Notas de uma Copa Canábica: O espelho reflete rotinas nada amenas

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O dia começa como deveria, uma forma de ilusão, por certas horas parece uma nova maneira de viver, contudo não é, são apenas repetições da repetição de outra repetição, marcada no horário do alarme, sempre nas mesmas sete horas e trinta e oito minutos passados, no amanhecer. Nunca esse alarme tentou, por menor que fosse a vontade compulsiva de suas engrenagens, rebater o destino e rebelar-se, tocando no período noturno, sempre, como sempre, nessa exata hora, reverberava a faringe do telefone celular, com a conhecida canção da banda Verve, e, talvez até por uma ironia forçada, daquelas que mais lembram um roteiro mal escrito, com seus diálogos quase tão incisivos quanto uma lufada de ar do inverno, é que a música se chama amarga sinfonia, pois acordar sempre nesse mesmo horário tem ao certo um pedaço de amargura tão insano quanto real.


Independente da vida, o relógio contém a poesia de uma manhã embebida pela preguiça, mesmo nesses primeiros minutos, onde a luz se aproxima aos tropeços e passa vagarosamente pelas arestas férricas da janela, arremedo dos restos de sonhos que ainda perambulam por entre os giros cerebrais, mas o alarme, o maldito alarme continua soando, mesmo que se queira apenas deixar-se cair pelos braços lânguidos e pelos cheiros crespos de um cabelo de mulher, onde os fartos seios despertam mãos, dedos e bicos.


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São esses espelhos rotineiros que por vezes dão a tonalidade em viés do viver, mesmo que não se queira ver estão sempre perambulando, espaçosos em suas almas, perfazendo ligações entre o cotidiano e as coisas que o cercam, são esses alarmes, audíveis ou não, que mostram a todos nós as ligações entre as coisas, o desenhar da vida em forma de fatos, onde até mesmo as crendices deixam transparecer que não são rotas alternativas, mas sim adornos de cotidiano com uma precisão milimétrica, essas mandingas, trabalhos espirituais no jardim da infância do espírito, são recorrentes dentro desse mês de Copa do Mundo, e a prova mais cabal dessa teoria foi o jogo contra Brasil e México, onde apesar do alarme assoprando o cartesiano método em meus ouvidos, resolvi que faria algo completamente diferente, não levei o cachorro ao mesmo lugar para brincar de bola, não realizei os mesmos rituais antes do iniciar do jogo, não usei a mão esquerda para alcançar a primeira cerveja aberta do mesmo jeito que não almocei exatas duas horas antes da partida, também não acendi o primeiro cigarro do dia na janela da sala, polemista na maneira de viver o dia, tentei reverter esses malditos alarmes de vida, atitude a qual apenas trouxe-me uma tonelada de cefaleias hipnóticas de tempo duradouro, nada além, e, acima de tudo, o empate da seleção brasileira, em um jogo onde, de tão nervoso com minha própria incapacidade em manter meus rituais pitorescos, decidi não assisti-lo com som, assim o empate pareceu-me irreal, como uma morte inimiga, àquela que sem nenhum aviso prévio lhe rouba o amor eterno em um beijo homicida, portanto, após essa maldizente experiência, quando da decisão do primeiro lugar do grupo contra Camarões, todos os rituais foram à risca seguidos, recolocando a vida em seus trilhos, e a Seleção Brasileira novamente no caminho da vitória, e assim, foi-me dado à impressão de que, nesses tempos futebolísticos, nossas vidas acabam, por caminhos indiretos e diretos, amalgamando-se de maneira íntima e inseparável com o time nacional, ideia que, aos pensamentos feita e refeita com inúmeras memórias, pareceu-me deverás interessante, pois em todas as Copas do Mundo, o escrete canarinho sempre esteve a refletir nuances da sociedade brasileira.


