Carta Aberta à Polly (Parte I)

por - 11:06

11/9 - EUA


Apaixonar-se...


Talvez a consciência seja apenas uma memória que se esvai após o bocejo, no pós-almoço, aquele que sem ao menos avisar perpetua ínfimos resíduos de sono por entre as sinapses, aquelas adormecidas pelo cotidiano, que nem ao menos se percebem envolvidas por tamanhos movimentos dos músculos Bucinador e Masseter. A consciência nada mais é que um enorme, e, em desalento bocejo, algo como uma formação ficcional de catástrofe, coisa que jamais seria atingível, a não ser nos mais loucos roteiros de cinema. Consciência, cons, ciência, sciência, com, ciên, sem, com, nada além de letras, estarrecidas letras que nem ao menos significam objeto concreto. Mas ela sempre existiu, e, apenas para que possa dar um exemplo, seu formato físico, original e quase sacro sempre residiu nas ideias de meu pai. O senhor que agora aportava aos quase setenta anos, encaracoles nos restos de cabelo cinza a cobrir dois terços de sua cabeça retangular, aquele senhor de mãos semicurtas e passos cândidos, como se pedisse licença ao acaso do destino para poder transpassar a artéria aberta no calçamento, sempre fora um fosso de consciência humana em sua mais pura definição ortoanatomofisiológica, ainda mais quando educava seus três filhos, sendo eu, Douglas Petraus, o primogênito. Entretanto, nada do que meu velho ensinou serviu-me por orvalho pueril de honestidade, quando entendi uma vez por todas, que consciência de nada adianta se dentro da ortográfica equação vital, estiver disposta na posição de invariável xis, a palavra impunidade. Não existe a possibilidade remota de permanecerem dentro dos mesmos significados psicológicos ou metafísicos morais essas duas palavras, não pelo menos dentro dos meus limites morais. Impunidade e consciência são tão heterogenias quanto óleo e água. Nunca se misturaram dentro de minha alma, jamais permaneceram dentro do mesmo quarto escuro, latejando sexo normativo dentro de meu ser. Isto meu pai nunca conseguiu ensinar me, por mais que se esforçasse. Mas era-se de esperar que a condição jamais fosse derrubada, tendo em vista a evolução de minha vida. Aos sete anos de idade a escola era apenas um lugar de descanso, onde as matérias não ensinavam quase nada, visto que dentro de nossa casa e seu sistema patriarcal, nos era forçado faringe abaixo, diariamente, o escorrer clichês acadêmicos por horas e horas. Porém, minha maior diversão sempre fora recolher animais perdidos dentro de nossa vizinhança suburbana norte americana, daquelas onde as casas posam como senhorios escravocratas, com uma área de metragem muito maior do que o necessário, e após o resgate animal, colocá-los em um caixa de papelão bem ventilada, oxigênio corrente sempre fora necessário para que as chamas se alastrassem dentro do recipiente, assim como sempre, também existia obrigatoriedade em deixar no ar a sensação de que os bichos queimariam vivos, porém criando belas imagens através dos caleidoscópicos buracos no papelão. O que mais fascinava-me eram suas feições, invariavelmente agradecidas quando candidamente colocava-os dentro das caixas, os olhos marejados e de uma nuance quase humana, bichos que tinham na alma o acalento de uma mão amiga, retirando-os das condições absurdas e humilhantes. Em suas faces a gratidão era latente. Isso os deixava mais confusos quando as chamas dançavam por entre a epiderme ainda úmida do álcool ou querosene. O milésimo de segundo, quando dentro de seus olhos a felicidade da esperança transformada era em desespero, para mim sempre foi uma sensação sexual melhor que um boquete feito com perfeição, daqueles que você sente o gorjear da faringe em sua glande. Olhar o medo nascer, florescer dentro de uma tulipa celular com cores avermelhadas por entre os pelos, a pele e as faces eram poesia. Sempre amei suas feições, meus deuses de cera que desfaziam-se, sensações concretas de amor e paranoia. Os amava enquanto queimavam.


Este fora meu alicerce durante a vida, por isso é que hoje lhe escrevo Polly, para que você entenda, antes de tudo, que eu te amo de uma maneira que jamais amei nenhum daqueles animais incinerados, de uma forma tão bela, que mesmo agora sobre seus ossos e dentes retirados da sua arcada dentária, tenho em meu corpo a mesma paixão que sempre tive por você, desde a primeira vez que coloquei meus olhos em teu muçulmano corpo, desde o primeiro choque em sua uretra ou das noites que lhe observava pelas câmeras escondidas de segurança velando a sua privação de sono. Sempre te amei com muito mais força que a mim mesmo, com a febre dos sifilíticos, Polly, sempre foi você o motivo de tudo, da minha agonia e meu gozo, minha fantasia e porque não dizer, o maior motivo para minha alma para ainda acreditar no amor. O porquê primordial dessa minha carta, assim como do dossiê com seis mil páginas e quatrocentas e setenta e cinco notas de rodapé, é homenagear nosso amor.


