Notas de uma Copa Canábica: Uma Pandemia Hipnótica em Três Atos

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Primeiro Ato


Narrador:


Nas cordas do lado esquerdo do ringue, sangrando aos borbotões após uma direita certeira em seu supercílio, ele quase desaba, respira profundamente em suspiros que parecem nascidos em estados subagudos comatosos, cambaleia, percebe sua face em febre arder, desperta de um pesadelo para acordar em outro, sente a contração do couro da luva adversária transpassar seus rins e encher de hemácias suas narinas, que agora abertas, refletem as lágrimas descendentes pelo globo ocular semifechado direito, inchado, o olho pulsa como se estivesse gritando, não existe ninguém ouvindo, apenas o silêncio do pavor nos rostos da audiência. Outro direto no centro do crânio. É como um relâmpago sem raio, sem aviso, sem um simples aceno que mostre a marreta sendo violentamente girada pelo ar, até acertar o corpo daquele quase desfalecido pugilista preso nas cordas, uma alma sem lar, sem alento, sem a menor percepção do que acontece ao seu redor, não é dono, e nem nunca foi, de seu corpo, que agora rodopia. Uma dança nefasta ao som do que se pode chamar martírio, dança ao redor de uma parceira seminua, com sua vagina úmida, escorrendo pelas grossas coxas sêmen feminino. O prazer repleto de humildade na certa morte do oponente. Essa parceira golpeia, golpeia, e, golpeia uma sequência de socos certeiros em múltiplos alvos, o som dos acertos é aterrador, supercílio sangrando, a tontura dos arrebatadores pontapés manuais na cabeça, uma esquerda na orelha, a direita reta, e, na volta, uma esquerda em gancho, a dor pressionando os maxilares, fazendo-os reverberar ondas de tremores que chegam até os pés. O pugilista aos cantos escoando, sangrando os resquícios de suas artérias, cambaleia como trôpego corpo que cairá, como lágrimas a rolar em maremoto pelo rosto daquela mulher. A senhorita em lindas cores maquiada, tem sua face varrida pelo choro, sua maquiagem dissolve e revela todo o terror da cena, refletindo em suas órbitas, ela não consegue mais esconder o horror de ver ali, morrer seu pugilista, sem alguma ajuda, apenas consegue fechar os olhos em desespero, clamando o fim daquela cena, esperando que o mundo a esteja enganando, ela reza para que um grito a acorde, e revele que isso é nada, além de um pesadelo. Porém a realidade é muito pior do que imaginam os incoerentes rostos, que atônitos, apavorados e chorosos, assistem ao espetáculo. O adversário não tem piedade, exato como uma equação atômica desfere mais golpes, rápidos, trovejantes, cataclismos manuais até que o pugilista respire em intervalos tão longos, que todos dentro da arena sintam a morte lentamente aproximando-se. No rosto um nascente rio e seus afluentes vermelhos, dentes soltos, arroxeados olhos que a qualquer momento catapultados da face serão, em rendição ele está. Ao olhar para seu canto, esperando o alento de um paternal olhar de seu técnico, apenas ouve um murmúrio, as mãos tapando a boca, nada mais. Então em desespero, sem apoio, apenas sentindo a respiração de todo o público parando aos poucos, o lutador olha seu adversário, como se pedisse clemência ao matador, mas o oponente, este maldito, não sabe o significado da palavra. Assim continua a surra, um, dois três quatro, cinco, seis sete...


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.


Um, dois, três, quatro, cinco, seis e sete.


Impiedosos tiros seguidos e então ele cai em definitivo, o corpo todo em implosão, revelando pedaços de seu cérebro escorrendo pelas orelhas, sinais vitais quase silenciosos, restos mortais rapidamente entrando em decomposição. Uma parte da plateia estarrecida, a outra urra como se suas vidas estivessem renascendo pela morte do pugilista, alimentando-se do cadáver como larvas ou aves de rapina. Existem ainda aqueles clamando ter profetizado a morte, como pastores do apocalipse, generalizam lágrimas e generalizam urros. Mais tarde, esses pastores polemistas defecarão regras de comportamento, ditarão conceitos sobre como as pessoas naquela arena e em suas casas são desonestas, como a surra nasceu no comportamento desonesto da população, e que seu deus, o mesmo deus que recebe dinheiro do dízimo, pago pela mesma população que representada está pela generalização desses profetas de cor alva capilar, castigará todos, sem exceção, pelos pecados cometidos.


