Faixa a faixa: Panda Eyes - Dream Police

por - 11:08

Panda Eyes

O indie rock vive no Recife! Eu sou testemunha disso, pelo menos da movimentação e sons feitos por bandas da segunda metade dos anos noventa em diante. O início dos anos 2000, até meados de 2005 foi bem interessante para quem curtia tal estilo na manguetown. Espaços como o Pimenta Verde e o Barra Vento (mais estruturados) disponibilizavam agendas para shows das bandas locais e vizinhas (vide: Mellotrons, Retrovisores, Brincando de Deus, Automatics, entre outras). Tanta mobilização resultou na vinda do SuperChunk ao Recife, com um show no Dokas e que provavelmente inspirou a criação de um dos festivais independentes mais interessantes do Brasil, o No Ar Coquetel Molotov.


Podemos dizer que o indie deu uma acalmada após o lançamento do ótimo disco homônimo do Mellotrons em 2006 (conhece não? Pode baixar!). Mas a movimentação continuou, seja com bandas anteriores a isso (Dead Superstars, Vamoz! e Sweet Fanny Adams), como algumas posteriores, que misturavam o indie rock a outros estilos, por exemplo, o Team.Radio. Porém, consigo dizer que 2014 pode ser um marco para o estilo na cidade. Digo isso porque ontem, um dos novos nomes da cena local, lançou seu primeiro álbum, e que disco!


Se pensarmos nos integrantes do Panda Eyes, não podemos dizer que a banda é realmente uma cara nova na cena da cidade. Nomes remanescentes de grupos já citadas neste texto e amigos de longa data, fazem parte da formação do grupo. Um ponto positivo, que possa reafirmar o marco deste ano para o estilo na cidade, seja a ponte feita pela banda entre o passado e presente e o futuro do estilo na cidade.


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Tanto o vocalista Daniel Sultanum (velho conhecido dos tempos de Pal-M e Retrovisores), o baterista Rafael Borges e o agora baixista João Penna (ambos do The Dead Superstars), são nomes constantes em bandas, na produção e movimentação da cidade desde os tempos em que acompanho. Mais que isso, são amigos desde tempos remotos a este. Fechando a formação, temos Roberto Kramer (Pardal, um dos cabeças do Team.Radio), um jovem de raro talento que só enriquece a sonoridade, e que se dedica a estudar e se aprofundar ainda mais na produção da música (seja a gravação, a montagem de palco, entre outras coisas) e a grata surpresa Bruno Saraiva ( que faltou na foto e é conhecido pelo belo trabalho que realiza na banda instrumental Kalouv).


Reunidos pela alcunha de Panda Eyes, ontem eles lançaram o petardo musical Dream Police, que numa tradução literal sairia como uma Policia dos Sonhos, mas que segundo Daniel está mais para uma polícia de sonho. Ele mesmo explica a ideia doideira de onde tirou o nome do disco. “Em sinister dexter a historia é de um cara que volta a ver seu amigo imaginário de infância depois de velho. E apesar de fazer tudo o que o amigo quer, a criação persiste em assombra-lo. Então ele ameaça chamar a policia dos sonhos se não for deixado em paz. Esse conceito de polícia dos sonhos eu peguei enquanto lia sobre projeção astral. É supostamente uma entidade benigna que pode intervir caso você esteja sendo assediado por alguma coisa, e se você pedir ajuda a eles.”


Ao longo de oito belas canções de Dream Police, o Panda Eyes mostra o seu apreço pela produção de boa música, gravada com enorme qualidade. Resolvemos bater um papo com os integrantes da banda sobre o processo de gravação, as influências do grupo, a amizade entre eles e outras coisas mais. Se você curte riffs de guitarras altos, vocal com certa melancolia e baterias animadas, aperte play e leia enquanto escuta as músicas.



01. "Feel Lost"


Eu queria saber de tu Daniel, se as composições deste disco da Panda Eyes são novas? As letras foram feitas pra banda, ou tu aproveitou algumas antigas? E esta melancolia toda?


Daniel: Acho que duas das musicas só foram feitas com letra pra banda, Sanity e Mathematics. Sinister dexter tem mais de dez anos, por exemplo. Melancolia é um tema central na minha vida, e as letras não fogem muito disso. Feel lost é das mais novas, mas mesmo ela foi feita antes do panda existir.


Cry like you were a man, sinister dexter e and the good things too são as mais antigas.


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Essa música tem o teclado mais bonito do disco, pra mim. Eu queria saber do processo para criação no Panda Eyes. Já que tua outra banda é instrumental, bem diferente do som.


