Notas de uma copa canábica

por - 11:06

Protesto - Copa do Mundo

Vai começar de novo...

Acinzentado céu de empacamento, pensamento no horizonte em rodas, como se fosse o Globo da Morte com biarticulados coletivos. Existe uma solidão por entre a saia até os tornozelos, a calar perucas escovadas com ligeira assimetria e blusas em Lás outonais, leves veraneios de efeito estufa, a mesma implacável solidão dolorosa dos rastilhos de poeira em cada passo do sempre desconhecido caminho, a opção primeira dos desbravadores maltrapilhos e suas vestes carregando pesares e poluição durante os dias. A Copa do Mundo, porém, categorizou um novo tipo de solidão, aquela do torcer em reverso coletivo, como se fosse cada jogo um episódio de seriados baixados, uma sedução prima em número, nunca divisível e de exclusividade sombria. Torcer com engano, na escuridão, escondendo o sorrir poucos segundos antes do hino, como crime sem fiança, como um assassino ideológico, como ladrão do que resta aos bens morais, essa solidão penitenciária semiaberta do disco rígido, como a ponta de um intervalo em saliva e brasa enlaçada por plásticos translúcidos, a solidão dos pontos extremos, separados por uma túnica única parcial de guerra política, a dualidade burra e seus ângulos inflexíveis, onde todos são ladrões e todos são inocentes, a solidão dos pontos extremos religiosos que nos deram a possibilidade dessa lenda Barrabás, enfim, o hoje, desmancha-se em torcer como heróis e suas identidades secretas, a voz impostada para que nem ao menos seja dele o gritar gol, usando máscaras ao anteciparem o lance impossível que tornará mais poética ainda a jogada, a solidão dos mascarados, terroristas anti reacionários. Entretanto, o pós-modernismo em seus estertores derradeiros não permitirá o nascimento de heróis, pois são altruístas demais nessa solidão dos individuais vencedores, as crias neoliberais da boa ventura. Existem apenas cacos, do barro mais seminal, quebrados pelos entremeios da moralidade e da antirrevolução manobrada, cacos separados, procurando a regênese da ressurreição impossível, lutando para formarem uma vez mais os potes de Cipriano Algor, outrora necessários no romance de Saramago, cacos, destinados aos urros séquitos dos homens de bem, naus no mar de alienação construídos por documentos forjados ou acusações sobre os diaristas escritores de internet do governo, cacos, escondidos cacos torcedores, nada mais além disso, acobertando-se nos onze graus de chuva croata a deslizar os restos da garoa nessa ácida terra tropicalista, menos bélica do que a de nossos primeiros adversários no certame mundial, entretanto com o sangue escorrendo pelas arestas de mesmo modo. O vermelho liquefeito celular, que escorre também sozinho, eis mais uma solidão desse caco torcedor inibido, a do sangrar individualmente. Cobra-se desses sobreviventes torcedores coerência dentro do terreno da paixão. Hey-Lááá homem da taxa! Como é que se pode pedir simetria quando o assunto tem mais de amor e devaneio do que constantes e equações?