Escolhi chamar-te assim, pois nada mais apropriado do que usar o nome da canção escrita por Kurt Cobain. Figura conhecida dentro dos corredores da agência, como tantos outros. Lennon, King, Panteras Negras, Wheaterman ou The Weather Underground, assim como você, meu eterno amado. Tua sofreguidão erótica, teus gemidos dolorosos sempre me arrepiavam a nuca, por isso resolvi te agraciar com o nome da canção que mais gostavas. Sei do hercúleo esforço para que enfim seu perdão possa florescer por entre o rancor, e saibas, não espero nada diferente, tua força existe mesmo você morto em corpo, contudo, lá no fundo dos teus resíduos, lutarás para perdoar-me. Não tenho pressa para que isso aconteça, quero apenas lhe contar sobre tudo, pois em nosso amor não cabem segredos, nem oniquinas repousando em leitos ungueais.



Os tempos onde nos conhecemos foram a Era de Ouro das agências governamentais, pois depois de algumas tentativas frustradas, a paranoia americana finalmente fora posta como doutrina do Estado, algo sempre sonhado por todos os funcionários. Desde as remotas tentativas de controle da população através das intervenções soberanas em terras estrangeiras usando nossos militares, até a contra propaganda contra os comunistas nos anos cinquenta e sessenta. Nem nos tempos do Vietnam tínhamos alcançado tanto sucesso em manipular a opinião pública como fizemos na época onde nos apaixonamos.


É preciso lembrar que quando comecei meus préstimos à CIA e FBI, era apenas um garoto iniciando a vida prática do trabalho, contudo no departamento de maior prestígio dentro da Corporação, a Operação Assassinos Monetários, efetivo método nas décadas de sessenta, setenta, oitenta e noventa. O capitalismo exigia demanda por apenas vencedores, nossa América sempre fora o maior deles, nada mais justo que o governo usasse armas providentes de nosso sistema financeiro, para perpetuar a demanda dos nossos dólares em países opositores do capitalismo, ou àqueles que quiçá quisessem instalar governos que realmente atendessem as demandas da população, e não dos nossos conglomerados empresariais. Ofertas irrecusáveis aos governantes sedentos por poder monetário. Lembre-se sempre amado Polly, consciência e moral nunca andam juntas, e eu estava repleto em genética americana, bombardeando nossos mais caros valores em países subdesenvolvidos, a imposição, soberba e morte. Eu, o semideus do capital não era isento de reveses, como por exemplo, os governos na Venezuela, Bolívia ou Chile. Primeiros onde as negociações fracassaram, pois os presidentes realmente queriam fazer alguma coisa pelo povo que os elegeu. Seus assassinatos tornaram-se então inevitáveis. Lembro que Allende causou-me certa comoção, porém passageira. Esse sentimento pelos latinos americanos era bem parecido com o que sentia quando tocava sua pele com os fios em brasa, ou cortei seu dedo indicador. Você consegue lembrar-se Polly? Como me olhou e imediatamente me arrepiei? Que derramei uma lágrima e te beijei ao rebater a navalha na sua articulação? Lembra meu eterno amor, como foi lindo esse dia?


Este misto de excitação e vontade em mutilar, era recorrente nos tempos onde eu, já com um bom nome dentro da CIA, participei da Operação Condor. Golpes militares dentro de países que perigosamente poderiam tornar-se comunistas, sempre facilitados pelas mãos de nosso governo. Os militares no continente venderiam suas mães para que nossas empresas estuprassem sem piedade as terras de seus antigos índios. O prometido milagre capitalista dessas décadas foi construído por pessoas como eu, trabalhadores que rezam antes das refeições e hasteiam nossa linda bandeira azul e vermelha estrelada em varandas amadeiradas, as mesmas com as quais você sonhava enquanto pedia por água e biscoitos. Uma época mais romântica de fato, pouco antes do Vietnam escorregar por nossas mãos, mas nada que chegasse próximo ao fervor do tempo de nosso encontro primeiro, por isso também a certeza que as brasas que lhe queimaram as órbitas deram a você uma real dimensão de como foi lindo tudo o que vivemos juntos. E pensar que tudo começou com um erro de estratégia calculado nos mínimos detalhes. A CIA e seu método de assassinatos pelo capital e controle financeiro desfrutavam de todo esplendor e glória após a derrubada do Muro de Berlim e da abertura econômica na União Soviética, tínhamos o mundo aos nossos pés, o monetarismo estava aos poucos vencendo e finalmente veríamos o neoliberalismo tomar o devido poder. Entretanto nada nos preparou para o que aconteceu no Iraque e Afeganistão.


