obra, pra limar as arestas das músicas, juntamente com a experiência do Rafael Crespo com esse tipo de som, e sua dedicação pra chegar a cada tonalidade, timbre e volume desejado, não seria possível há 10 anos; além, é claro, da tecnologia que cresceu em torno das ferramentas de gravação atuais, aliadas às técnicas analógicas do passado das gravações em geral. Enfim, vira um dilema, né?! coisa comum aqui pra nossa realidade. se tem a sacada da contemporaneidade, não tem a tecnologia necessária, ou "a pessoa" necessária que entenda o que você quer ali. "Momento" é importante, nessa perspectiva. De qualquer forma, nunca saberemos!



Pra fechar, como é pra você mexer em músicas de 10 anos atrás e grava-las? Muda alguma coisa? Por que uma pessoa pode mudar muito em 10 anos...


WS: sim, as pessoas mudam em 10 anos, sem dúvida. eu mudei bastante, sonoramente falando. E como pessoa também, claro, mas não sei se vem ao caso, hehe!! Ainda ouço muita coisa que eu ouvia na época que compusemos as músicas desse disco - acredito que meus amigos de banda também ouvem algumas dessas bandas. apesar disso, se pegarmos umas horas num estúdio pra compor novamente, provavelmente essas novas composições entrariam por caminhos diferentes. eu gosto da ideia da métrica que o Isosceles seguia, e provavelmente essa métrica se manteria. mas acho que alguns instrumentos diferentes seriam inseridos, talvez alguns metais, um pouco de sincronicidade eletrônica, loops de programação, algo tipo 65daysofstatic, these arms are snakes, from monument to masses... (essas bandas que citei, por sinal, não são o que chamamos de "novas tendências"), mas as guitarras e a métrica, com certeza se manteria.

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