Notas de Uma Copa Canábica: Então, a morte definiu descaminhos

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Protestos contra a copa 2014

A vociferar distorções sobre seu ponto de vista, insuflando o medo por entre os que discordam ou pensam diferente, porém não os convence de maneira argumentativa, mas sim de maneira verborrágica, arrotando distorção de heavy, como na canção de Raul Seixas, perfazendo seus verbos destilados de como é importante sua visão ímpar e essencial, ou ainda, de como seu trabalho, conduzido de forma honesta e com suor de seu rosto, mostra as cicatrizes de seu braço, por subir na vida com seu próprio esforço, e assim sua conduta e honestidade merecem respeito, afinal de contas você também é brasileiro. A coletiva após o jogo da Seleção contra o México soou-me ligeiramente assim, como algo engasgado, traqueia mal fechada depois de rasgá-la para que se pudesse respirar, façam o seu, mando eu, e agora, quem vai rebater o rancor da penalidade não marcada dessa vez, após o empate, em outro dos poucos placares igualmente zerados da Copa, essa imagem em desassossego me deixou, como o canto de ser brasileiro com muito orgulho e amor, uma imagem de autossuficiência individual e não coletiva, o eu sou brasileiro e não o somos, sim, o eu imposto ao resto do Cosmos, minhas perfeições sem críticas, algo levemente parecido com o problema é sempre o outro ou a muralha do goleiro, as críticas descabidas, tudo isso não presta, afinal com muito orgulho sempre sou, mas o resto, o resto resume-se em maus agouros de seres humanos sem percepção do que é certo, o resto é apenas o resto.


A tipificação de terceiros, a generalização abusiva das coisas, e, a não inclusão de quem crítica como alguém que é parte do todo, eis então a morte definindo outro descaminho, com seus pavimentos limpos repletos em especiarias minerais, a desconstrução da imagem real, mesmo esta recoberta nas mais confusas definições, e, intermináveis teorizações desconexas de Sartre, sim, quase uma propaganda aparentou essa coletiva, daquelas feitas em grandes locações, de agências premiadas, como uma campanha perfeitamente combinando frases de efeito mal escritas e ações anti antirraciais, uma bravata feita sob encomenda, entretanto não é tão longínqua da realidade essa percepção, pois em muitos momentos o futebol apresentado pelo time nacional também me parece algo fabricado por exuberantes fábricas midiáticas, a emoção de Neymar durante o hino, os nervos em frangalhos de Júlio César, a caracterização de Fred em Rosebud, o personagem que jamais aparece, são quase tão certeiras quanto uma propaganda de refrigerante, por muitas vezes tenho total certeza que em algum lance durante o jogo, o atacante brasileiro vai, sem o menor aviso, dar um carrinho, deslocar-se na horizontal, como parece ser sua preferência de jogo, com uma trilha sonora ao fundo, daquelas que remetem aos filmes de ação do grupo Cannon, olhar para a câmera, brilhando suas órbitas alteradas digitalmente, perfazer um sorriso falso e dizer, Compre Dentax! O enxaguante dental que faz sua seleção de dentes brilharem, e assim como mágica, do chão se erguerá como um totem receberá a bola em seu peito e acertará um petardo com a direita, logo após o gol, a tela escurece em um corte rápido, isso é o que sempre penso que irá acontecer, uma imagem irreal, montada, como as respostas pedantes de Daniel Alves e Felipão, como o hino eugenista criado para ser usado contra crianças alemãs em uma competição entre brasileiros e germânicos, e hoje, tratado como canto guerreiro de uma torcida repetitiva, como os xingamentos dos pagantes à governante que organizou a realização dos jogos (mesmo que exista a liberdade do palavrão, se realmente esses descontentes estavam), como as frases de ambos os lados da sujeira política, exacerbada dentro das redes sociais, tudo uma ilusão bem concatenada, como a canção tema da Copa, um tubo de ensaio apenas, nada de realidade ou pelo menos a menor vontade em percorrer o entender do quadro todo, e não apenas suas nuances mais simples, como se a rapidez da tecnologia fosse usada para definir estereótipos, e se levarmos esse pensamento à fundo, perceberemos que isso já acontece em nossas vidas, a tipificação de tudo usando as melhores ferramentas virtuais, a mecanização dos sentimentos, as grandes ações humanas construindo a imagem do grande produto, feito por trabalhadores escravos em algum quarto sufocante sem ventilação, como se por entendimento do que deseja a alma, necessário seria saber quais suas vontades consumistas, e não aquilo que ela anseia por sentir. Dos truques da meritocracia este é o mais vil, a formação de uma falsa imagem de vencedores pedantes, dos merecedores das posições mais altas nos pedestais dos deuses, e nossa seleção, por muitas vezes soa como um partido social democrata, repleto de superiores seres, inatingíveis, que por uma questão de marketing, de vez em quando mostram-se humanos ao debulharem lágrimas, porém, como todos sociais democratas, deixam luzir, quando penetrados pelos prazeres do necessário marketing violento da meritocracia, sua face mais autoritária e de corrupção da alma. Pois eis que então a morte, agora a morte da alma, surge divina, em mantos de ouro, recoberta de luz amarela, verde e azul, açoitando a pele e formando escaras nos rostos daqueles que mesmo ao som das bombas de gás lacrimogêneo e das balas de borracha sabem que o futebol nesses dias é soberano, aqueles que sofrem nas desapropriações violentas de um estado mercantilista, imobiliário e especulativo, dos que tomam água de cadavérico volume recoberto em metais pesados, os que se recobrem em mantos dourados, criados por sacos plásticos ou cobertores envelhecidos pela poluição, a maldita morte, é ela que aparece matreira, como uma sambista semi nua, exorcizando a misoginia em suas pernas, ela sempre, a destruir esses pedaços de almas que também são brasileiras, mesmo que proibidas de sentirem amor ou orgulho do país onde vivem.