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Uma das maneiras mais eficazes de controlar o povo de um país pobre é manter a população atrelada a qualquer tipo de violência, sendo o mais efetivo as drogas e por consequência seu combate, esse, outro de nossos programas, chamado Guerra às Drogas. Você vai se lembrar de Nancy Reagan e o bordão “Apenas Diga Não”. Foi criado dentro da agência, nada mais que uma forma de marketing viral muito antes da Internet, com o intuito de disseminar nossas táticas inteligentes e legítimas quanto ao assunto. O povo escolhido pelos Deuses para dar fim a mais uma das ameaças dentro do Universo, enquanto estuprávamos os países política e financeiramente. Dentro da América Latina, as fronteiras ainda estavam sendo delimitadas e a Operação Condor revelou-se muito mais onerosa que positiva, os militares latinos americanos eram egocêntricos e pífios, porém a abertura política foi uma forma muito mais eficaz em colonizar pela segunda vez o continente, agora dessa vez com o Monetarismo, o conceito completo de nosso Capitalismo e suas fundações em dívidas e mais dívidas, em dinheiro criado do nada para pagamento de títulos de dívida que nem ao menos existiam. Uma conta bancária sempre foi muito melhor que qualquer forma de tortura inventada pela CIA. Expandir o Império sempre foi prioridade, então porque não sentirmos o calor do Oriente, nossa última fronteira contra o Comunismo, por isso o Afeganistão era nossa entrada e a política antidrogas nossa cartilha. Em dois anos o lar onde nos amamos já era dono de cem por cento da produção de ópio do país, exportando com altas taxas de lucros, drogas e seu subprodutos, armas e tecnologia com uma margem de lucro quase pornográfica. Muçulmanos escravos em plantações incontáveis de ópio e cocaína, uma típica festa americana patrocinada com o dinheiro das empresas que injetavam milhões em campanhas de candidatos. Uma linda festa onde pela primeira vez, tentaríamos uma nova forma de tratamento aos prisioneiros, fato este outro daqueles colocados pelo destino em nossos caminhos meu doce prisioneiro.


Nos anos cinquenta, auge da guerra contra o comunismo, era preciso destruir qualquer tentativa de pensamento da população no quesito mudança de regime governamental, nunca os vermelhos poderiam infiltrar amarras dentro da sociedade americana, a população deveria ser conduzida como gado para os matadouros do capital, tendo a certeza de que estariam muito mais seguros, e porque não dizer salvos da ameaça criada pela Revolução Cubana. Tudo foi feito, inclusive a criação de um falso relatório sobre técnicas de tortura utilizadas por Stalin e seu regime, com explicações técnicas sobre como, quando e qual a intensidade usada pelos militares comunistas nos interrogatórios e técnicas de tortura em prisioneiros do regime. Após vinte dias de reuniões com o alto escalão da CIA uma decisão unânime foi declarada, só seria possível verter o medo no povo americano quanto ao comunismo, se inserirmos o medo em nossos próprios agentes e em todos os militares. Além de fazerem parte da população, eles seriam a primeira linha de combate, assim sendo era preciso inventar uma história tão convincente, que nossos homens deveriam ser capazes de morrer pela luta. Nascia assim o SERE (Survival Evasion Resistance and Escape), um manual completo e validado pelos psicólogos mais brilhantes da Agência, que possuía como base o documento falso sobre metodologia de tortura comunista. As técnicas ensinadas são chamadas de engrenagem reversa, conhecidas como maneira de sobreviver aos meios de tortura dos inimigos da América. Jamais poderei não abrir um sorriso em meu rosto ao lembrar que foi por um simples documento, que consegui sentir teu corpo gélido em um úmido chão eletrocutado, por causa dele, teu corpo quente e queimado do meu lado aninhou-se e pude entender como é sentir-se amado.


Nosso treinamento foi tão bem sucedido, que recrutas e agentes conseguiram o que parecia impossível, transformaram uma falsa história em vida real, algo que nunca saberemos se existiu de verdade, em lei dentro do país. Todos repletos em paranoia, medo e força, era isso que a CIA queria, robotizados seres que respondem rapidamente e jamais entregariam nada. O que nunca ninguém contou, é que o objetivo real era implantar as técnicas de tortura como procedimento padrão dentro de nossos interrogatórios. Ensinamos os militares americanos a resistir, ao mesmo tempo em que aprendiam como realmente torturar um prisioneiro para que lhes dessem todas as informações possíveis. Os campos de ópio e os muçulmanos eram nossas perfeitas cobaias. Dois anos e meio onde me preparei para sua chegada, quando nem ao menos sabia que viria encontrar-me com aquele que acendeu-me novamente, o homem que tirou-me da desvalia da vida, a vida de crença mentirosa, a qual acreditava ser completa, mas não era, até nossos caminhos estabelecerem perímetro, nossos corpos mornos encontrarem a física perfeita por entre os dias, nossas almas irremediavelmente unidas em sangue, privação de sono e eletricidade, o amor consumindo tudo como uma onda atômica, nosso amor enfim.


Continua...

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