Um Olhar Paulistano Sobre a Cena Underground de Recife

por - 14:09

Eu Declaro Meu Inimigo2

De ressaca, caminhando pelas calçadas do Itaim com um solzão na cabeça logo de manhã, vi a procissão de SUV’s a caminho do trabalho. Ao mesmo tempo, ouvia nos fones a agressão sonora recifense de Eu o Declaro Meu Inimigo: “sou uma puta que nunca vai te beijar, pôr de joelhos nunca fez amar”. Estava começando a me familiarizar com esse som mais pesado e agressivo, justamente pela sensação de auto-suficiência que estas letras transmitem.


Na mesma semana, consegui comprar passagens pra passar a páscoa em Recife, porém, sete dias antes do Abril Pro Rock, o tradicional festival pernambucano que colocou em evidência uma pá de bandas independentes, como Mundo Livre S.A. e Chico Science & Nação Zumbi. O respeito do APR é tanto que me lembro de ter ouvido umas três vezes o comentário “tu devia ter vindo no Abril Pro Rock!” de Diego, do Hominis Canidae, que me recebeu pra um rolê em sua cidade.


O festival aconteceu nos dias 25 e 26 do mês passado, em Olinda, e seguiu a tradição de dedicar um dia à música extrema. No sábado, 26, rolou Mukeka Di Rato e Olho Seco, além dos gringos Conquest for Death, Kataklysm e Obituary. Dizem as más línguas que teve até vinho grátis. Mas, como ainda estou molhando a nuca nestas águas, não me importo de esperar até o ano que vem para aproveitar “o maior festival pequeno do Brasil”. Enquanto isso, vou entrando em shows menores mas não menos empolgantes.


Espaço pro SHOW


Um poste, um celtinha e um pé-de-árvore


Na beira de um córrego, numa rua mal iluminada do bairro da Madalena, havia uma casa sem luz, com terreno grande, uma árvore frondosa no quintal, um portão enferrujado e a promessa de apresentar ali, no chão, os paulistanos do O Cúmplice, a Uruguaia Antibanda e a destruidora Cachorro da Duença, direto do agreste de Caruaru. Na frente do terreno, um celta prata estacionado embaixo de um poste. "Estamos tentando fazer a luz voltar" disse outro Diego, vocalista da Eu o Declaro Meu Inimigo e organizador do show.


Além dos shows de sua banda, Diego organiza outros eventos para manter viva a cena autogerida. Ainda no escuro, comprei um litro de cerveja artesanal sem rótulo por dez reais. Reparei no quintal, na árvore gigante que fazia mais sombra e num carro com os pneus furados que servia de apoio para dois refletores que fariam toda a diferença na iluminação assim que a energia chegasse.


O evento teve algumas horinhas de atraso, o que me obrigou a tomar a cerveja amarga e fumar minha última cigarrilha pra esperar a luz voltar. Na porta, punks se reuniam ansiosos para o pogo. Ao primeiro ruído de microfonia, eu soube que o show estava começando. Comecei a batucar furiosamente os indicadores nas pernas e entrei, para derreter as vistas nos refletores coloridos por trás da desgraça sonora do Cachorro da Duença.


Comprei um bolo de chocolate com ervas pra adocicar a boca e a brisa continuou intensa com o som e as projeções de uma animação maluca, que eu fui descobrir mais tarde que se tratava do longa francês La Planète Sauvage (Planeta Fantástico, em português).


Aquele turbilhão de referências explodiu na minha cabeça a ponto de eu não conseguir esboçar perguntas para fechar minha pauta. Voltei pro apê martelando nisso. Depois, troquei uma ideia esclarecedora com o vocal do Eu o Declaro Meu Inimigo sobre a cena de Recife, Abril Pro Rock e o conceito de autogestão, que até então, era uma palavra nova no meu vocabulário.


Eu Declaro Meu Inimigo


E aí, deu tudo certo com o show?


Diego: deu sim, tudo certo. Mais do que esperávamos! Deu pra ajudar as bandas e tirar todo o custo do show!


Boa! Parabéns! E a Antibanda do Uruguai, entrou de última hora?


Então, eles iam tocar em outro evento no mesmo dia que foi proibido pela prefeitura. Aí colocamos a galera pra tocar para não ficarem sem tocar no Recife.


O que rolou pra proibirem?


Cara, eu não sei muito bem, mas o bicho ia fazer num local aberto e pediu permissão a prefeitura. Isso sempre rola, mas dessas vez eles ligaram dois dias antes dizendo que ele não poderia fazer o show lá e não explicaram muito bem o porquê.


Saquei. Então, eu queria saber sobre a cena. Tem muita banda regional? Muito show?


