Constantina, o Pelicano, e os voos para novas terras

por - 11:06

[caption id="attachment_24611" align="aligncenter" width="640"]Constantina no Sofar Sounds Lisboa. Créditos: Rita Ivo Constantina no Sofar Sounds Lisboa. Créditos: Rita Ivo[/caption]

Em pouco tempo esquecemos onde estamos em meio às ambiências massivas dos primeiros quase dezoito minutos de Pelicano. Como num quadro, encontram-se referências anteriores, algumas mais escondidas, outras à mostra: os mares infinitos e azuis de Haveno e Pacífico estão lá, um pouco mais conturbados e revoltos; as batidas eletrônicas quase primitivas contribuem na construção das quatro canções que se equilibram numa média de 12 minutos cada e que se unem numa viagem sonora de 47 minutos pelo oceano. Acontece que não se trata exatamente de uma obra sucessora de Pacífico (2012) ou do single "Colorir", de 2013. As gravações que deram origem a Pelicano são do período entre 2007 e 2008, e foram trazidas das profundezas por Tidé, Bruno e Daniel.


Para nos ajudar um pouco a desatar esses nós entre passado e presente, conversaremos com o Constantina sobre o Pelicano, esse disco que me parece falar de oceanos e de viagens e sobre a última turnê que eles fizeram na Europa.


Vocês sabem dizer de onde surgiu o nome da banda? Por que Constantina?


O nome da banda surgiu através do Leonardo Nunes (irmão do Daniel e do Bruno) que tocava baixo no Constantina em seus primeiros anos de existência. Esse nome foi trazido por ele após uma viagem que fez à África do Sul. Na época estávamos em busca de um nome que fosse feminino, assim como na nossa antiga banda, e quando nos foi apresentado lembro que sua sonoridade veio como a certeza de uma boa escolha. Constantina é uma região visitada por ele na África, inclusive a foto da capa do nosso primeiro álbum faz parte desta descoberta feita pelo Leo.


Haveno é porto; Pacífico é oceano; e Pelicano... a temática marítima tem aparecido bastante nos últimos trabalhos de vocês. É algo que vocês busquem ou uma coincidência simbólica?


Constantina tem em sua essência esse diálogo com a temática, mas de uma forma natural. Seria como nos relacionamos entre indivíduos que a compõem, com a música que fazemos e a forma que temos a banda em nossas vidas. Esse movimento do mar, os fluxos e refluxos, estão presentes em tudo que é inserido no nosso ambiente enquanto banda. Somos calmos, agitados, fortes, persistentes acima de tudo. Mas, também há certo encanto pelo mar, pelas águas, por tudo que é fluido e livre. Em uma tour que fizemos pelo sul do país em 2007, o nosso amigo Peter, então baterista do duo Colorir de Floripa, nos disse que para ele todo mineiro tem um encanto com o mar, quase poético. Achamos que ele foi quem melhor resumiu essa nossa fixação, ou paixão, pelo tema!


Fiquei sabendo que Pelicano se baseia em gravações de 2007-2008, é isso mesmo? De onde veio essa vontade de voltar tantos anos atrás, pra trazer à vida esse filho que tinha ficado perdido? O que é que vocês viveram em 2014 que fez o elo com as gravações dessa época?


Isso! Todas as composições que estão no disco Pelicano foram compostas entre 2007/2008, período no qual já tínhamos esta ideia de fazer um disco conceitual com a temática do mar...assim toda a sonoridade e nomes pensados já caminhavam para este universo.


Acabamos parando o processo no meio por questões pessoais, todos se encontravam em momentos atribulados e precisando de umas férias. Com isso ficamos quase um ano de molho e quando retornamos os ensaios decidimos convidar alguns amigos para se juntar a banda. Nesta época viramos um septeto e o processo de composição foi reiniciado do zero. A ideia do disco conceitual sobre o mar continuou, mas as gravações que havíamos feito até então foram engavetadas e destas novas composições surgiu o Haveno. Com ele veio a ideia do Pacífico, um disco com versões cantadas e agora o Pelicano, que foi resgatado dos antigos arquivos.


