Antes do Apagar das Luzes - Parte III

por - 11:06

Centro Antigo de São Paulo por Lucas

O Resto da Alma em Linhas Pares e Ímpares

Pois então eis uma revelação que permaneceu escondida quase durante décadas, algo tão

Seis meses passaram-se desde o encontro com as intempéries de Sófocles, visitadas por

incomensurável quanto as dimensões da matéria negra que acertadamente permaneciam

nossos inertes corpos azuis, Hercleto e eu afundamos aos poucos dentro da paranoia do

ocultas, como se assim pudessem auto flagelar-se no escuro, rezando tons em sépia para

crack com uma vontade destemperada, dos possíveis sete dias da semana, usávamos todas

permaneceram escondidas, sitiadas por seu próprio apodrecer, como Heráclito enterrado

pedras descontroladamente por pelo menos seis, o disponível dia era usado nas ilusões ou

nos excrementos mundanos até o pescoço, uma podridão de arredores febris, carcomendo,

nos compromissos familiares, tempos depois esquecidos por Hercleto completamente, e,

exalando sua genética que permanece invisível aos olhos humanos, um pedaço de bosta

de minha parte um abandono aos últimos pedaços de humanidade que ainda restavam na

mais ferrenho em odor, assim foi como me escondi de você meu amigo Hercleto, perfeito

alma. Mas, não fomos apenas nós dois os desconfigurados, a soltar pedaços de identidade,

grande pedaço de merda que permanece encostado à sombra de uma árvore por dias após

tropeçando por entre os dias, esperando a língua podre do asfalto consumir nossa alma e

ser excretado por algum cachorro de madame na Rua Pamplona, assim foi, “mas não foi

infinitamente varrer da existência do Cosmos nossa presença, não, não fomos os solitários

proposital, posso assim pensar”, porém, certas evidências de minha fuga foram libertadas,

eunucos. Uma cidade toda após esses passados seis meses sucumbiu ao zoológico familiar

liberadas pelo caminho, como pistas de um assassinato deixadas aos acaso, desesperadas

de Creonte e do crack, o preço despencou e ao final da primeira década dos anos dois mil

por serem descobertas, todas estavam lá, quando escondia os restos das pedras por baixo

, as pedras poderiam ser encontradas pelo preço de dois reais, isso forneceu a divisão pura

dos papéis picotados onde amassávamos o crack, para, após levar-te em cambaleante som

do centro da cidade em pequenos territórios ocupados por silenciosas armaduras de metal

do carro ziguezagueando tiquetaqueares das marchas, pudesse fumá-las ao final da noite,

controladas por escravocratas pós modernos, a Joy Division encarcerada na genética dos

escondido por debaixo da mesa na sala, usando umas toalhas quadriláteras como proteção,

helicópteros, carros de avanço rápido, infiltrados, sacos plásticos de milimétricos cortes

quase queimando a casa toda depois de adormecer com a lata em minha mão, “estavam

, os atravessadores manufaturando franquias, disputando restos da tonalidade esquecida

lá, todas as pistas estavam lá”, nas horas onde não atendia ao telefone, pois o estalido das

da pele, pessoas crônicas da doença mesclada. Outros, ressonantes da síndrome violenta,

badaladas trincadas na campainha davam-me tremores bem maiores que os seus ao tentar

genética repleta do que - quase por uma década agora - instala-se hereditária nas sombras,

fluir pelo prédio, através da frágil canaleta por onde o aterramento descia, após a ingesta

passada por gerações até chegar aos lábios e mãos que vivem em nosso tempo, aura que

de um litro do álcool com groselha, as pistas malditas, covardes evidências de um esforço

a andar desapercebida por entre os dias, movendo-se lentamente na direção dos corações

débil, quando do nosso contar todas moedas inexistentes, que nos levavam sempre às duas

maternos que prescrevem leis sem doutores, manufaturadas na aristocracia e antes disso,