Recife, assim como a maioria das capitais do nordeste, tem muita banda. Muitas mesmo. O problema da gente, do Recife, em fazer shows é por falta de espaço mesmo. Poucos espaços aceitam as propostas de nossos shows, mesmo a gente se comprometendo a pagar o aluguel, que geralmente já é bem caro. Há uns dois anos passamos a pegar uns instrumentos emprestados e fazer shows aberto com contribuição voluntária. Tava rolando até legal, mas ai apareceu à oportunidade de fazer os roles naquele espaço do show d'o Cúmplice e vamos passar a fazer lá!


Eu achei aquele espaço bem massa, melhor que muita casa underground daqui. A vizinhança não implicou?


Tiveram algumas denuncias por conta do barulho! A policia bateu lá no final (que já é uma coisa um pouco comum), mas a gente conseguiu contornar e eles foram embora sem levar nada do som e sem acabar O Cúmplice.


Outra coisa sobre a cena. Em SP, a maioria dos festivais de rock grandes, de se ver outdoor e propaganda, são pra uma galera mais ligada em rock alternativinho, que eu acho meio sem sal. Me surpreendeu o Abril Pro Rock ter a mesma qualidade de divulgação na cidade e ter um line up mais pesado, que mantém a tradição. O público daí é fiel mesmo ao crossover e ao metal ou existem outras cenas mais alternativas que também são fortes?


Então, aqui em Recife, e isso se repete no interior de PE e de certa forma no nordeste todo, a cena metal em geral é mais forte. Os ingressos são mais caros, o público é maior e mais presente e, querendo ou não, o fato de que o som é mais aceito pelos festivais de maior porte da cidade, ajudam também!


Saquei. Onde você costuma tocar com o Eu o Declaro Meu Inimigo?


Aqui em Recife é muito comum os lugares se tornarem em pouco espaço de tempo muito frequentados e depois isso passa acontecer com outros locais. É um lance meio cíclico, mas que, por conta da pouca quantidade de locais, acaba voltando sempre pros mesmos lugares. Basicamente tocamos em eventos feitos nas periferias de Recife e algumas cidades da região metropolitana e no centro histórico do Recife. Aquele outro local é um pouco distante disso tudo, acho q por conta disso se torna mais interessante.



Sim, aquele pico é realmente diferente do que eu tô acostumado a frequentar. Em SP nem tem terrenos tão grandes, pra começar (risos). Mas vocês nunca foram pra outros estados?


Sim. É bem comum tocar em João Pessoa e Natal. No final do ano passado a gente fez um rolê pequeno pelo nordeste tocando em São Luís, Teresina, Mossoró e Fortaleza.


Foda. Eu prezo muito pelo nordeste e pela cena nordestina. Uma coisa que eu ouvi pela primeira vez nesse show foi autogestão, que inclusive é o nome de uma música do Cachorro da Duença. O que é isso?


Basicamente é tomar pra si tudo que se refere a prática ou espaço que você pretende ter. Desde atividades básicas como cobrança de ingresso e limpeza dos banheiros a reforma da estrutura e manutenção do espaço. É ter nas mãos todas as decisões a serem tomadas para que as coisas não caminhem em direção e nem dependam de coisas que acreditamos que não deveriam existir como a relação de empregado, machismo e as mazelas do estado.


Entendi. E isso é um conceito moderno ou só eu não conhecia?


Cara isso vem das praticas libertárias/anarquistas. Pra mim, e acho até que pra maioria das pessoas que se envolvem na cena hardcore e punk, veio como uma coisa natural. Aqui a estrutura é muito fraca e a maiorias dos eventos só funcionavam se nós fizéssemos tudo!


Então é uma influência do meio? De certa forma, aqui em São Paulo o hardcore e o punk tem uma escola formada, então algumas bandas novas acabam repetindo conceitos, ao invés de aperfeiçoá-los...


Acho que o que rolou aqui em Recife é que existiu uma cena relativamente forte (na época do Câmbio Negro HC até o Realidade Encoberta, eu acho) e depois as coisas que acredito que foram e são relevante começaram a rolar nas periferias e bairros. Acho que o que rola muito aqui é o encontro entre algumas dessas pessoas que até então faziam as mesmas coisas, da mesma forma e ainda não se conheciam. Acho que o lance de estar caminhando desse modo aqui é muito por causa desse compartilhamento de ideias e experiências. Naquele espaço, por exemplo, foram cerca de 20 pessoas envolvidas para que aquele show rolasse. Cada uma responsável por algumas coisas específicas. Som, cotação de preço de bebidas, rango, som, hospedagem das bandas, limpeza do espaço e etc...


Isso é muito legal


É sim. E o mais massa é que envolveu uma galera que colou junto e individualmente e sem ser convidada pra fazer o lance rolar e no final se tornaram muito responsáveis de como tudo rolou!


Texto por Lucas Panoni

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