A verdade é que sempre adoramos estas músicas e sabíamos que algum dia nós retornaríamos a elas com olhos de encantamento e um saudosismo bom, e isso acabou acontecendo agora em 2014. Não foi algo planejado na verdade. Esse elo, nem sei se poderia chamar elo, mas é algo natural nosso. Valorizamos esses refluxos/retornos e cada momento que vivemos. Fazer com que o Pelicano voasse era apenas mais um destes resgates de momentos vividos que precisavam ser compartilhados. São músicas que de alguma forma dialogam com nosso processo atual e de constante reinvenção. Pra nós seus sons soam como uma vontade de esculpir o tempo que passou, estender, repetir, (des)acelerar. Parece que anos depois, o material base de Pelicano é o tempo. Utilizamos vários mecanismos para registro e mixagem e finalização, mas hoje o que trabalhamos de fato em Pelicano é o tempo. As composições aos poucos parecem criar “eventos” que vão se “enrolando” numa experiência potencial de “desenrolar” o tempo.



Como foi o processo para pegar esses arquivos antigos? O quanto vocês modificaram essas gravações originais para a montagem do disco?


O processo foi bem difícil, mas ao mesmo tempo prazeroso. Poder escutar diversas composições completas, outras inacabadas, mas que fizeram parte de um momento de nossas vidas, nos deu uma imensa vontade de apresentar algo que somente nós tínhamos acesso. O grande responsável por esta escavação foi o Tidé (Andre Veloso). Ele garimpou vários ensaios da época e no final descobrimos material que havíamos praticamente esquecido. Coisas incríveis que acabaram se perdendo no tempo e pelos processos de amadurecimento de uma banda.


O mais difícil foi determinar o que iria fazer parte deste lançamento, pois havia imensas músicas registradas. No fim, decidimos por selecionar apenas as gravações com maior qualidade de áudio, sem alterar ou modificar muito. Tentamos preservar ao máximo a gravação original.


Apenas na segunda faixa, a “Escafandro”, é que foi adicionado um arranjo “atual”, que são algumas vozes de fundo gravadas pelo Dani. No mais, ficou tudo como era exatamente há seis anos.


Mas além destas quatro músicas muita coisa ainda existe e estamos pensando em uma maneira de quem sabe ainda lançar este material... Vamos ver!


Afinal, vocês consideram Pelicano um disco de 2014 ou de 2008?


Difícil de responder a esta pergunta (risos). Na verdade esta história toda nos lembra muito a dos Beatles com o Abbey Road que, apesar de ser o penúltimo disco a ser lançado por eles, foi o último a ser gravado.


Pelicano é um disco de 2014, porém que tem em sua essência a temporalidade. Tudo parte de um processo de amadurecimento e acredito que voltar a essas músicas após todos esses anos foi bom para entendermos melhor nosso processo e para saber também para onde iremos daqui em diante.


Agora, às viagens! Será que vocês poderiam contar um pouco mais sobre como surgiu a ideia da turnê e o Constantina na Sala?


A idéia da tour na Europa surgiu após decidirmos que não iríamos pela terceira vez consecutiva ao SXSW (EUA) por acharmos que era hora de experimentar outras terras. Após recebermos o convite para apresentar um showcase no FocusWales Festival 2014 tivemos a certeza de que viver novas experiências.


A partir daí foram imensos esforços para viabilizarmos a tour pela Europa. Como amenizar os custos de circulação de uma banda independente em um continente complexo e caro. Foi assim que fizemos a aplicação em um edital no programa Música Minas para a contemplação dos bilhetes aéreos e surgiu a criação do “Constantina na sua sala”.


Na época já vínhamos discutindo novas formas de circulação pelo Brasil e a ideia de poder tocar na casa das pessoas partiu do Bruno Nunes. Foi aí que desenvolvemos o projeto e vimos um grande potencial de troca entre banda e público. Lançamos uma campanha online, recebemos inscrições as quais tivemos a difícil tarefa de selecionar 10 casas onde nos apresentaríamos.


O processo de seleção se baseou em uma das perguntas que fizemos em um formulário que era: Por que você gostaria que o Constantina tocasse na sua casa? Tarefa difícil, pois os depoimentos eram os mais diversos, significativos e percebemos uma conexão com o público.


Selecionadas as casas, partimos para os shows antes de nossa viagem. Mais do que a ajuda financeira de nosso público através do sistema “passar o chapéu” e “pague quanto quiser pelo show”, ganhamos algo que foi extremamente recompensador, um carinho e uma energia extremamente grande das pessoas que nos afirmou o porquê fazemos isso há tantos anos. Essa energia de todos viajou em cada quilometro que fizemos por lá. “Constantina na sua sala” foi algo muito grande e que com certeza iremos continuar a perpetuar essa ideia, essa troca e esse estreitamento entre o público e a banda. Experiência parecida com o que tivemos no Sofar Sounds, em Belo Horizonte e em Lisboa.