Guinchem seus porcos, guinchem seus porcos, guinchem seus porcos…


Enquanto esses personagens se debatem pelos restos do cadáver, o pugilista e seu corpo morto apodrecem, o sangue evapora, como pétalas de chumbo incandescentes sublimam-se dentro das narinas frias do povo, que nem ao menos percebe mais a morte do lutador bem ao lado de seus rostos. As cortinas parecem querer descer, porém a curiosidade pelo desastre é ainda maior quando um espetáculo de lágrimas, desespero e funeral ensaiado por três dezenas de bailarinos paraplégicos com cadeiras de rodas acomodadas em foguetes e uma trilha sonora populista, deslumbram a população. Enquanto isso, o corpo do jovem lutador, já carcomido por vermes, revela que essa não era a primeira de suas mortes e nem seria a última, pois, vivia preso aos círculos viciosos de tragédias ensaiadas dentro das proporções continentais brasileiras, aquelas que repetem-se por eras, onde o modus operandi é o mesmo independente dos detentores do poder, ou das pessoas que fingem treiná-lo. Sua vida sina não seria nunca mudada, afinal de contas, perpetuados dentro das engrenagens que rodopiam as cordas presas às suas costas sempre estariam os velhos titereiros, os mesmos de sempre, com suas caras envelhecidas e recobertas de pus e rugas, fedendo ao álcool importado, aos charutos eretos e com as glandes queimando, os mesmos senhores de engenho, os não humanos, as porções terminais do reto que falam.


Ao longe ouvem-se murmúrios, como se intestinos fossem audíveis, uma conjunção de vocalizações feitas em arestas de palavras, são apenas vozes sem sentido como se fossem flatos de um cachorro recoberto de vermífugo. Ternos reluzentes, óculos escuros e dentes revelam seus donos, são os pedaços terminais de retos humanos vestidos em gala, esperando os últimos suspiros do morto, esperando mais uma nova morte, a décima em anos, outra vez a recolherem os pedaços de merda e revenderem aos especuladores de cadáveres. As fotos dos golpes tornar-se-ão livros vendidos em capas de ouro, a renda, sempre aos cofres dos retos. Eles se escondem nas sombras, nas notícias infecciosas de uma boa e velha amiga midiática, que revende o esperma sugado dos senhores de guerra, em variados formatos e programas. Divertem-se enfim com o sangue que ajudaram a extirpar, do cadáver formado em ufanismo nacionalista lembrando técnicas empregadas por Bismark, o príncipe de uma social democracia germânica, onde existia exploração do trabalho em proveito de um capital concentrado nas mãos de poucos, só que dessa vez, o lutador é muito bem pago, mostrando seu rosto nos produtos licenciados, morrendo e renascendo pelo bem do espetáculo, com suas costas quebradas e vértebras reduzidas ao ouro de tolo em pó.


Ele suspira pela última vez enquanto uma manada holandesa de leões serve-se de seus músculos e divide os espólios entre os herdeiros de sua voracidade.


Fim do primeiro ato...


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Segundo Ato


CORO:


Oh bufa tragédia,


Como sois infinita!


MARÍNICO:


Quem sois vós, apresentando-se em terra minha?


Esqueces que jamais existiu qualquer um a transpassar limites?


A menos que pague por isso?


GALVÍNICO:


Rei dos retos, rei dos reis,


Sabedoria infinita há de existir para que saiba quem sou.


Venho pois existem problemas infinitos em tuas terras.


MARÍNICO:


Cala-te falante boca encharcada!


Problema futebolescos me traz?


Não sabes tu, que dentro de meu reino,


apenas acontece o que quero que aconteça?


Nem menos coxo, nem arroto te vi,


Quem tu és?


GALVÍNICO:


Sou velho conhecido,


Não me vês, mas sente,


Por debaixo de tuas vestes,

Eu, tuas bolas e glande,


Além da boca.


CORO:


Reluzente tragédia,


Infinita sois!


MARÍNICO:


E será que eu poderia,


Por uma quimera de poder,


Saber quem ordenou providência?


GALVÍNICO:


Entenda meu senhor,


Há tempos presto meus apreços,


E trabalho aos seus pés,


Porém não entendes que és servo também.


MARÍNICO:


Como ousas, chamar-me de servo?


Não tens menor apreço por tua vida lacaio?


METALOGLOBULINA:


Silêncio!


Como pretendes continuar vivo,


Proferindo bravatas tamanhas contra mim!


CORO:


Oh! Teleformulada Deusa,


Plata em coleiras trágicas,


MARÍNICO:


Como não percebi tua presença?!


Divina Metaloglobulina!


GALVÍNICO:


Estava a explicar,


Que o mestre apenas é


Ligados aos fios de seu ventre.


METALOGLOBULINA:

Pois agora que sabes vassalo,


É a hora de ceder ao meu desejo.


CORO:


Ao chão lacaio!


MARÍNICO:


Perdoa-me Deusa,


O poder que me deste inebriante é,


O dinheiro, holofotes, comandados.


GALVÍNICO:


O problema clama por


Montante de soluções inúmeras,


Mas marcas são eternas.


METALOGLOBULINA:

Entretanto, não é esse o caso,


Essa chaga eterna será,


Cortar o tentáculo do monstro será preciso.