últimas pedras ou parados no estacionamento daquele supermercado, dois zumbis vivos,

na escravatura. Sorrateira com aneladas escamas, correndo em direção à língua bifurcada

tentando convencer o caixa eletrônico que deveria nos dar o dinheiro, pois a esmola seria

exalando veneno, enfeitando o genoma eucarionte passando-se por definições da moral e

bem utilizada. Sim meu amigo, irmão Hercleto, pensamentos que me assombram até hoje,

bons costumes, são fenótipos exteriorizados nas piores versões do ser humano, misoginia,

quando ando desavisadamente com meu cachorro pela Barão de Limeira, sinto completas

racismo e eugenia, corriqueiras conversas de bar tão eloquentes quanto discursos nazistas,

as vozes de Creonte e Tirésias, os seios inexistentes de Dona Gení exalando alcaloide vil,

todas essas ideias perfazem o caminho cada vez mais intrínseco pela alma da humanidade,

tenho náuseas decrépitas toda a vez que lembro do meio fio ao lado da pizzaria suja onde

o pós modernismo apenas tratou de estampar seu rosto em uma manta asfáltica, fundida

te encontrei, após exauridos telefonemas de sua irmã, “não os atendia de vez em quando”,

em piche e lava nas arestas, imperceptível tatuagem escondida na nuca, revelada como se

pedindo que te encontrasse, essas visões me assassinam como uma doença venérea cinza

fosse polaroide que se auto destrói após ao segundo parágrafo. Os homens transformados

mal curada, deixada de lado, desprezada, mesmo com seus incessantes pruridos na glande,

em cinzas, as cinzas queimando em viciados, os viciados como povoamento comprador,

eu, deitado ao chão do apartamento na parte sul da cidade, lambendo azulejos onde jaziam

os compradores em mutação para massa de manobra, a massa de manobra rechaçada com

limpas centelhas de vodca com suco de laranja, deixadas lá ao tentar equilibrar um prato

violência, a violência em alquimia com o poder paralelo, o poder como valor de barganha,

cheio de cocaína, a lata e o copo, malditas dicas, malditas eternas elas Hercleto, fodidas,

nas esquinas, esquinas e mesas, mesas e gabinetes, gabinetes e residências, residências e

todas elas, todos nós, as pupilas dilatadas e os corpos lúgubres e semi mortos, o antepasto

enfim a violência retorna ao homem, parte indivisível do mesmo. Os produtos dessa forma

na televisão em sussurros, o andar nervoso dentro da sala esperando a todo minuto a porta

residem em cada mulher estuprada, a cada justificativa xenofóbica, no queimar índios no

ser arrombada por seres, a prisão, o acidente vascular cerebral, coisas que jamais vieram,

calçamento, nas religiões opressoras e suas leis raivosas e homofóbicas, tudo está lá, mora

como eu, “malditas sejam elas”. Sou capaz ainda de sentir o cheiro das pedras nas cenas,

sem cerimônia na genética dos senhores de guerra, seguidores e simpatizantes, reverbera

telejornais e em alguns casos posso até sentir o alumínio da lata corroendo minhas narinas,

nos discursos de ódio na binariedade internética, ecos feitos por papagaios subalternos da

ainda escuto teus olhos paranoicos como o androide de Thom Yorke, o esperar tuas duas

selvageria. A cracolândia tornou-se um depósito sem reciclagem, onde tudo e todos eram

mãos enforcando-me pela partilha não correta, náuseas, ainda me atormentam lembrando

varridos para debaixo do tapete, colocados no lado de fora das vendas usadas pelo povo,

dos inúmeros cigarros mártires nicotizados esfacelados em menos de meia hora, as dores

a cegueira corriqueira tornou-se altamente viável, como uma moeda de troca, “nós vemos

tornando-se funcionais cinzas Antígona, eles estão todos vivos, como espíritos japoneses

o circo, porém não enxergaremos”, nada que não bateu ainda em suas portas lindamente

de terror, atormentando meus sonhos com seus cabelos longos e pálida epiderme. O poço

esculpidas pode ser tão importante assim. Todos salvos pela programação do Soma, nada

da minha alma sabe que o ódio de sua mãe tem razões de real verdade consumada e aflita,

além. Esperando apenas a arrebentação da barragem, o destruir moinhos por especulação,

pois o patafísico conhecimento que minha existência toda é baseada no ato do contrariar

antes do apagar das luzes o delírio foi pá de cal nos holofotes, a rigidez dos cadáveres a

livrou-me do destino onde teu corpo pereceu, assim consegui distanciar-me dos poentes,

retirar os tapa olhos, quando quase todas as biqueiras iniciaram seus negócios com a pedra

consegui não mergulhar. Isso não salvou-me depois, porém a cabeça dentro d’água estava,