[caption id="attachment_24589" align="aligncenter" width="640"]Protesto Contra a Copa foto por Tea Bricman[/caption]

Por isso, se nossa seleção quiser realmente mostrar a sua real face, deverá, com uma rapidez muito maior do que apresentou até agora, tomar-se por algo mais real do que uma névoa de maneirismo ensaiados, algo que a aproxime aos pontos mais basais dessa pirâmide capitalista regente dentro do Brasil, sentir realmente a transgressão de emoções mais reais do que a dor fantasma de Hulk, da ambivalência química neuronal do choro incontido e a raiva nas entrevistas, sentir que a verdade não está nos ingressos caros que clamam a brasilidade de Miami, e sim, nos que dormem ao relento, em mãos calejadas e viciados em crack, neles repousam a transgressão da alma brasileira, deles provém a intuição, e intuições são as maiores fontes de mudanças involuntárias, são como ventos de chuva, desencontradas informações de destino, ao mesmo tempo em que parecem viver nas irreais formações de imagem, são poderosas formas concretas, transformações dessa alma treinada em maneirismos, que parece genética, mas são só maus tratos. Tornar a mudança palpável, até que transborde todas as linhas de alta definição, o sentir real, o mesmo que une a força uruguaia em joelhos trôpegos e potentes contra a armada inglesa, perdida por sentir a força do canhão de forma prematura e a campanha das diretas, o messianismo argentino e os caras pintadas, esse tipo de real, não editado ou transmutado pelo tratamento de imagens, sem resquício de um morto volume com metais pesados, a mudança do verbo ser, o drible que desconcerta a inércia, o som do couro escorrendo pela sintética rede, alma em reverso, a transgressão do ritmo coronário cartesiano.


Pois o povo ouviu ao apelo do cantar unido, com braços entrelaçados abraçou a alma da seleção.


Resta saber se seleção abraçará a alma do povo.

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