Bruno: Foi um tecladinho bem espotâneo. Pardal me passou as notas, e rapidinho a gente decidiu que um timbre de e-piano caia bem. Depois eu coloquei alguns detalhes, e puff, gravamos. Ficou muito bom justamente pela simplicidade. Isso inclusive envolve o processo de criação. O som da Panda Eyes é algo que me faz me sentir leve em tocar. Sei que minhas contribuições podem ser "simples", que o que eu quero adicionar a banda é mais ambiência, detalhes, clima.


Eu posso explorar mais os detalhes dos efeitos, ou brincar mais com noises, sem me preocupar muito em criar um arranjo mais complexo. E os meninos me deram toda a liberdade pra experimentar isso.  Eu também carrego minhas influências de bandas que utilizam bastante o teclado, do Dream pop ao trip-hop. Então não foi algo dificil adaptar, foi bastante prazeroso na verdade.



03. "And The Good Things Too"


Melhor bateria, entre ótimas baterias do disco, na minha modesta opinião. Eu queria saber como é teu processo de composição e até onde a Panda Eyes pode ir?


Rafael: No Panda Eyes, especificamente, o processo de composição é o melhor possível. Primeiro - e mais importante - porque somos muito amigos. Fazer arte envolve muito de vaidade, e essa intimidade ajuda. O primeiro estímulo é sempre muito intuitivo, e eu me sinto muito à vontade para experimentar livremente. Num segundo momento, mais de transpiração, como eu e Roberto somos técnicos de áudio, também tem sido muito fácil gravar as músicas e as ideias para trabalhar os arranjos de bateria, subvertendo um pouco a lógica de muitos ensaios e repetições - que pra mim é chata e exaustiva.


Eu tenho uma foto minha e de Daniel, em 2005, na minha casa, com um gravador de fita ligado no som. Meu primeiro equipamento de gravação. Nós estávamos gravando uma ideia muito primária de "Sinister Dexter", a faixa cinco do disco. E o Panda Eyes é isso. Muita coisa pode acontecer, mas, pra mim, o termômetro do sucesso é ver esse lançado esse disco tão visceral, que fala tanto sobre nós mesmos, nossa juventude juntos, que sempre teve a música como plano de fundo. Talvez os outros tenham uma opinião diferente sobre isso, mas o que me move é fazer e lançar mais músicas. Com um pouco de objetividade: onde pode chegar o Panda Eyes? Com certeza num segundo disco. Já estamos escolhendo as músicas e gravando as bases pra começar a criar.



04. "Kind Of Life"


Para mim, é o hit do disco. A canção só melhora da versão do EP para a do CD, vocês conseguiram mudar a canção no modo de gravação, como na própria estrutura da música. A pergunta é: tem alguma coisa que não saiu como você queriam no CD? E você são o tipo de banda que se fosse regravar novamente o disco, mudaria alguma coisa nas musicas de novo?


Daniel: A gravação foi um pouco corrida. Eu queria ter tido mais tempo e mais dinheiro pra caprichar nas escolhas de timbres e ter feito alguns takes com mais paciência. Há alguns erros de sincronização por exemplo. Mas no final eu fiquei bem satisfeito com o trabalho finalizado e não sei se eu mudaria alguma coisa não.


Rafael: eu gostaria de regravar "math", com outra instrumentação. mas desconfio que essa é uma noia só minha.



05. "Sinister Dexter"


Esse baixo ficou massa. Mas, é impressão minha, ou este disco do Panda Eyes não é tão carregado assim no baixo? Digo isso por que eu lembro do baixo da sua banda antiga, onde víamos muito a presença dele. Pegaram leve contigo?


João: Eu comecei a tocar aos dezesseis anos, e sempre foi guitarra. Nunca tinha tido a experiência de tocar baixo em uma banda, apesar de ser um dos meus instrumentos preferidos e de ter uma linha grande de músicos (baixistas) que admiro. Mas eu não sei se por ter tocado guitarra por tanto tempo, eu sempre preferi os baixistas que tocassem baixo como guitarra, que não se limitassem a fazer um grave que acompanhe o bumbo o tempo todo (Peter Hook, Carlos D, Nick Olivieri e Brian Ritchie) e sempre gostei de músicas que o baixo fosse tocado com melodia ou cadência.


Panda Eyes é uma banda de guitarras altas e nem sempre distorcidas, e na mix, elas precisam ficar mais altas mesmo, o que, não causa nenhum embaraço ou constrangimento, porque é isso que a música pede, e não há, entre a gente uma "ego lombra" de um aparecer mais que o outro. Em alguns momentos da mix, o baixo é bem na cara, como em "Mathematics".