, uma concorrência resolvida pela única moeda corrente, vivendo nos becos entrelaçados

inerte, esperando que o mundo concertasse aquilo que estragamos, como se a culpa não

pela madrugada com ou sem garoa, as armas, as propinas e as almas, vendidas cada vez

existisse, “e não existiu em verdade, porém na história”, por isso Hercleto, camarada meu,

mais e mais. O movimento então regurgitou-se, levando o gosto de ácido gástrico em cada

essa é a ligação que nunca fui capaz de atender pela completa falta de latinos americanos

boca, remoendo as pessoas acordadas rápido demais. Inúmeras afastaram-se sem perceber

culhões. Os baseados fumados nos anos subsequentes jamais puderam apagar as feridas,

onde estavam e como fariam para, por entre a névoa, retornarem aos seus estágios larvais,

o silêncio imponderável entre as conversas ralas onde eu escondia que cheirava dentro de

outros resolveram intervir colocando muitas vezes a vida vagando pelas linhas corrosivas,

sua casa para que não ligasse o modo suicida, nada disso conseguiu desconstruir mazelas

onde equilibrar-se tinha como essência saltar. Existiram ainda aqueles, que moveram seus

deixadas, nenhuma das lamentações solitárias no fundo do banheiro público sujo capazes

corpos na direção da saída, “como Hercleto”, sobreviver após presenciar – e viver - tudo

foram de redimir os erros cometidos pela minha falta de coragem, “porra de vida Hercleto,

o que aconteceu era algo impensável naqueles tempos, assim viciados recaiam intensos,

porra de vida”, você era como a folha no mata borrão, esperando uma maldita análise do

uma, duas, três, quatro vezes, quantas forem necessárias ao pulmão, para que sorvesse do

filho de uma puta Sartre, a inércia de conteúdo sensível, existia apenas para você mesmo,

ar puro. E como sempre acontece na história, os corpos depositados apontavam o caminho

eu não poderia produzir nada pela minha espontaneidade relacionado ao seu existir coisa,

dos que saíram. Enfim um Paraíso paulatinamente palpável horizontalmente era possível,

era como se você fosse aquela branca inércia escapando da dominação da consciência, as

e como não poderia deixar de ser, o espírito humano, tal e qual uma barata, continua andar

tentativas em continuar respirando, “keep, keep breathig, I can’t do this all alone”, e eu,

infinitamente, retorcendo-se pelos cantos, escapando pelas arestas onde existe umidade e

eu, vagabundo rindo um sorriso sem espinha dorsal, esperando ser sufocado e morto pelas

conforto em abundância, rejeitando o papel imposto, os bons costumes, estatísticas, moral

mentiras, preferi olhar o papel de parede cinza no vazio do ser alguém morto, sem escapar,

e boas condutas. Lá, nesse lugar, um platô alpinista de segurança à beira do penhasco, só

não existia nem uma canção, “sing us a song, a song to keep us warm”, nem uma melodia

lá foram encontradas luzes em programas políticos humanistas. Antes porém, no intervalo

que pudesse reverter essa covardia em deixar teu corpo padecer no nosso vício, eu merecia

entre o planalto de salvação e a explosão do crack, algo que vivia no lodo das sombras a

ser sufocado e assassinado por ter escolhido o papel de parede, talvez um dia uma morte

permanecer eternamente escondido em porões onde mães proferiam educação católica, e

lenta, dolorosa e repleta de mazelas seja o presente do Universo à minha covardia, único

uma demanda pela bem sucedida forma de viver feliz nesse mundo de merda, despertou.

pilar daqueles tempos que deixou-me longe desse caos. Contudo, mesmo olhando para o

O sopro podre dentro da alma humana adormecido, porém vivo, respirando pela traqueia

outro lado, ei-lo de novo, não sendo para mim, mas, suas formas, cores e posicionamentos

aberta, homem subverteu as teorias cartesianas, queimou os ossos de Sartre, imaginação

me aparecem muitas vezes mais, nunca consegui vê-lo, sempre percebi quem era no mata

escalpelada em golpes febris, a materialização da realidade no homem seguiu um caminho

borrão, independente de avistar a presença da folha no meu campo de visão, sabia que era

completamente distinto, pois conseguiu encontrar duas consciências distintas, separadas,

ela, você Hercleto naquela mesa a aparecer de novo em sua forma, cor e posição, eu erudia

por completo antagônicas, porém vivendo no mesmo tempo, no mesmo corpo, a formação

sua pessoa assombrando-me as arestas dos olhos, a essência remota da existência, mesmo

da imagem dualista, preocupante menos pelo paradoxo, mais pelo fato do homem iniciar

sendo as duas identidades irmãs separadas do mesmo corpo, o seu, ali deitado na sarjeta,

o processo de construção da imagem – e subsequentes ideias relacionadas - , seguindo até

segurando o prato quente enquanto entupo meu nariz sozinho na sexta à noite, sempre a

