Notas de uma Copa Canábica: Uma estreia, o ilusionista, o mago e o leão

por - 11:06

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Não é uma questão onde se pode comparar a penalidade evitada pelo passo à frente de Nilton Santos com a queda de Fred, do mesmo modo onde não existe comparação se Roger Waters é mais megalomaníaco que aquele preso Chefe da Casa Civil, ou se Tony Montana cheira mais cocaína do que certo candidato à presidência. Nossa estreia na Copa do Mundo, muito mais do que a matemática inexata das paixões humanas relacionadas aos comparativos, sorrateiramente como uma névoa dos contos de Poe, recebida pelas pernas noturnas com a heresia das paixões, deixou bem claro, aos cantos de quem por cântaros pudesse perceber, dentro do Brasil existe uma artéria aberta sangrando normativas impiedosas, imperativas e regras gerais, não regras gerais de convivência implícita dentro dos códigos de viver, não, essas, por mais que estejam enraizadas dentro de nosso subconsciente, usadas são por poucas vezes, refiro-me aos conceitos que perduram por décadas de café, leite e bandeirantes, desde os tempos onde os colonizadores definiram as estruturas de uma sociedade quase imutável, as regras escondidas nas células dos aristocratas, chicoteadas nos escravos, alardeadas por latifúndios canaviais ou madeireiras, sempre elas, as implícitas regras de uma sociedade iletrada e doente, elas tem mais relação com a estreia do Brasil, do que qualquer outra coisa. O ilusionista Fred, como qualquer sorrateiro deputado, senador ou outrora senhor de engenho, que aos poucos corrompe as regras do jogo democrático, em segundos tornou uma simples queda em metáfora, usou a artimanha do senso comum reverso, a maldita malandragem tropical, subverteu o jogo, entorpeceu a batalha, como se um viking enfrentasse mouros armados de ogivas atômicas, cavou a penalidade máxima, contrário de Nilton Santos, porém de mesma genética, tomou a regra para si e a fez barro, e, da lama formou a virada da Seleção, uma profana imagem torneada de Aleijadinho às avessas, o barroco usurpando a santidade, a partido modificou-se de maneira irrecuperável, porém, isso não quer dizer que a Seleção não merecia ganhar a partida. Oscar, David Luiz e Luiz Gustavo foram galhardia enraizada dentro dos cravos, Neymar marcou e como sempre suas travessuras nasceram em transgressão dentro do jogo, a Croácia por mais seminal raça, conseguiu apenas pressionar a garganta, deixar ligeiramente sem ar cordas vocais inflamadas pela cantoria do Hino Nacional, porém foi só, a lama de Fred fez deslizar as mãos croatas, e estes aos poucos perderam suas forças com três tentos devastadores nas crenças do time adversário. Mas o ilusionista permaneceu enraizado, pairando como um fantasma zombeteiro, escavando os olhares desconfiados, percutindo teoremas de conspiração antecipadas, muito mais pelas nuances que a história sempre nos reservou, menos pelo ato em si, mas ele permaneceu ali, poderoso como um átomo, nem ao menos o mago Oscar, genial como a poesia de Álvaro de Campos, Saudação A Walt Whitman, quero viver em liberdade no ar, quero ter gestos fora do corpo, fazendo a esfera permanecer cúmplice de seus toques, descobrindo espaços pelas engrenagens vivas articulares, um rotor repleto em querosene, exalando parafusos incandescentes entre todas as máquinas que teimavam em permanecerem inertes aos lances do nosso quase meia armador de ofício, nada que nosso mago Oscar fez conseguiu apagar a queda.


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Como face escondida pela pesada maquiagem de torcedor nunca desaparecida, sempre deixando colidir células da realidade de sua pele, permaneceram certos pedaços, não todos, os certeiros, não com a referência do sempre jeitinho, muito distante de qualquer papagaio criado em nortes terras, os pedaços sim, revelando sempre presente estática do poder fazer qualquer coisa sem ao menos pensar em nenhum outro aspecto da situação, a mórbida vontade em manter sua posição, mesmo ela, com severos entremeios que liberariam pelo menos mais duas interpretações, a mania arredia de sempre, em teimosia, deixar cintilar manobras sóbrias sobre pontos de vistas deturpados, o ilusionista, ele e mais ninguém, perdura o único ponto de vista, a ilusão, a ilusão do poder sem limites, das ações longínquas e fora do coletivo, o racismo invertido em nome das maiorias, as verborragias de ambos os lados, o ato em cavar o pênalti, a corroboração das vantagens, algo mais incisivo do que o simples jeito brasileiro, essa mania itinerante do sentir-se parte de algo, porém, de uma maneira tão visceral que perde-se a alma, é a seminal descendência da queda de Fred, os anos de aristocracia escravocrata, o correr em inércia média de encontro ao conservadorismo da Ditadura, tudo isso deixou a marca do falsear a verdade para que se possa caminhar em direção à paz inerente aos justos.


É preciso ensolarar-se.


A estreia do Brasil na Copa tem a genética das esquecidas sempre presentes notícias.


Porém como qualquer engrenagem de Álvaro, os movimentos alternam-se, possuem a mudança em suas possibilidades, e o pensar em si mesmo enfim possa desaparecer, pois são trinta anos de inércia em movimentos humanos, e, certamente não nos levou muito longe na evolução. Imensamente interessante um debate entre as forças helênicas regentes do futebol, para que não exista castigo de velho testamento para esse tipo de ação, como por exemplo, o ataque devastador de uma manada de leões holandeses, correndo em velocidade quase terminal, avançando em devastação sem ao menos esperar o momento certo, um imenso castigo. Eis os avisos, amarrações de destino que jamais podem ser esquecidas, engrenagens, sempre elas.

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