"Essa próxima também é sobre robô", a Formafluida de Lucas Dimitri

por - 11:07

FormaFluida


Lambi minha cota direto da mesa. Longe disse pra engolir, Lorena concordou e falou que a absorção pelo estômago era melhor que pela boca. Taynah, como eu, ficou meio cética. Deixei na boca um bom tempo ainda, até subir aquele enjoo insuportável no nariz, como se tivesse tomado uma colherada enorme de mel, então engoli e comecei a esperar. A vida é esperar. Esperamos tomando uma e acariciando Lila e Roberto Fripp, os gatos da casa.


Eu nem gosto de gato, pra ser sincero, mas o Roberto é simpático mesmo. A Lila uma noite dessas foi se aventurar na única janela do apartamento sem rede, o vitrô da cozinha, e caiu do quinto andar. Longe disse que quando chegou lá embaixo viu a gata estatelada, sangrando pelos olhos e nariz.


No veterinário, ela foi medicada e liberada. Nenhuma fratura, nada. “Parece um hospital Pokémon. Ela entrou toda quebrada e saiu nova”, disse Lorena.


Mas nós não estávamos lá pra fazer carinho em gato (eu pelo menos não), então, munidos de um drinque de gengibre com vodca, sentamos no quarto-estúdio do Longe pra ouvir Multitude, o segundo EP do Formafluida, seu projeto de música eletrônica.


Junto com o City Fuss – a banda experimental que Longe mantém com Joaquim Prado e Matheus Barsotti – a Formafluida é o resultado de toda a obsessão musical de Lucas Dimitri, o Longe. No centro disso tudo está a Fluxxx, produtora composta por Longe, Lorena e parceiros. Multitude, aliás, é o primeiro lançamento do selo.


Tanto no City Fuss quanto na Formafluida, a música expressa a relação do ser humano com suas construções. No City Fuss, é o homem com o caos da cidade grande (vale a pena ver o belo clipe de "Revolve", primeiro single da banda). Na Formafluida, a questão é o homem com a cibernética.


Quando a música começou a rolar, porém, eu fixei meu olhar no chão e pensei: “É bom esse ácido fazer muito efeito, porque eu não entendo porra nenhuma de música eletrônica”. Eu me sentia novamente em meio à fumaça e luz estrobocópica de uma pista de dança vazia e fria, o lugar perfeito para se decepcionar.


Aí eu falei “E aquele beck lá?” E fumamos aquele beck lá. Então tudo veio como uma onda, e da batida eletrônica se revelou o artesanato digital de Longe em cada nota mais longa do teclado, cada mudança arbitrária de rumo.



"Multitude", a faixa que dá título ao EP, abre com um sample de vidro estilhaçado retirado do disco FFDW (1994), do projeto homônimo de música eletrônica encabeçado por Robert Fripp, líder do King Crimson. Da destruição, um bipe conduz a música à uma batida escura, que só deixa de ser pura máquina com a voz distante e gelada de Longe, que canta: “A fragment of your sorrow / fell on my open mouth / came slashing the tip of my tongue / it tasted like the bitter of gold”.


Na sequência vem "Sense of Wonder", feita para Lorena. O título vem do termo referente à ficção científica, que designa o deslumbramento causado por uma nova informação que põe todo conhecimento prévio em nova perspectiva. É uma bonita declaração nerd, glicht de amor. Essa é a única música em que Longe não fez todo o trabalho sozinho – Vitor Almeida Lopes (também artista da Fluxxx) é o autor do riff “meio afrobeat” (nas palavras do Longe) que dirige a faixa.


Outro bipe, agora mais agudo, como um monitor cardíaco, inicia a terceira faixa, "Zeitgeist". A referência à vida artificial é escancarada com a estranha respiração robótica que precede a voz. A letra, no entanto, é mais humana, e passa uma mensagem pessimista/realista (a encruzilhada entre o que é a paixão humana e o cálculo robótico) do “espírito do tempo”: “You can’t embrace / the thrill that you crave / future can wait (...)/ oh, if only we could see beyond”.


O amor volta à tona na quarta música – "Imageluv", o single do EP. Segundo Longe, trata-se da história de “um robô humanoide que se apaixona por um humano”. Uma impaciente batida metálica é o fundo para uma sequência de evoluções que acompanham a letra, que termina com a questão: “Is it love / or ilusion?” A própria distorção, que transforma a palavra em uma grotesca imitação de voz, dá a resposta: é uma ilusão.


"We’ve Never Been Awake" encerra o EP de forma ambígua. O sonho dentro de um sonho, com a pergunta sempre recorrente: “Would you wake me up?”. Não há saída. A massa sonora se acumula até começar a se desfazer, fio por fio. Resta apenas uma frase colorida – espécie de versão ansiosa das notas alienígenas de Contatos Imediatos de Terceiro Grau – que gira e, sem razão, se extingue.


Apesar do ácido (que bateu forte, me fazendo gritar de emoção ouvindo King Crimson mais tarde), o som de Multitude prevalece como a busca da expressão de algo novo – a intenção de qualquer artista, na minha ideia. Não é só música para fritar (mas que dá pra fritar, dá pra caralho). É a música feita por alguém sempre preocupado, que sabe, como diz Luiz Melodia, que “qualquer prazer não satisfaz”.


Ou, como disse o próprio Longe entre uma música e outra: "Essa próxima também é sobre robô".


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Na quarta-feira, dia 2 de julho, o EP é lançado no Naïve. A partir das 20h, Longe estará lá sob a persona de Formafluida pra tocar as faixas de Multitude intercaladas com influências diretas e indiretas da música, como Miles Davis, Frank Zappa e a trilha sonora de Cowboy Bebop.

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