cartesianos padrões iniciais, ao mesmo momento em que constrói um retrocesso, a ideia

mesma folha, sempre o mesmo você, não impondo limite à minha espontaneidade, e, ao

formada é nascida de uma interpretação errônea da imagem, uma matemática imprecisa,

mesmo tempo nunca fostes um ser inerte existindo em si, você não existia de fato, apenas

cálculo onde adjetivar pessoas era de uma precisão decimal, a coisificação do ser humano

era o existir em imagem, uma sombra dentro dos meus globos oculares, uma ineficiência

tornou-se algo palpável, taxar negros, pobres e mulheres invadiu cadeias genéticas, o gene

dentro da minha amoralidade, “wake from your sleep”, nada mais do que isso, e assim foi

defeituoso como aqueles que transmitem doenças inalcançáveis. Essa interpretação, uma

pelo tempo em que preso permaneci na lata, nas cinzas e no crack, “there’s such a chill,

infinita doença, não tem preferência de ataque, progride em novos, velhos, sem gêneros,

such a chill”, “we hope that you choke, that you choke”, uma ingrata luta onde ouvem-
se

ou cor, tem uma preferência social ligeiramente tendenciosa, e resiste. Lutador verdadeiro

apenas vitórias ao longe. Mas uma dessas, foi exatamente a sua contra a maldita sombra,

esse maldito, não aqueles que matam com um soco apenas. Lentamente golpeiam o fígado

que vivia escondida e nos foi mostrada aos poucos, sem tempo de adaptação. Pedras voam

, assim é que este boxer dos mil infernos luta, implodindo hemácias hemorrágicas. Ódio

nas calçadas desesperadas, acomodando-se de maneira à não causar muitas lesões
durante

disseminado na forma de moral torta, contra mulheres, moradores de ruas e viciados, esse

os saltos, os deformados saltos na direção do Paraíso. E eu sempre me lembrarei de Julio,

foi o verme que surgiu das sombras, principalmente na primeira invasão da Cracolândia,

o Cortázar, (são controladas por Ozymandias), e seu jogo da amarelinha, platôs deitados

antes do platô. Ainda hoje acontece sempre que Creonte sai para coletar o sangue que lhe

na forma de caleidoscópicos, (a ideia formada é nascida), as palavras que sempre
faltam,

fornece vida. Impedindo que se chegue ao Paraíso quando a pedra percorre o arvoredo do

encontradas em outros lugares, páginas e distantes capítulos, o vagabundo Cortázar e seu

chute na brincadeira em Cortázar, a amarelinha que se joga involuntariamente ao abrir de

jogo, essa busca por uma normalidade imposta nas rodas dos clubes intelectuais, a forma,

os poros e olhos no que se chama de vida. Pois é necessário que se discuta essa aparição,

o conteúdo obrigatório de se tentar ser alguém nos fugiu por tempos e tempos, a salvação

sejam grupos ou pensamentos e ações, ideias, palavras ou forças, independente da nefasta

só atingida quando vimos as pedras lançadas, resvalando em linhas de giz coloração telha,

forma residir desde os primórdios em nosso meio. Quando se enxerga esta profusão, não

no círculo desenhado representando o maldito fim de jornada, a amarelinha, (uma sombra

mais possível é apenas pensar, que a tecnologia iluminou ao acaso o monstro que já estava

dentro de meus globos oculares). Sim meu amigo Hercleto, meus erros me assombraram

lá. Racismo, misoginia e eugenia são palavras reais, assim como agressões, Frankenstein

por anos, um rastro de silêncio descabido (boxer dos mil infernos), com residência cativa

em planos de consciência física, existencialismo da lógica deturpada, que em proporções

em minha alma, matou-me aos poucos com uma sombra maldita sem existência, e nesses

largas demais, causam estragos. É preciso pegar a pedra e jogar de novo pelos números.

tempos todos a única coisa que eu conseguia ouvir, eram as vozes de Horácio e Maga, os

dois como duas entidades separadas, buscando paraísos desiguais, vidas inexatas,
encontrando-se apenas nas paralelas e ruas com nomes decorados, os clubes e suas não
respostas, os intelectos mudos, maldito Cortázar e sua amarelinha. A esperança em saber que

a vida continua de uma maneira ou de outra, o nascer do teu perdão que um dia talvez
mereça, e, quem sabe o tenha. Sempre como o jogo. Porém, as únicas palavras que eu
conseguia proferir antes do apagar das luzes eram, maldito Julio Cortázar, maldito Cortázar,

maldito Julio.

Cortázar.

 

Parte I
Parte II

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