House of The Rising Sun #4

por - 11:06

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Não me lembro exatamente como e quando conheci os Mão Morta. Deve ter sido com algum amigo português num verão perdido da adolescência na década de 90. Mas não importa. Mergulhei na obra deles quando estava pesquisando e escrevendo meu livro Pop/Rock à Portuguesa. Fiquei fascinada pelo som áspero e sofisticado jorrando versos viscerais e libertários. E me apaixonei profundamente pela voz abismal de Adolfo Luxúria Canibal: por seu timbre grave, rouco e assombroso, naturalmente; mas, sobretudo, por sua lírica cortante, violenta e corajosa. Seu livro Estilhaços, compilado de textos (vários deles poemas que se tornaram músicas) publicado em 2003, está ao lado do Uivo, Kadish e Outros Poemas, do supremo Allen Ginsberg, na minha cabeceira.


Adolfo se tornou um mestre, e, inclusive, me guiou com seus discos pela obra de outros grandes poetas e pensadores: em Müller no Hotel Hessischer Hof (1997) usou versos de Heiner Müller e em Maldoror (2008), excertos de poemas do Conde de Lautréamont; concebeu Pesadelo em Peluche (2010) à luz da obra de J.G.Ballard; e foi buscar na Internacional Situacionista, de Guy Debord, inspiração para Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável (1998) – talvez o meu favorito. Fico em dúvida entre ele e Nus (2004), que é uma homenagem ao Uivo, só que falando sobre a geração underground de Braga, de onde os Mão Morta emergiram nos anos 80. Mas também me encanta a beleza ambivalente da Primavera de Destroços (2001) e o clássico passeio de Mutantes S.21 (1992) pelos submundos de Lisboa, Berlim, Amsterdã, Budapeste, Barcelona, Paris, Istambul, Marraquexe e Shambalah.


É cruel ter que fazer esta escolha, de um disco ou música favoritos. Quando fui a meu primeiro show dos Mão Morta, na Virada Cultural de 2013, apesar de bastante feliz por poder ver e sentir finalmente a energia deles ao vivo, não pude evitar pensar nos tantos espetáculos que só pude assistir por vídeos. Comentamos, eu e um amigo, que, para ser justo com a história e importância artística da banda, tinha era que rolar uma mostra inteira, de mais de mês, com fotos, vídeos, figurinos, etc e tal.



Os Mão Morta são aquele tipo (cada vez mais raro) de artista sempre atento ao que lhe rodeia e sempre disposto a empurrar as coisas para além. Passaram por três décadas sem nunca deixar de questionar limites e incomodar o status quo: do início cru, um rock que passeava de forma experimental pelo punk, pós-punk e metal (grande fonte da força do grupo até hoje), aos flertes com a música de cabaré e a performance teatral, em belos espetáculos visuais que encenaram; o carisma e a volúpia de Adolfo, amparado pelo apreço do grupo por criar texturas e arranjos enérgicos, que sustentem versos sobre paixões, sexo, morte, sangue, anarquia num país tão culpado pela tradição católica... Talvez por isso, à parte do reconhecimento de sua grandiosidade por prêmios de crítica, continuem como um dos tesouros mais bem guardados da cultura portuguesa. E, também por isso e desde o início, nunca desejaram fazer da música seu ganha-pão.


Anos atrás, perguntei ao Adolfo sobre essa opção de vida e o que ele me disse se tornou um norte pra muitas das minhas reflexões sobre arte e mercado e inovação e liberdade: "A música, para nós, nunca foi vista como profissão, mas como liberdade criativa e a liberdade criativa deixa de o ser se está dependente da sobrevivência física. Gostamos da música não porque ela nos permita viver sem horários nem superiores hierárquicos, fugir a um qualquer destino de trabalho assalariado, mas porque ela nos canaliza o questionamento entre nós e o mundo, é o espaço vazio que nos deixa respirar e pensar sem constrangimentos".


