Três perguntas e um vídeo novo da banda Rua

por - 11:06

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A banda pernambucana Rua se prepara para lançar seu segundo disco, previsto para maio. O trabalho, chamado de Limbo, além da parte sonora, será composto por uma série de vídeos intitulada “Sobre o Limbo”, com sete registros visuais de sete músicas do álbum, com direção de Raphael Malta e fotografia de Flora Pimental, Breno César e Rodrigo Barros. Um trabalho feito com esmero e que teve o primeiro vídeo da série lançado na última segunda. Os outros serão liberados em junho no site da banda.


Aproveitamos a oportunidade para bater um papo rápido com a banda sobre os vídeos e o novo disco que esta por vir. Leia a entrevista abaixo.


O formato de vídeo ficou famoso pelos clipes e pela MTV. Na mesma emissora, o clipe foi condenado como ultrapassado. Pergunto pra vocês por que lançar a nova música neste formato de vídeo? E vai ser uma serie de vídeos com músicas do disco limbo, né isso?


Estamos há três anos compondo o Limbo e a nossa atividade "interdisciplinar" é intensa. Desde o inicio da banda, por exemplo, a Rua já compôs diversas trilhas sonoras para filmes e espetáculos de dança. Atravessar outras formas de expressão artísticas influenciam completamente a música que realizamos, dissolvendo preconceitos, reformulando a nossa ideia da música. Portanto, o Limbo carrega intimamente em cada som o anseio de propor ao ouvinte-espectador experimentar o corpo enquanto afeto em movimento, a partir do pensamento minimalista utilizamos a polifonia, polimetria, poliritmia, longas melodias para tentar alcançar essa "dança íntima". Sendo assim, curiosamente, acredito que é um disco para dançar, intimamente, perscrutar afetos. Então, realizar um vídeo ao público com uma música nova é continuar alargando as fronteiras, aproximando a relação entre a música que fazemos, o olhar do videasta e a linguagem audiovisual. Creio que isso nos ajuda a compreender como os outros escutam a música. E, sobretudo, é uma forma de entender a música que fazemos e ainda de re-compor a nossa música através de outros espaços. Decidimos aproveitar o tempo em Estúdio e fazer isso com seis músicas do Limbo.


A sonoridade e as letras do Limbo parecem mais carregadas que as Do Absurdo, estou certo? Engraçado que sempre achei o absurdo mais pesado que o Limbo. Mesmo o Limbo sendo mais dançante. É por aí?


Limbo é um desdobramento Do Absurdo, não uma revolução. No Limbo, nos deparamos com a afirmação de uma forma de compor enquanto coletivo, é como se reconhecêssemos um estilo. Ampliamos a textura sonora sobre a intenção minimalista, trabalhamos a ideia do fantasma, inclusive, gravando com duas baterias, dois baixos, 4 vozes. Se em Do Absurdo a música se faz sobre o vazio e o Sísifo é visto descendo a montanha, no L" é como se caminhássemos submersos, até já ouvimos de um amigo que escutar o Limbo é como mergulhar de cabeça num açude sujo de sensações derretidas. Bruno Giorgi quando escreve sobre o processo de mixagem e masterização nos diz: "Optamos por experimentar o som como matéria áspera em alguns momentos, lisa em outros, macia ou dura... Preferimos partir para o entendimento do som como volume no espaço sensorial, tentando fugir da música dependente da passagem de um tempo determinado. A audição não precisa ser contemplativa; ela pode ser imersiva e carregar pulsões. Quisemos que este tipo de sonoridade fosse acima de tudo tátil. O som como massa em movimento." Aí, quando se diz um disco mais dançante talvez seja por isso, pela forma como lidamos com a gravidade durante o Limbo.


No Do Absurdo era importante o ouvir (segundo entrevista dada a revista MI #3). No Limbo, pelo que entendo, o importante é o movimento. A música do vídeo é bem diferente dos tempos de Absurdo (com pouco minimalismo), este é o caminho do Limbo?


Escutar é movimento, movimento sobre o sensível. O minimalismo parece se fazer na repetição que desloca o sentido, é como se a cada repetição o sentido fosse, paradoxalmente, se dissolvendo para se refazer. Aqui penso em Steve Reich. É como se a repetição desvelasse o caótico segredo da forma. Até porque talvez seja impossível repetir qualquer coisa, o tempo pode não ter ponto. Por isso que em Do Absurdo nos voltamos para essa música a partir do mínimo, para tentar nos escutar, ali no silêncio entre quatro instrumentistas. Porém, costumo dizer que não somos, mas estamos minimalistas. O minimalismo aconteceu como uma tática para voltar à escuta, rever modelos de composição e realizar uma música que se aproximasse da nossa subjetividade.


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