House of The Rising Sun #3

por - 11:06

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Estava na estrada, numa das minhas primeiras turnês, com a SOL (finada banda gaúcha que agenciei e poucos sortudos tiveram a chance de ver ao vivo), quando tocou o celular e Maurício Bussab (dono da Tratore e grande incentivador dos meus corres) me perguntou: “Tem uma amiga procurando produtora para trabalhar com ela; a Stela Campos, sabe? Posso passar seu telefone?”. Disse que sim, que estava viajando, mas que poderia conversar com ela assim que voltasse a São Paulo.


Já conhecia o trabalho dela até ali: os dois discos, Céu de Brigadeiro e Fim de Semana, que o mesmo Maurício havia lançado pelo selo Outros Discos e me apresentado em 2002. Gostava das canções-crônicas dela e, principalmente, do fato de ela ser uma voz diferente naquele mar de artistas juntando MPB com eletrônica que inundava a cena no começo do século. Dias depois, num começo de noite de 2005, nos encontramos. Tomamos um café e falamos de Hotel Continental, que ela havia gravado durante a gravidez, e que agora viria ao mundo, poucos meses após seu filho Vitor ter nascido.


Stela queria algo diferente do que muitas bandas queriam quando me procuravam. Não queria que eu a colocasse no radar da imprensa especializada e da programação da rede SESC – isso ela já tinha, de alguma forma. Queria se reaproximar da cena de rock independente, tocar nos muquifindies todos, acabar com a associação que, invariável e erroneamente, faziam de sua imagem com “divas da MPB”. Foi com esse desafio que começamos nossa parceria.



Trabalhamos juntas nos lançamentos de Hotel Continental e Mustang Bar (2009), além de singles e EPs que, após longas conversas com Stela e seu parceiro Luciano Buarque, ganharam vida na internet – plataforma fundamental pra se aproximar de novos públicos e que eles, mais por hábito de colecionadores de disco do que por questões ideológicas, tinham certa resistência em adotar. Ouvi e vivi muitas histórias com a Stela – que só serão contadas se algum dia eu ou ela escrevermos nossas autobiografias não autorizadas; ou talvez apareçam em alguma canção dela ou em algum conto meu – e recontadas com astúcia talvez se tornem outras coisas, ainda mais saborosas do que nossas lembranças de papos de bar poderiam dar conta.


Não me envolvi profissionalmente com seu quinto disco, Dumbo, lançado no final de 2013, mas me sinto um pouco madrinha de suas canções órfãs. Desfeito o vínculo de trabalho (larguei mão de agenciar bandas), ficaram os laços afetivos. Como boa amiga, aconselhei no que pude durante o processo: da escolha do local de gravação (Casa do Mancha) ao formato em que foi lançado (somente digital e vinil – “não gastem dinheiro com prensagem de CD!”). E mais do que a recepção calorosa da crítica (esperada, quase natural para uma artista madura como a Stela), me deixou extremamente orgulhosa ver a satisfação dela e do Luciano com o resultado. Deu uma sensação de ter cumprido direitinho a missão que me foi dada, quase dez anos atrás, naquele café.


Quando decidi retomar a produção festas com shows, eventualmente, sob a rubrica Quarta Dimensão, logo propus a Stela de fazermos uma apresentação de Dumbo na mesma sala onde ele fora gravado. Demorou (o drama de conciliar agendas de um monte de gente ocupada...), mas vai rolar agora: no sábado, dia 7 junho de 2014. E para coroar este momento de recuperação das nossas memórias afetivas, Stela soltou algumas sobras das sessões de Dumbo, em mais um EP virtual chamado Monday Morning. Dá o play e viaja com a gente:


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