Sinister Dexter, em particular, foi gravado por Daniel. O baixo que eu tinha gravado não estava agradando ninguém, (eu incluso) e ele gravou. O que também é uma coisa natural. Nós começamos a tocar praticamente juntos. Minha primeira banda foi com Daniel, e desde lá, ele já tocava baixo, e há uma completa confiança na composição dele.


 The Dead Superstars é uma banda diferente. Apesar de ter influências parecidas, elas são mais visíveis. As guitarras são muito cheias, tem muita distorção, muita saturação. O baixo acaba ficando mais preso, mas isso deu à Poli (Poliana Yumi) a possibilidade de fazer toda a cama sonora da banda. A estruturação das músicas é feita por baixo e bateria enquanto as guitarras flutuam.


A galera pegou leve demais comigo! Nunca houve uma cobrança. No começo eu até fiquei na dúvida, se a cobrança não tava sendo feita porque estava bom ou porque eles sabiam que eu nunca tinha tocado baixo de verdade.



06. "I Wish"


Entendo que a melancolia seja tema da vida, mas antigamente você cantava com mais empolgação (rapidez). No Panda, percebo duas linhas de vocal. Você usa o vocal também como um instrumento, já que o tom de sua voz segue a melodia do instrumental. E que você canta de maneira mais preguiçosa, num esquema shoegaze, por assim dizer! Trata-se de um vocal mais trabalhado?


Daniel: Essas canções do panda são mais maduras, mas não no sentido de que eu estou mais maduro e isso refletiu nelas, mas no sentido de que elas passaram por uma maturação, um envelhecimento em barril digamos assim. Ensaiamos muito elas. Testamos varias abordagens diferentes pra cada uma delas, mas isso não faz delas melhores que as outras na minha opinião, mas diferentes. Enquanto minhas musicas da época da retrovisores, por exemplo, eram mais espontâneas. Nessa nova safra a espontaneidade abriu espaço para o refinamento.


Pessoalmente não gosto muito dessa expressão "mais trabalhadas", me remete aqueles músicos que parecem querer ser esportistas, valorizando demais a técnica e teoria em detrimento a arte e a poesia. Nossa escola é mais punk, DIY! Acho que refinadas me agrada mais.  Em relação a forma de cantar, por mais bipolar que isso soe, acho que eu apurei a minha técnica vocal e to cantando melhor.



07. "Math"


Eu vejo um calmaria no Panda Eyes, um lance meio shoegaze, mesmo nas músicas mais animadas como esta. Isto é natural ou pensado? Pensando em música: Mudar de Recife, ou mudar o Recife?


Rafael: É muito natural. É uma coisa muito de Daniel essa melancolia. Na verdade, ele conversou conosco pedindo um apoio dos arranjos pra quebrar essa melancolia das músicas dele.


Definitivamente mudar Recife. Eu já mudei de Recife, é bom também. "Um homem precisa viajar". Mas Recife ta passando por um momento diferente, e é a hora de nos pronunciarmos, para além do mercado da música. Primeiro porque é mais importante, mas também porque é impossível discutir a questão da música sem discutir os demais problemas estruturais. A hora é de mudar Recife mesmo.



08. "Cry Like You Were A Man"


Última música de um disco recheado de guitarras bem feitas e encaixadas. Queria saber de tu se as guitarras foram feitas para o disco ou tu já tinha algumas ideias rabiscadas anteriormente. E como você faz para diferenciar os trabalhos nas bandas em que toca, já que são vários projetos distintos.


Roberto: Rapaz, as minhas guitarras foram todas compostas durante os ensaios mesmo. Não tive nada que veio 'já pronto' de casa. Daniel trouxe seus arranjos (que são as guitarras R, que você ouve mais pro lado direito do fone). As minhas ficaram mais para a esquerda. A banda ensaiou por mais de um ano, tinha um EP já lançado.Ou seja, foi tempo o suficiente para aprender o contexto das canções escritas por Daniel e o que elas poderiam pedir.


Neste trabalho eu procurei caminhar por rumos novos, porém atento para que não caísse em 'armadilhas' no que diz respeito à estética do som. O que quero dizer com isto é que não compus nada de inovador para a história da música pop - não! Mas sim para o que já tinha feito antes como músico, e isso já me satisfaz. Usei fuzz em alguns arranjos e um delay antigo fazendo o efeito slap-back em alguns solos inusitados - em faixas como Feel Lost e Cry Like You Were A Man. Só.


Resumindo achei um álbum honesto e belo para quem gosta de canções.

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