E a viagem em si, como foi? O que mais chamou a atenção de vocês nos países em que fizeram shows?


Fazer a gestão da tour foi algo bem complicado, pois a nossa circulação por lá foi grande, passando por seis países: França, Inglaterra, Wales, Bélgica, Suíça e Portugal. A coordenação de datas, hospedagens, translados, 11 concertos pelos 31 dias que estaríamos por lá teve que ser pensada, planejada, etc.


Apesar do pouco tempo que passamos por lá, foi possível ter algumas percepções. Ainda há músicos que realizam showscases e ficam à espera do “olheiro”, do booker, alguém para lhe dar suporte. Houve shows em que partilhamos o palco com artistas que tocavam, desciam da cena, guardavam seus instrumentos e iam embora impossibilitando qualquer chance de conversar e partilhar experiências.


Já por outro lado, tivemos boas surpresas, encontros com pessoas fantásticas que apostam na música, em espaços alternativos e pensam em formação de público de forma articulada, realizando seus projetos, eventos e festivais. O próprio Focus Wales possui uma forma interessante de ocupação, organizando apresentações em igrejas, galerias de arte, pubs e praças. O festival atrai pessoas de toda parte, e tem um papel político-cultural importantíssimo para a região. As iniciativas do Club Vila Real, Dedos Biônicos, “Bodyspace apresenta” do Andre Gomes e da TOCA, também são incríveis!


A receptividade musical na Europa, como foi relacionada com a que vocês encontram aqui no Brasil?


A receptividade foi muito boa. Nossas sonoridades encontraram ouvidos abertos e dispostos a conhecer o que não conheciam antes. E tivemos conversas muito sinceras a partir disso, pessoas que durante os shows demonstravam sua sinestesia com a música e pessoas que reconheciam a qualidade do trabalho, mas sentiam a falta de algo, um tempero. Certamente, foi a falta do GA Barulhista na turnê, a pimenta dessa banda! (risos). Foi muito positivo também perceber o quanto essas conexões se mantiveram depois em rede, na internet.




[caption id="attachment_24614" align="aligncenter" width="640"]Constantina em Bruxelas - Créditos: Ana Luiza Gomes Constantina em Bruxelas - Créditos: Ana Luiza Gomes[/caption]

Nessa onda de festivais internacionais, conheceram artistas novos que tenham interessado a vocês? Alguma indicação especial? (risos)


Essencialmente nesta viagem passamos apenas por um festival em Wales. Assistimos ao concerto de um artista folk finlandês chamado Jimmy Träskelin e foi uma experiência interessante, e também conhecemos a música e voz de Jess Hall. Ela se apresentou ao lado de Noel Doak que é um multi instrumentista que “loopa” quase tudo que está no palco em tempo real. Em Wales dividimos a noite com mais duas bandas locais: The Echo & The Always, um rock super bom e o We Are Animal, banda local de destaque na cena.


Alguma anedota ou momento memorável da turnê que vocês queiram solidariamente compartilhar com a gente?


Um momento memorável foi em Londres, o segundo concerto que fizemos na tour. Lembro que chegamos no espaço onde íamos tocar e começamos a armar o equipamento. Levamos dois amps de guitarra super compactos, se chamam Lunch Box ZT. Pois bem, a primeira vista são uns brinquedinhos e por isso lembro o deboche da segunda banda da noite (nós seriamos a terceira e última a tocar) os caras riram mesmo dos nossos amps. Depois do concerto deles começamos a tocar e lembro da cara de susto deles ao ouvirem o que saia das nossas “merendeiras”.


Esse é aquele momento em que abrimos o espaço para qualquer novidade, links e etc. Mandem bala.


Estamos trabalhando no lançamento de um novo álbum que será um projeto de nossas músicas ao longo de 10 anos em versão remix. Convidamos vários artistas para reinterpretar a(s) música(s) ou álbum de sua preferência para integrar esse projeto totalizando oito temas. O resultado está simplesmente fantástico, recebemos lindas versões e é muito interessante ouvir/sentir o olhar de outros artistas sobre o nosso trabalho. Saravá!




[caption id="attachment_24613" align="aligncenter" width="640"]Show na França - Constantina na casa da Pauline Show na França - Constantina na casa da Pauline[/caption]

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