Notas de uma Copa Canábica: As contrações de um coração podre

por - 09:30

pulissa


A chamada bomba, uma câmara semiaberta com quatro cavidades quase tão igualitárias quanto antagônicas, possui em sua alma a única estrutura que o diferencia dos demais tecidos do corpo humano, dentro de suas entranhas mais escondidas residem os miócitos, células especializadas ímpares, dotadas de uma especial qualidade, não como os atletas semideuses do futebol treinados sob as ideais condições de desgaste, temperatura e pressão, não como os jogadores de futebol dessa Copa do Mundo e seus corpos em lava atômica, essas células nascem sem a consciência de sua força, como as tortas pernas de Garrincha que simplesmente moviam-se sem certeza de serem pernas, e na verdade, eram compassos que tornavam possível a existência de um real Deus. Os miócitos são células musculares que apresentam contração involuntária, nunca em nenhum momento de sua vida será possível controlá-las, nem que existam poderes subatômicos escondidos em seu corpo, nem por uma indestrutível força de vontade mioclônica será possível inverter essa natureza pulsante prima, a vida ocorrendo de maneira incontrolável. Assim, o coração torna-se algo muito maior do que um aglomerado de músculo estriado cardíaco, forma constante do fator mutante que é a máquina humana, poderoso, pulsante e perfeito em sua aleatoriedade.


Mas, e sempre o mesmo mas, por ser assim involuntário, o coração aberto está ao desgaste, às intempéries do tempo, ao impassível destino que o cartesiano da vida mostra por entre os dias, o coração ao mesmo tempo em que pulsa, corre em direção à morte, ao podre ponto final, onde não mais avermelhado permanecerá, tonalidades escuras, mortas e fracas são seu destino certo, mesmo que seu potente bater seja a mais bela sinfonia de fina entonação e afinação perfeita, seu caminho é tão descabido quanto sua morte, é feito em batidas sincronizadas e involuntárias, porém, de uma persistência tão ímpar quanto à natureza de suas células, ele pulsa e se não fosse pelo caminho finito de sua nobre arte, estaria por séculos e séculos a funcionar sem reconhecer um ponto final. Ao mesmo tempo, também desconhece os fatores que podem limitar seus batimentos, tornando seu fim mais próximo, ele, o coração, como um cão corendo atrás de carros, é uma força da natureza, como um cavalo de corrida limitando sua visão apenas com a vista da pista, ele voa, entretanto desconhece seus inimigos. Talvez por isso seja ele tão íntimo de nossas sensações mais primitivas, elas, que circulam através dos hormônios e do sangue, atomizados pelas paredes ventriculares dessa bomba tão precisa em sua biomecânica matemática, e, ao mesmo tempo, um dos mais importantes órgãos no processo da distribuição de nossas alegrias, tristezas, ódios e amores.


Esse coração é o mesmo coração dos jogadores da Seleção Brasileira, todos nossos craques possuem tal tecido especializado, iguais aos nossos, que sofrem dos mesmos desgastes, das mesmas ilusões de infinita vida, dos mesmos pulsares poderosos e exatos, os mesmos arremates ímpares, as mesmas lacerações de dor. Os jogadores são muito mais próximos de nós, meros mortais, do que pensam nossos dirigentes ou comissão técnica, e esse é o capítulo mais doloroso dentro desse teatro que se tornou a Copa do Mundo. As personagens enfileiradas com seu hino aos plenos pulmões cantado por uma multidão, como heróis de alguma guerra, destruidores de uma nação inimiga, com a obrigação de matar o morrer, desmoralizar os soldados além-terras tropicais, sangrar vitoriosos ou perecer sem moral e quiçá nunca mais voltarem aos seios da Pátria, a não ser para sofrerem as agruras da desmoralização.


PROTESTO/MARACANÃ


Esse cenário é o palco onde batem os corações de nosso esquadrão, porém, o que ninguém jamais se deu conta, é que nossos magos da bola, são apenas corpos dotados de um coração, não entenderam que dentro deles bate o mesmo miócito que involuntariamente pulsa sem saber de seu fim, e por isso mesmo, estão sujeitos às mudanças de maneira até mais fina, pois estão no centro do palco, derretendo-se em suor e lágrimas, esperando o trinar do desfibrilador que irá acabar de vez com essa explosão dentro do peito. Nesse cenário, desta feita, os homens por detrás da cortina fizeram desses homens de lata cardíacos um experimento, quase tão imperceptível quanto àqueles feitos dentro de redes socais criadas por desajustados sociopatas milionários ou por artigos escritos por colunistas amorais intitulados jornalistas, músicos e escritores. Nossa Seleção foi deixada para trás, por quem tinha o poder de cuidar de suas câmaras musculares estriadas, e o pior, é que nessa estrada nada amarela de tijolos dourados pardo os trataram como uma elite militarizada robótica, quando na verdade são apenas seres humanos dotados de um órgão involuntário que aos poucos definha-se.