Lançaram agora o 13º álbum, Pelo Meu Relógio São Horas de Matar: “uma resposta poética à crise” que assola Portugal (e a todos nós, não?) nos últimos anos. Melhor do que eu explicar o conceito, é deixar que o senhor Luxúria Canibal mesmo o faça:



É um disco político – como é toda obra deles (bom lembrar que lá no terceiro álbum, O.D., Rainha do Rock & Crawl, em 1991, trechos d’O Capital, de Karl Marx, eram lidos pelos integrantes da banda entre as músicas). É uma alegoria a história que se arrasta do isolamento da faixa de abertura "Irmão da Solidão" (poema de 1982, gravado inicialmente pelos Auaufeiomau, banda-mãe dos Mão Morta) até a explosão furiosa de "Horas de Matar", que encerra o álbum e foi lançada como primeiro single. Assim mesmo, de trás pra frente: é que é bom dizer logo a que vem e depois atiçar a curiosidade sobre como se vai chegar lá. Provocativa inversão mão-mortiana.


O vídeo gerou discussões nas redes sociais, repercutidas na imprensa com opiniões de cientistas sociais sobre se incita ou não o público a ir para as ruas assassinar políticos. Como aqui, lá na terrinha também há uma fauna selvagem de comentaristas na internet prontos a chamar de baderneiros, vândalos e irresponsáveis os que ousam propor uma revolução mais radical. E parece que foi essa (mais uma vez...) a grande afronta cometida pelos Mão Morta: sugerir que deixemos de ser impassíveis.



Adolfo respondeu às críticas, com a cordialidade que lhe é habitual: “Nenhuma obra de arte, seja ela mais ou menos valiosa, tem qualquer intenção de incitar ao que quer que seja e podemos olhar para os exemplos históricos. Mesmo as vanguardas dos anos 60 não incitavam à revolução. A sua obra de arte era a revolução". Mas ele nem precisava ter falado nada. Com toda uma carreira dedicada a incitar reflexões através da arte, me espanta é que tenham lhe ido perguntar sobre isso... Uma bobagem tremenda não sacar que a representação da violência (e o gosto por ela) é sintoma e não causa de uma sociedade insana.


De todo modo, o pronunciamento televisivo de Marcelo Caetano (ditador que substituiu Salazar nos últimos anos da ditadura portuguesa, entre 1969 e 1974) recuperado na abertura do vídeo em que Adolfo explica o conceito do álbum, levantava uma lebre sobre certo espírito português: “Quando neste país se faz alguma coisa de mais audacioso, já se sabe que se levanta logo a poeirada dos interesses lesados, dos despeitos amuados, dos comodismos sacudidos, tudo a pender logo para a crítica derrotista, para a maledicência gratuita, até, às vezes, para as suspensões torpes. O que se há-de fazer? Desistir? Parar? Cruzar os braços? Claro que não”.


Sobre a colagem desse discurso, Adolfo me contou que há uma semelhança com o que está acontecendo hoje: “Foram anos de algum abrandamento repressivo por parte da ditadura, ficando conhecidos como ‘Primavera Marcelista’. O discurso, de ausência de alternativa, é muito parecido com o discurso do atual primeiro-ministro português, sustentado numa maioria parlamentar absoluta, para impor as medidas de austeridade e destruir o Estado social”. Parece-me, além disso, que o sentimento de massa amuada e derrotista de (e a) quem Caetano falava continua à solta.

Pelo Meu Relógio São Horas de Matar é uma bela forma de celebrar 30 anos de carreira e mostrar que ainda há o que se esperar de uma banda que já fez tanto. Só os mais de oito minutos da beleza resistente de “Nuvens Bárbaras” já bastariam pra isso: “que pode significar o fim doloroso de todas as referências mas também o início de uma aventura sem par de exaltação da vida e da entrega incondicional às paixões mais arrebatadoras e amotinadas”.


Adolfo e companhia: obrigada por não terem desistido da arte em nenhum momento e por nos instigarem a pensar sem constrangimentos desde sempre.


Em tempo: o disco não saiu no Brasil ainda (está indisponível pro nosso país tropical nos serviços de streaming pagos – Alô, editoras! Internacionalizem-se!). Mas dá pra ouvir no YouTube graças a um bom anarquista digital:


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1 comentários

  1. Mão Morta é uma banda mítica, a sua música é uma verdadeira viagem sem igual.

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