Em 58, o milagre econômico, os cinquenta anos em cinco, as construções de forças espartanas com desejos verdadeiramente helênicos de uma assimétrica perfeição, uma seleção que magicamente mostra o país como o futuro, a pílula que acordaria o Universo de uma mesmice atroz, a beleza negra de pernas bem torneadas destruindo os caminhos inversos dos outrora colonizadores e mostrando ao primeiro mundo que abaixo da linha equatorial existia algo além da vida, com uma alma em seda, a sede do Brasil em crescer e aparecer ao mundo teve em sua seleção o melhor cartão de visitas, Prazer, eu sou o Brasil. 62, a rispidez de um novo estado, quase tão militarizado quanto seus pares, onde a ameaça dos vermelhos era tão real quanto à zaga chilena, que por ironia é a vermelha original, o povo escondendo-se atrás de uma sociedade repleta em luxúrias ideológicas e com afazeres de gado seguidor, um time que seguiu os passos de seu antecessor, não mudando muito, porém ainda mágico, o país tentava entender onde a rispidez daquela zaga iria parar, do mesmo modo que ainda estavam obscuras as reais intenções do governo militar, se é que ele um dia tomaria o poder, mas os alarmes da vida ressoaram, eles mostrariam suas intenções oito anos depois, porém no bicampeonato, o povo ainda pensava no Brasil como uma potência futura, entretanto quase se desmantelando, do mesmo jeito que quatro anos depois em 66, a seleção morreu aos poucos, e aquela Copa, como a história daqui, foi decidida por um golpe.


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Nossos heróis da bola sempre refletiram as nossas próprias vidas, mais ainda no torneio de 70, uma nação dividida, os horrores dos porões, os gritos de Herzog, Marighela e Rubens Paiva, uma população acuada entre as armas, atos institucionais e a mágica da liberdade que moribunda, de lado fora deixada, a dualidade entre o amor e ódio pela nação e consequentemente pelo time brasileiro, um time que do mesmo modo que o território, repleto em escusas histórias estava, a demissão de João Saldanha desenhando o que eram os anos de chumbo, a escalação do técnico condescendente com toda uma militarizada equipe técnica, e mais uma vez a Seleção refletia o vento que anemofilizava as arestas do país, tricampeões que mesmo categorizados como assistentes do sistema, mostraram ao mundo que era possível reinventar-se e por que não tentar uma nova rota contra o futebol força, analogia perfeita e nunca vista por todos os lados dentro dos tempos ditatoriais, nosso time mostrou que a única maneira de deter os militares esquemas do futebol, era usar a magia de um grupo.


E assim nossas vidas e histórias seguiam unidas de maneira ímpar, do mesmo modo em 94, onde os tempos da mudança afloravam pelo país, o esquadrão nacional de futebol seguiu firme, com os ventos finais da longa transição à democracia, coincidentes com o longo jejum de títulos mundiais, o Brasil mudando e a Seleção também, com seu futebol quase neoliberal e de economia tática racional, que desaguou no campeonato de 2002, uma nova era tecnológica, uma seleção e seu conceito de união familiar, o basal da sociedade refletido nos passos de Ronaldos, uma equipe tão feliz quanto o povo, vivendo plenamente os ares da mudança entre os políticos engravatados e rígidos dos anos noventa aos passos firmes de um partido e seu presidente operário e sindicalista, o povo mãos uma vez estava assim refletido dentro da família Scolari e do governo Lula.


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Dois mil e quatorze, outra vez mais, o Brasil vive com a alma atrelada à seleção, um povo que descobre sua força nas ruas, como os jovens magos dentro do time, as pancadas dos policiais tão fortes quanto o descrédito da seleção, as teorias da conspiração sobre como o governo comprou as próximas eleições e como a CBF comprou o hexacampeonato, um evento feito para multidões recheadas de dinheiro, enquanto a população mais pobre é desabrigada, Daniel Alves, Paulinho, a elite desacreditada enquanto a força real é representada por Fernandinho e Maicon, o espelho duplo que reflete a própria face, um time instagramado e uma torcida conectada aos milhões, a sociedade dividida entre coletivas de políticos desesperados por manter suas posições e outros que apenas querem o poder, usando o país como quintal sujo, assim como Blatter e a FIFA usaram a nação. Porém existe uma característica que parece ser a mais latente dentro desse prisma reflexivo de corações, talvez a única que perdure desde os tempos do couro duro, e por isso mesmo a mais verdadeira, nossa seleção brasileira consegue sem ao menos perceber, mostrar que todos nós somos quando trina-se o apito, esperançosos de que o gol sairá em nosso favor e a vida se tornará melhor, a cada lençol, em cada voto certo, nos cruzamentos precisos, nas manifestações aos berros por mudanças, no chute certeiro estufando a rede, assim como nas canções que ecoam liberdade. E como não perceber todos esses alarmes e não entender que nós o povo, somos a seleção e a seleção é o povo, refletindo um país de uma maneira tão íntima, que apenas os amores eternos são capazes de explicar.


Na manhã do jogo contra o Chile, mais uma vez irei levar o cachorro para o mesmo lugar de sempre, do mesmo jeito eu sempre faço quando a Seleção entra em campo na Copa.

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