Impressões do 1º dia do Festival Abril Pro Rock 2014

por - 11:08

apr2014

Durante as 22 edições do Abril Pro Rock, a história da música independente nacional e gringa mudou muito, assim como o festival. Se nos anos 90, tínhamos três dias de evento, com venda de casadinha e dia dedicado a cultura local, hoje são apenas dois, e o primeiro foi o que condensou o dia do indie com o regional. A sexta-feira do Abril Pro Rock pode ensinar muito sobre como funciona o mercado e o momento da música independente no estado e no Brasil, digo isso não apenas pelo público da noite de 2500 mil pessoas (pífio, se comparado ao dia do metal). O primeiro dia do Abril Pro Rock trouxe nomes em destaque na cena nacional e alguns outros que podem chegar lá. Além de brindar um novo momento na música da cidade e do estado. Infelizmente perdi o palco do Som da Rural, que teve começou por volta das oito e meia da noite.


Tulipa APR2014


Cheguei no show da Tulipa Ruiz, um dos nomes mais expressivos da noite e que tocou cedo por causa da sua agenda. Tulipa está uma graça e continua com uma voz impressionante, o que coloca ela como a potência feminina da música pop brasileira, mesmo com um segundo disco mais fraco que o primeiro. O show contou com a participação do Felipe Cordeiro e a execução de uma música inédita, “Virou”, feita pela cantora em parceria com o paraense. Destaque para a matadora “Víbora”, que ao vivo só melhora e deixa ainda mais a voz de Tulipa em destaque na música brasileira.


Bárbara Eugênia APR2014


Nem cinco minutos depois, no palco do lado, começou o show de outro nome com potencial na música popular brasileira. A carioca Bárbara Eugênia já tem dois discos na carreira, mas só agora fez o primeiro show no Recife. O seu jeito introvertido e carismático foi bem recebido pelo público que a cantora tem em comum com a Tulipa, que se juntaram com mais alguns curiosos. Na apresentação, Bárbara mesclou canções de seus dois trabalhos, dando preferência ao atual (É o Que Temos, 2013). Durante todo o show, ela exaltou a música romântica e a apresentação terminou com a versão apoteótica de “Porque Brigamos”, da cantora Diana. Do primeiro disco (Journal de Bad, 2010), as faixas "Por Aí" e "A Chave" ficaram bem bacanas. Ao fim, Bárbara prometeu voltar mais vezes.


orquestra betodélica_foto sarah falcão (APR2014)


Sem tirar, chegou a vez do combo pernambucano Orquestra Betodélica, formada por artistas em destaque na cena independente do Recife. E o show coletivo serviu para apresentar os nomes, executando músicas dos discos de cada integrante, mesmo com um som muito embolado e ruim. A apresentação deles pode ser visto de duas maneiras. Para quem conhecia os artistas, pode ter soado tudo muito básico, simples demais, sem surpresas. Para quem não conhecia e gostou, provavelmente vai se impressionar ainda mais, caso corra atrás dos discos ou das apresentações solos de nomes como Graxa, Aninha Martins, Juvenil Silva e cia. Eu esperava mais versões, coisas diferentes, mas este foi apenas o primeiro show, quem sabe o que virá mais na frente. Destaques para Hugo Coutinho tocando "Casinha", a versão de "Molho", música que dá nome ao disco de Angelo Souza (o Graxa), que foi o melhor disco pernambucano de 2013, deixa claro quão bem ele sintetiza esta nova cena.


sebadoh_foto sarah falcão (5)


Veio então a atração gringa da noite, segundo Paulo André em entrevista aqui, a aposta internacional da sexta-feira. Apostar no Sebadoh é ganhar tranquilamente, isto porque o trio americano liderado por Lou Barlow (Dinossaur Jr) sabe muito bem o que fazer no palco. Não sei se pela distância do público ou o palco grande, as pessoas que acompanhavam o show se dividiam entre fãs, interessados e pessoas que não entendiam nada. Porém, isso não tirou o brilho da apresentação barulhenta, com uma entrega bacana do grupo e um repertório bem construído, passando pelos quase 30 anos de história da banda (destaque para “I Will”, “Skull” e "Beauty Of The Ride"). Pra mim, o melhor show da noite, uma aulinha rápida de como fazer rock simples e sem frescuras.