Desde o início, as coletivas os colocaram como únicos responsáveis por manter a moral de um país, que aos olhos da mídia estava em frangalhos, foram deixados sozinhos nos pedestais de ouro do time que seria responsável pela conquista do hexacampeonato mundial, os heróis que matariam e morreriam, os que já estavam com a mão na taça, o circo, o pão e o espírito santo, a sagrada família de um técnico messias, tudo feito com falácias e mais falácias, entrevistas, campanhas publicitárias, redes de televisão e seus apresentadores elitistas, que como todo bom bobo da corte, sabe entreter a plebe com ilusões de grandeza. Fizeram nossos jogadores carregarem as pedras angulares da redenção de uma nação, que desde junho de 2013 vem sendo disputada dentro de um cenário político de ódio, onde os grupos querem o poder e não o largarão. Os craques, que em sua grande maioria nasceram na camada da população que mais sofre com situações socioeconômicas, em lugares onde o poder público esqueceu e que a elite faz questão de higienizar com ideologias quase fascistas, sabem dos fatores que cercam seus corações e não são com muitos pensam, apenas ignorantes com talento, lembrem-se meus astutos leitores, eles possuem miócitos especializados, são como nós e sempre serão.


Entendam então o que foi feito com eles. Os deixaram no centro de uma tormenta onde suas almas salvariam a pátria de chuteiras, onde a Copa seria uma afirmação que nossos governantes são perfeitos, e, além disso, o contrário surgindo no horizonte como uma nefasta realidade, a ressoada pela classe mediana, assim como pela direita meritocrática e repressiva, que com o fracasso da Seleção, o Brasil estava realmente navegando em direção ao Comunismo e o destino do país seria a falência como nação. Todos esses fatores jogados dentro de nossos jogadores, com discursos inflamados de autoconfiança mais parecidos com pedantismo, em campanhas publicitárias onde o orgulho de ser brasileiro é a característica mais forte, a nação que canta o Hino Nacional com uma só voz e clama pelos sete ventos de Oz que ser brasileiro é ter orgulho e amor.




[caption id="attachment_24698" align="aligncenter" width="640"]copa_protesto_brasília_leonardo_prado Foto por Leonardo Prado[/caption]

O que me pauta a alma é saber que orgulho e amor são coisas que jamais deveriam andar juntas, ainda mais em contextos nacionalistas.


E assim a podridão dentro do coração do time canarinho foi crescendo, o ódio cultivado aos poucos pela noção de heroísmo, a pressão de nunca mais deixar escorrer uma lágrima de tristeza nas crianças cancerígenas em cadeiras de rodas, o ódio extrapolado nas arquibancadas que tratam vizinhos como se fossem prisioneiros de guerra e não os deixam exercer sua cidadania cantando o hino de seu país, a obrigatoriedade da vitória, para que esse povo semifascista contra os chilenos possa sentir o orgulho de ser brasileiro. Assim o músculo cardíaco aos poucos tornou-se podre, padeceu de um técnico que o treinasse e retirasse dele a essência que moveria o time todo na direção da felicidade de jogar simplesmente bola, de ganhar nada além de uma partida, e não uma guerra, uma Seleção sem tática, sem treino, mas com uma armadura militarizada, forjada na ditadura de um órgão chamado CBF, que como toda esfera de poder dentro do Brasil, funciona como tal.


Assim morre-se antes, assim perde-se a alma para o clamor da popularesca batalha de egos, assim o corpo segue em direção ao fim em um rio de lágrimas, raiva e desamor, assim morre-se sem ao menos saber que o involuntário bater do coração é que lhes deu a vida. Desse modo, nós torcedores morremos, do mesmo jeito que foi no jogo contra a seleção chilena, um martírio por saber que aquele coração que nos une aos jogadores, por ser um órgão que temos em comum, podre está tornado-se.


Contudo, o músculo cardíaco por sua natureza é poderoso, capaz de bombear a vida por um corpo todo, por centenas e centenas de anos sem parada. É hora de limpá-lo, regenerar a condição desse tecido que agora semimorto está, o trovão elétrico da redenção em sorrisos e alegrias de apenas jogar bola, e mais nada.


A Seleção tem nossos corações em analogia, resta entender que não existe sim um corpo de homem de lata, e sim uma alma que grita aos quatro ventos que chegou a hora de mudar os batimentos.


E que venha a Colômbia!


20140220201324115505a

Você também pode gostar

0 comentários