MARÍNICO:


Providenciado será,


Marionetes falarão por nossos fios


Mesmo que soem irreais,


Assim que calarem-se,


Seus corpos enterrados serão.


METAGLOBULINA:


Lacaio de certeza será recompensado,


Pelos anos que virão,


Tamanha trapaça certeira montaste.


GALVÍNICO:


Entretanto ainda restarão


Os anos por vir,


Nossa raiva ensaiada


O populismo nacionalista


De nossos invertebrados.


METAGLOBULINA:


Dessa traquitana,


Usaremos mais polida roldana,


Não aquela com pés alegres,


Mas a passível de vendas aos borbotões da alma.


CORO:


Oh! Craque!


Com suas quedas e dribles,


De infinita alegria ensaiada será!


MARÍNICO:


A máquina dá boas vindas aos espectadores!


Assistam quase incrédulos,


Aos peões engrenagens


Alardeando nossos bordões,


Aos ouvidos raivosos,


Ao inerte vento da mudança,


Ausente em nossas poderosas almas,


A máquina dá boas vindas aos expectadores!


METAGLOBULINA:


Não temam lacaios,


Os recursos são infinitos,


Moedas roubadas de impostos,


A força do estalar moedas,


E cobrir contas bancárias.


GALVÍNICO:


E que os escribas da mudança,


Urrando ao oco destino,


Sejam crucificados pelo povo,


Sempre otimista, insistente e conduzido povo.


METAGLOBULINA:


Assim faço desse destino lei,


Que siga assim por eras.


Fim do segundo ato.


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Terceiro Ato


Narrador


O patriotismo, como escrito por Mikhail Bakunin em Estadismo e Anarquia (Editora Imaginário), é a suprema virtude estadista, a expressão do Estado e de sua força. A vaidade nacional manifestada em porções da elite burguesa, dentro dessa Copa do Mundo, foi o braço pelo qual clamou a CBF após a hecatombe produzida, tal qual o Império Pan Germânico em seus oponentes, pelo resultado da semifinal. Nele apoiou-se e produziu heróis, meeiros do marketing esportivo, merceeiros de vendas dos mais diferentes produtos, todos fantasiados de verde, amarelo, rebeldia contida e honesta humildade. E assim foi contada a história, a máquina oleosa de engrenagens e tijolos perfeitos, produzidos no calor morno do conforto de uma solução psicótica, de crença quase tão infalível quanto o messianismo. Contada e recontada em inúmeras coletivas, repetida por todos os hologramas de seres humanos contidos em uma mesa tática. Assimilada dentro das casas e antes até, quando bem vestidos em roupas de passeio, a população que aprendia o que era um jogo de futebol mais sério, e suas falcatruas, enganada estava com as lágrimas e sorrisos dos ministros de uma meritocracia divina, dos escolhidos pela máquina para a perpetuação de seus desmandos.


O mais irrisório ao coração de quem é um proletariado do amor pelo futebol, é que a realidade mostrada era como um tijolo solto em seu cérebro, algo que despencava de alturas imensuráveis, atingia o córtex e estalava as órbitas oculares, parecia impossível aquilo ser a realidade. Até mesmo hoje, quando esse tijolo ainda repica no solo e repetidamente atingi cabeças, soa algo muito distante de tudo aquilo vivido diariamente por todos. Foram horas cruéis de realidade alternativa, algo que transforma a noção de mundo de quem presencia o espetáculo, o ato contínuo de dissimulação, como uma lavagem cerebral de mecânica laranja elevada ao fanatismo infinito, a lesão, a aparição, a explicação, a convulsão do passado que assombra o presente, manobras em um palco que gira como chapéu mexicano sem freio, um parque de diversões onde a morte do espírito e das chuteiras enlameadas apenas pela terra úmida, são danos colaterais, nada além disso, o que serve mesmo é o recondicionamento de que tudo ficará bem, desde que se troquem os rosto. Como na experiência neurológica, onde duas pessoas vestidas de maneira igual, porém com rostos diferentes trocam de lugar durante uma conversa, e o entrevistado nem ao menos percebe, pois está preocupado dando direções, pois está preocupado em ousar ser brasileiro com muito orgulho e amor.


As marcas de um país, impressa na camiseta da companhia de material esportivo, nos cambistas, nas manifestações recebidas com bombas, nas prisões arbitrárias, nas desapropriações violentas, na miséria daqueles ainda escondidos do frio debaixo da lona plástica, presa por dois tijolos e cercada por entulho que retira o eco do frio, não são maiores do que a revolução por mudanças que deve ser feita. O reverso desse cartesianismo tosco impresso na CBF tem que morrer.


Porém ainda mais melancólico é pensar que o maior choque ainda não veio, que ele é ainda mais forte que a ilusão criada.


Que o golpe final seja a não classificação do Brasil para o torneio em 2018. Entretanto se a ferida ainda não secou, é preciso deixar o sangue escorrer até estancar essa podridão.


Fim do terceiro ato...

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