Queria que meus avós fossem o Tom Zé e o Laerte

por - 11:06

933965_10201026321609124_206241339_n


Família não se escolhe. É uma pena. Não que a minha seja ruim, longe disso. Como todas as famílias, temos nossos desentendimentos e nossas alegrias. Mas acho uma pena não ter a oportunidade de escolher porque já decidi qual seria minha opção para o campo dos avós: Tom Zé e Laerte.


Tive a oportunidade de ouro de me encontrar pessoalmente com os dois – em lugares diferentes, mas no mesmo dia! – e só me encantei mais ainda por seus trabalhos e suas personalidades incríveis. Entrevistei o Laerte quando fiz um artigo para a faculdade sobre transgêneros. Na ocasião, eu estava decidido a me vestir como mulher para sentir na pele os preconceitos das pessoas na rua. Troquei uns e-mails com ele e, além de me dizer que não se importa com qual gênero gramatical nós, meros mortais, usamos para identificá-lo, me deu vários toques sobre respeito, tolerância e lojas de sapato de números grandes.


O Tom Zé eu trombei numa tarde de autógrafos. Eu estava usando saia e perguntei pra ele se ele via algum problema nisso: um homem usar saia. Ele disse que não, que eu poderia ser e me vestir como eu quisesse, eu sou livre. Peguei meu autógrafo, tirei uma foto e fiquei orgulhoso.


Isso foi a uns dois anos atrás. Mas esses dias me peguei pensando, nesses devaneios de chuveiro, como seriam boa (e utópica) minha infância nutrida por esses dois. Vô Tom me ensinando a cultivar flores, me faz um cafuné e diz: “quem é que tá botando piolho na cabeça do século?” e eu respondo “o di marré, di marré, de si!” e corro pra levar uma flor pra minha vó, Laerte.


1604977_10152280200451094_6776764918764560638_n


Não teria por que me questionar o nome de minha vozinha querida. Na escola provavelmente algum coleguinha me diria que Laerte é nome de homem. Não me importaria, minha vó é tudo. É mulher, é homem, é tudo. Chegando em casa ela me diria pra transformar essa briga numa HQ, e me ensinaria a procurar a melhor cor para expressar o que eu sinto, com as melhores linhas e a melhor síntese. “o que é síntese, vó?” “senta aqui que eu vou te explicar. Cadê seus giz de cera?”.


Então criaria uma “super-heróia” (heróia mesmo, porque não é herói, mas também não é heroína) chamada Menina Jesus, barbada e cabeluda, com força física de menino e sensibilidade de menina, que ganhou superpoderes depois de consumir O Pirulito da Ciência, e que luta tranquila e infalível como Bruce Lee contra as forças intolerantes do preconceito enraizado dos capangas do Doutor Patriarcado.


Depois, à noite, pediria a bênção à minha mãe e deitaria na cama com meu novo desenho, e sonharia em ser Cinderela, cantar na televisão e ganhar picolé na merenda, com um relógio de pulso que marque hora e segundo, e um rádio de pilha novo tocando coisas do mundo. Seria uma infância muito boa.



Texto por Lucas Panoni

Você também pode gostar

0 comentários