A cidade, o bêbado e a poesia

por - 11:08

capacidade


Dia desses, eu sentado num banco de bar no centro, escrevendo poesia – o típico cenário romancesco barato – e passa um tropeço de gente na porta: a barba-cabelo confusa num tornado de fios, o paletó perdido meio século atrás no tempo e um cigarro de palha infinito cambaleando mais que as pernas tortas. Demorei algumas cervejas pra entender se ele olhava para mim – ou para a cerveja. Descobri que não era nenhum dos dois. O caderno – um pouco sujo de suor – tomava sol sobre a mesa, as palavras de poesia mal-borradas no meio tempo. O sol da tarde fazia sombra naquele homem como se ele fosse um andarilho e um santo, e os cansados trabalhadores ocupados do balcão o deixaram se sentar ao meu lado. “É uns poemas que cê ta escreveno, né muleque?” Ele disse enquanto roubava educadamente a minha cerveja – ou foi o que acho que ouvi. Ia responder que mais ou menos, era projeto de poesia, mas ele se adiantou e respondeu por mim.


“É sim, tô vendo que é. Fica escrevendo palavra mas nem termina de completar a linha. Pula pra outra ó, e nem acabou a de cima. Pega palavra igual, junta onde não era pra juntar, deixa vazio onde tinha um monte de coisa ainda pra falar.” Acabou a minha cerveja e bateu o copo decidido na mesinha engordurada. De vez em quando, o bêbado rimava e nem percebia. Eu ia avisar, mas ele mandava mais bronca por cima de bronca. O povo do bar ria, de dó de mim, de dó do bêbado. Mas eu prestava atenção, alucinado. O que ele falava fazia um sentido, estranho. Já tinha sentido aquilo várias vezes na vida. Aquela prima distante da sua avó que de repente mandava um provérbio que não existia mas era a mais sincera e funcional pílula de sabedoria popular jamais encontrada. E enquanto o sol ia descendo e o céu ia avermelhando, um vento frio passou na espinha do bêbado e ele falou uma frase com uma voz diferente, como se tivesse virado veiculo de entidade, um tom grave, o cigarro quase sumindo da sua voz: “Poesia é um negócio bonito, eu não nego. Mas ela não pertence a esse mundo do jeito que é não, jovem. Poesia é coisa pra quando as pessoas se entendem. Pra quando dá pra falar o começo da frase e o outro entender o final. Aqui a gente pode falar o livro inteiro e não entendem uma palavra". Eu quase não saquei o que ele dizia. A voz vinha grossa, falida, com uns calos incompreensíveis no meio. Mas eu peguei a ideia geral. E era uma dessas pílulas sinceras de sabedoria popular finalmente encontrada. E doía mais que murro no maxilar.


A cidade não tá sempre pronta pra poesia. E não é só o bar do centro, o muro da esquina e a loja de departamentos, não. Esses poemas do caderninho batem na quina do asfalto, e a dureza do mundo absorve. Entra por dentro do esgoto e ninguém mais vê. E não é que não exista amor em SP ou em BH. É que a gente tem que aprender a converter o amor da gente em algo que possa ser recebido. Senão somos todos "cães caducos latindo para os trens". Se a gente quer ver a vida rimar, talvez o primeiro passo seja rimar do jeito dela. Depois é que a gente toma as rédeas. Talvez seja necessário preencher todo o espaço das linhas antes de ir para o próximo verso. E enquanto o fria crescia, a cerveja acabava e o bar terminava o expediente, o bêbado-santo fugiu da mesma forma que veio: tropeçado nos pés, escondido no mundo. Feito a poesia que escorria pelo chão – e mesmo sem saber, aquele mendigo sabia rimar. Ali eu saquei, enquanto eu tomava o ônibus antes da noite cair direito, que a poesia não tá na rima nem na forma; a beleza fica no contato, no acesso. E assim, aquele homem perdido era muito mais poeta que eu.



48268_Papel-de-Parede-Bueiro_1440x900
Depois disso, eu aprendi a fazer outro tipo de poesia. Não larguei do caderninho, de forma alguma. Eu ainda escrevo nele de noite, antes de dormir, como uma lembrança do que a cidade ainda pode se tornar um dia. O que mudou é que eu aprendi como acertar ela – a cidade - bem na mosca, ainda hoje. A poesia mais real é aquela da qual a gente faz parte.

Você também pode gostar

0 comentários