Torcer pela Seleção Brasileira na Copa tem em sua essência de sentimento um fator lírico do extremo amálgama, quando puro, sem adição de ideologias perdidas do século dezenove ou vinte, em ferramenta de união se converte, não aquela união ufanista, utilizada tanto pelos da direita como os da esquerda, torcer nesse singelo agrupar de dias cartesianos parece despertar um senso de comunidade desaparecido durante as passagens de tempo, o compartilhamento de um bom dia, a pergunta sobre o inexistente nervosismo com a peleja, as conversas desinteressadas ao redor de um balcão de padaria, sem a determinada preferência de lados políticos ou morais, a informalidade da cortesia se transmuta em viver, os espaços diminuem, aqueles criados pela negligência do monetarismo a qualquer custo, da meritocracia de nossa sociedade média aspirante aos prazeres elitistas. Tudo isso se esvai diante de um manto amarelo, a mesma capa que recobriu os heróis de outrora e atuais, é usada democraticamente por qualquer cidadão, apostem comigo, se puderem, jamais uma vestimenta com tamanhos poderes foi dividida pelo Rei e pelo povo, e, esse tipo de atitude maior só pode ser feito por algo alma infinita, algo como uma camiseta de seleção, da brasileira então, inatingível patamar, pela quantidade de helênicos homens e espartanas mulheres que já a vestiram. Mas esses tempos são outros, os cacos torcedores cada vez mais dissolvem-se pelas gotas repressivas de um granizo cinza, na consistência balística dos homens de bem, os politicamente corretos, sim, eles também, pois torcer agora pelo esquadrão brasileiro parece ser uma atitude alienada e subversiva, os autohomensméritos jamais entenderão o despercebido e lindo bom dia entre semelhantes seres em diferentes caminhos de calçamento e vida. Eis aí outro dos legados copeiros, a morte do isolamento social neoliberal, imposto pelo condicionamento homicida do vencer, do destruir todas as formas em nome da transcendência e do conquistar, a quebra do padrão podre de comportamento nascido nas grandes cidades e espalhados pelos quatro cantos desses rincões de concreto e piche, o fim da solidão vencedora e o início do torcer em grupo. Esses cacos torcedores criam uma mudança dos paradigmas da raça humana, usam a transgressão como arma do ensolarar-se, do unir forças, nem que seja pelo menos em noventa minutos, depois os pensamentos devem ser heterogênios, mas nesse ínterim mágico onde a grama beija o couro, e esta dança pelos enquadramentos da chuteira mostrando sonetos perfeitos em dodecassílabos passos bandeiras pode-se ao menos ao lado deixarem-se os toneis de pólvora. Soltar as arestas desse barro seminal formador do povo brasileiro e seus cacos libertará o entendimento que a Copa como evento espetacular para quem gosta de futebol, e dentro de nossa geografia são numerosos esses fãs, espremidos, deixados de lado como párias da informação, petralhistas empunhando seus cartões de bolsa esmola, os Carequinhas do pão e circo, eles mesmos, os alienados, serão reis da transgressão nesse jogo de gato e rato das forças agentes dentro do Brasil, que amassam e ao ar lançam a seminal lama de Cipriano Algor, nossa alma brasileira feita de terra, água e sangue. E o agente amalgamador dessa transformação entra em campo na abertura do certame mundial, o único elemento capaz de coser o barro, formar as alças e embalar a matéria sólida em sonho deu o pontapé no gramado do Itaquerão, contudo árdua tarefa não poderia existir dentro do infinito, como criar e conduzir uma única batida ventricular brasileira sendo ponto de apoio desta muralha de incongruências chamada nação, nada fácil, afinal de contas existem duas Copas que certamente acontecerão nesse mês de junho, a das partidas e espetáculo para os afortunados que conseguiram escapar de esquemas cambistas oficiais e dos preços abusivos, e outra, fora dos estádios, nas ruas em gritos de excluídos ou grupos que lutam para fazer da confusão seu poder, essa segunda Copa, com ou sem aves de rapina políticas, ressoará dentro dos estádios, e o time nacional que em suas mãos terá o barro é o catalisador, como na Copa das Confederações, por propaganda ou por paixão, o time ecoou as ruas e uniu os torcedores, mas dessa vez as apostas são altas demais, outubros dias ainda apontam no horizonte e os abutres estarão soltos nos fios dos postes telefônicos ou nas redes de dados que podem ou não funcionar dentro dos estádios. E os lados nessa batalha estão muito bem definidos, não existe engano algum, o discurso de abertura oficial da presidenta realizado essa semana foi com os dentes à mostra, mostrando números e deixando claro que a reunião com o Bom Senso Futebol Clube deixou marcas, o citado legado de mudanças na maneira como é pensado o futebol dentro do Brasil é a prova disso. Sobre aeroportos prontos, estádios terminados, mesmo com todos os inacabados itens (a quem jure que o sistema de internet em São Paulo não funcionará) ou futuras investigações sobre superfaturamentos, Dilma rangeu dentinas ações. Porém o governo paga hoje o duro golpe em fazer um evento nos moldes da máfia chamada FIFA e seus capos dirigentes da CBF, e sabe disso, sabe também que doze subsedes foram um pedido demais para carregar, e que cobrará seu preço, agora, e dentro de alguns anos. Sabe também que colocar nas mãos de governos estaduais com distintos interesses políticos, muitos deles ligados às elites, benfeitorias urbanas destinadas ao povo, e ao mesmo tempo, esperar que estes terminassem as obras em tempo, foi um mínimo ingênuo, porém ajudou também a definir o outro lado desta contenda, uma esfera que andava escondida nesses recentes tempos democráticos, que escondida ficou desde a abertura nos anos oitenta, caminhando nas sombras, o rosto do conservadorismo da direita e dos brasileiros médios ganhou olhos, nariz e boca, uma boca que urra sobre roubos ou como o país é um mar de sujeira, tudo feito com maniqueísmo, empunhando revistas semanais e colunistas verborrágicos. Hoje devem estar gritando distorção se passaram pela Avenida Paulista, onde na noite de ontem, crianças jogavam bola pelo asfalto e uma babilônia de idiomas ébrios perambulava pela cidade.


futebol - terra


São esses dois lados que a Seleção Brasileira deverá unir. Um governo que sabe o quanto se perdeu da intenção prima da Copa, o certame aglutinador do povo, uma só nação através da bola, os brasileiros unidos por uma só causa, isso não acontecerá, não quando Blatter monetariza sua reeleição, não quando pessoas são expulsas de suas casas para a construção de estádios, e do outro lado, os abutres, os que desejam o caos para alimentarem-se com os restos do cadáver, os reacionários que desejam o mal maior, não para a mudança, mas sim para alcançarem o poder a todo custo. No meio dessa contenda pela alma nacional, os cacos, aqueles que querem apenas torcer, sem deixar de saber que existem sim problemas dentro do Brasil, mas entendem que a Seleção Brasileira é o além-lirismo, o amálgama do sonho em poesia dentro de um esporte que nada mais é que o encontro entre a alma, coração e desejo.

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