"O recalque e a licença poética"

por - 15:07

freud


Freud em outros tempos postulou que o recalque nada mais é do que a defesa que o ego encontra para tudo aquilo que não é compatível com o eu, sendo comumente atrelado à rejeição de representações, desejos ou pensamentos cujo conteúdo não é permitido ao ego e que passa por este mecanismo de defesa inconsciente. Também utilizado na engenharia civil, o recalque também é conhecido como o rebaixamento do solo sob a base do algo construído, podendo causar rachaduras e danos que podem até comprometer a estrutura desta base. Termos estes que ganharam uma espécie de mistura híbrida ao longo dos anos e que vem sendo usada pelo senso comum já a algum tempo. Atualmente, tomando até licença poética.



Quando alguém toca na ferida cultural que é a exclusão das formas de expressão cultural urbanas da atualidade, o negócio parece mudar de figura. Qualquer coisa dita sob batuques digitais sampleados e repetitivos se torna incorreta, incongruente e nocivo aos ouvidos das criancinhas. Porque nessas horas, todo mundo pensa nas criancinhas. E incentivam que a produção cultural se mantenha elitizada e dona daquela que preferem ter como verdade absoluta, se tratando do que pode ou não ser levado como portador de conteúdos mais subjetivos e passiveis de uma analise maior. Afinal de contas, o dono dos meios de produção sempre tem algo a dizer, cabe apenas aos ditos semelhantes que busquem compreender o que este tenta expressar em suas músicas.



Se tratando da realidade de um povo que se divide entre fingir que está na Noruega e viver o Brasil em sua totalidade, percebo a preocupação da primeira metade em desqualificar aqueles que já não são tão ouvidos assim (ou que são ouvidos até demais em caixas de som e celulares de alguns mais exaltados). Figuras de identificação social de uma parcela da sociedade não são e nem devem ser imunes a critica, diga-se de passagem, apenas devemos tomar cuidado com aquilo que criticamos, para que não deixemos por fazer do debate uma rinha de pessoalidades. E aí chegamos ao ponto que queria. Considerando a realidade encontrada, um professor decide utilizar-se sabiamente da figura de referência dos alunos e citar em sua prova uma frase de Valesca Popozuda.



Este foi retaliado, claro. Principalmente pela forma ao qual o professor se referiu à mesma. “Grande pensadora”, para muitos, não é o melhor termo a ser utilizado para qualifica-la. E qual seria então, perguntaria aos que discordam do título. “Vagabunda”? “Funkeira”? “Siliconada”? Me faz questionar se ao me questionar sobre qualquer uma dessas questões, ou até de outras tantas, não me tornaria um grande pensador. Até porque, qualquer um que pense, por título, é um pensador. Medir tamanho de pensamento é algo um tanto subjetivo, mas subjetividades a parte, é absolutamente válido quebrar os paradigmas do erudito e do dito intelectual, uma vez que sem esta barreira em frente, qualquer um se sente mais estimulado a buscar de forma integral o conhecimento.



E o recalque no fim das contas não se distanciam tanto de ambas as definições citadas anteriormente. Alguém está tentando se defender daquilo que teme de alguma forma. A rachadura aqui claramente está relacionada a estrutura educacional e a formação de alunos que pensam de forma diferente, considerando que as escolas precisam se adaptar aos alunos e não o inverso. Poxa vida, tanta gente reclama que a educação é ruim no Brasil e quando tentam fazer diferente, olha o que acontece. Independente do objetivo da questão na prova, o fato de um professor tentar adaptar o modo com o qual seu conteúdo é passado já é louvável. Espero apenas que mais professores tomem a licença poética da grande pensadora e também pratiquem a variedade na intenção de buscar uma melhor dinâmica de ensino em suas aulas.


valesca

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