JohnnyHooker APR2014


Tivemos então o contraponto, o show menos interessante da noite. Johnny Hooker tem uma produção bem bacana, uma banda incrível, mas com musicas de letras fracas, um vocal pouco eficiente e performático. Johnny evoluiu muito dos tempos de Microfonia, porém se naquela época ele copiava vergonhosamente vocais de bandas de hard rock farofa, agora ele se dedica a copiar Ney Matogrosso, com algumas pitadinhas de Cazuza. Não dá para negar que ele tem público (que provavelmente curte tais artistas copiados), tem presença de palco, com certeza é um artista, mas ainda precisa se achar dentro de sua carreira.


Felipe Cordeiro APR2014


Felipe Cordeiro talvez possa ajudar o Johnny em como aprender a usar suas influências de maneira positiva. Felipe é paraense e com ele carrega toda a rica cultura musical do norte do Brasil. No show ele passa da guitarrada para o carimbo com maestria e naturalidade, no meio do caminho temos lambada, kaoma, tecnobrega. O camarada conseguiu colocar todo mundo para balançar o esqueleto, com um bom humor incrível e uma ótima banda. O show teve inicio com uma versão de “Tarja Preta”, parceria do músico com Arnaldo Antunes e teve uma homenagem especial a Alípio Martins, segundo Felipe, a sua referência de rock.


Autoramas e Renato APR2014


A surpresa da noite para mim foi o show do Autoramas com o Renato Barros. Sim, eu sei, Autoramas está no rock há pelo menos 10 anos. Já o Renato, com os seus Blue Caps faz um som autoral bacana desde os anos sessenta.  Porém, não sabia que soaria tão positivo a parceria entre os cariocas, mesmo estando bem clara as influências de Renato em Gabriel Thomaz. O show teve canções do novo trabalho do Autoramas e clássicos da jovem guarda que embalou o público que resistia no Chevrolet Hall as três da manhã, com hits como “Meu Bem não quer”, “Menina Linda”, “Primeira Lágrima”, entre outras. O Autoramas deveria pensar em repetir esta parceria outras vezes, pois foi realmente uma noite bem especial.


Já passavam das três e quarenta da manhã do sábado quando começou o tributo ao Reginaldo Rossi, com diversos artistas interpretando o rei, com a sua banda de apoio. Se você teve saúde para acompanhar os sucessos do rei do brega, parabéns, você é guerreiro e provavelmente jovem! Eu realmente não consegui, depois de mais de cinco horas de shows diretos. Considerei bem bacana a iniciativa do Abril Pro Rock, a homenagem foi válida!


Fotos retiradas do FLICKR da Agência Pavio, por Marcos Hemes. Exceto as fotos de Orquestra Betodélica, Sebadoh e Felipe Cordeiro, feitas por Sarah FalcãoAo longo da semana, mais vídeos do Abril Pro Rock aparecerão no canal do Hominis Canidae no Youtube.

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6 comentários

  1. Cara, essa foi a melhor resenha da sexta-feira que já li!
    A maioria simplesmente nem citou o showzaço do Sebadoh! Isso inclui G1, Jornal do Commercio, entre outros...

    Parabéns!

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  2. "Apostar no Sebadoh é ganhar tranquilamente, isto porque o trio americano liderado por Lou Barlow (Dinossaur Jr) sabe muito bem o que fazer no palco. Não sei se pela distância do público ou o palco grande, as pessoas que acompanhavam o show se dividiam entre fãs, interessados e pessoas que não entendiam nada."

    Isso é meio confuso, não acha? Tem uma distância entre "ganhar tranquilamente" e esse resultado. Porém... "1- fãs, 2-interessados, 3- desinteressados'. Todo show já não, normalmente, assim? :)

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  3. Po, qualificar um show pela reacao do publico é nivel jurado de festival de bandas de escola. Quesito: animaçao. nota: 5.

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  4. Na real Bruno, falei isso por que a banda foi do carajo, mas no público, tinha gente NA FRENTE DO PALCO, conversando e tomando cerveja, de costas para o show. Sem entender nada e ainda perguntando 20 vezes o nome da banda e dizendo que lou barlow não tem humor, etc.

    Não vi ninguém na frente do palco falando mal de mais ninguém no dia. De longe eu vi sim.

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  5. A resposta do Bruno vale pra voce também.

    AE

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  6. Mas nao era sobre a resenha o meu comentario.

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