Um papo sobre arte: Dani Hasse

por - 11:06

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Dani Hasse é uma figura no mínimo interessante. É carioca, mas morava em Blumenau quando criança, hoje vive em São Paulo e está com viagem marcada para morar em Portugal. Ou seja, é uma pessoa do mundo. Dani é formada em letras, chegou até a dar aula, mas resolveu se render a sua paixão pelo desenho e se tornou designer por conta própria, chegando até a se tornar uma marca de roupas. Segundo ela, caiu de paraquedas em tudo pegando qualquer  oportunidade que aparecia, tanto que hoje em dia tem até havaianas com desenhos feitos por ela, mesmo que ela não considere isto sua arte.


Em março do ano passado, a Dani fez uma capa para a nossa coleta do Hominis Canidae, uma das mais legais até hoje. Resolvemos bater um papo com ela sobre a carreira de designer, os tempos de professora, além de conhecer um pouco mais das influências da moça e de suas ideias. Confira abaixo.


Você se considera uma artista? Quais artistas que te inspiram?


Dani Hasse: Acho muito difícil se autodenominar como artista. Aliás, é uma questão frequente pra mim nos últimos anos. Tenho lido sobre outros artistas falarem sobre isso e tento incorporar algumas coisas que acho interessante. A questão é complexa e envolve muitas sub-equações, podendo gerar infinitas respostas, mas resumindo pro Twitter, sim, me considero uma artista. Se medíocre ou extraordinária, já é outra coisa. Mas o fato é que sinto necessidade de criar, e isso me define como artista.


A lista de artistas que me inspiram é constantemente alterada e indefinível. Indefinível porque tenho sérios problemas para memorizar informações precisas, como nomes. Eu sou daquelas que cita alguém assim: "...sabe, aquele cara, que fez uma coisa tipo isso, só que de outro jeito, mais azul...?" (risos). Eu sou difícil até pra mim. E ela é constantemente alterada porque todo dia vejo/escuto/leio alguma coisa que me atinge de alguma forma, e os autores dessas coisas muitas vezes não carregam o título de artista.


O mais próximo da definição dessa lista que eu poderia chegar pra você... hmmm... é como todo o entulho de uma casa de hoarder (acumulador). É um absurdo, uma bagunça. Já nem eu sei o que é lixo e o que é tesouro, mas na dúvida, não se joga nada fora (risos).


Que som te inspira pra criar seus desenhos?


DH: Outra casa de hoarder como resposta pra você.


Mas deve ter alguma constante, né? Quem está desde o início no player, ou a maior parte do tempo?


DH: Aff, vocês jornalistas e suas listas e estatísticas. Eu realmente não tenho uma constante desde o inicio. Às vezes lembro de algo que escutava muito e volto a ouvir, mas muda. Mas comigo não funciona escutar coisas que eu gosto porque gosto. Tenho que escutar o que tá na mesma frequência que o raciocínio pra cada coisa que tô fazendo, ou que não interfira na frequência. O que é sempre certo, é que pra fazer poster pra uma banda, escuto ela, do começo ao fim do processo.


Eu não sou jornalista (risos). Fala um pouco do lance do uso das flores nos seus trabalhos. De onde vem isso?


DH: Acho que vem da minha escola primaria de design: estamparia de moda. Acabei incorporando por ser um elemento que transita bem em praticamente todas as linguagens e é um complemento perfeito pra equilíbrio de layouts. E também porque estudo o significado de tudo que desenho, o elemento pode vir antes da pesquisa ou a pesquisa que sugere o elemento a ser usado, mas enfim, cada flor tem diversas simbologias, que somam muito a cada trabalho.


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No ano passado, participei de um workshop sobre arte e critica com Enok Sacramento, falei dele aqui. Lá, Enock dividia artistas entre populares em produção e populares em obras. No fim das contas, quem produz menos, vende a arte por preços mais altos. Porém, quem produz em grande escala trabalha mais, ganha menos por peça, mas também faz dinheiro. Você parece seguir esse segundo caminho, quando adentrou espaços para artes em sandálias ou malas de viagem (pra citar alguns). Eu queria saber como você chegou em tal espaço e por que escolheu seguir este caminho. Que outros produtos você acha que podem vir com a arte a sua arte e se você pensa/ ou produz no formato clássico de obras de arte (quadros, gravuras, etc)?


DH: Putz, isso é uma imagem que eu achava que as pessoas tinham de mim, e que bom que alguém me fez essa pergunta.


Eu não considero AT ALL nenhum dos produtos em que coloco "minha arte", arte (nem minha arte). E, definitivamente, não é. Não por serem os produtos que são, mas porque aqueles desenhos não são meus. Explico (sem achar que seria necessário): aqueles desenhos são encomenda do cliente. Brifados, re-brifados, alterados até a exaustão para ficar com a cara que o mercado vai aceitar. O que é uma questão que me vem alfinetando a alma por todo esse tempo (fazer parte da grande roda dentada do consumo).


Cara, eu caí nessa porque fui indo, sem planejamento qualquer de direcionamento, pegando todo job que aparecia na frente pra pagar as contas. E nesse ponto te falo que eu realmente acho é que, no final das contas, o dinheiro ainda rege tudo, seja consumo, seja arte, seja índole ou moral.


Nunca tive qualquer ajuda financeira na vida pra sobreviver. Paguei minha faculdade sozinha e compro meu shampoo desde os 14 anos.


Nos últimos tempos, com um certo amadurecimento sobre essas questões, tenho tentado de todas as formas que consigo realmente produzir arte. Entre ilustrações encomendadas e tempo bastante escasso, tenho feito algumas coisas que não são pra ninguém, talvez nem pra mim. São coisas que eu preciso por pra fora. Ainda é um processo bastante inicial, porque é muito difícil se desvencilhar do raciocínio de mercado, resetar toda uma programação de produção, e deixar baixar o meu próprio santo que nem eu conheço mais direito. E isso tem que acontecer nos curtos intervalos entre uma sandália e uma camiseta. Tem sido como vomitar bile. Eu sinto essa necessidade incontrolável de por pra fora alguma coisa, mas que ainda não está clara pra mim, e o que consigo pra aliviar essa agonia, é um líquido amarelado e amargo que só me mostra o quanto me esvaziei nesse processo todo de sobrevivência. E aí o tal alívio não chega a amenizar muito as coisas.


Neste caso, você fala que as suas artes encomendadas não são artes, isto é um pensamento seu geral ou apenas individual para o que você faz? Outro ponto, o preceito da encomenda não altera o teor visual e gráfico do produto, né? Mas as idas e vindas mecanizam tudo e perde o tom artístico da coisa. É por ai?


DH: Eu acho que é um tipo de arte, essa de encomenda comercial. Mas apesar de eu fazer, de ter o meu jeito de realizar aquilo, não é uma coisa autoral, porque foi designado por outra pessoa como deveria ser.


E já que você falou da agonia: Quando você se descobriu designer/artista/desenhista? Quando você percebeu que trabalharia com artes visuais?


DH: Eu percebi quando já estava trabalhando com isso. Não planejei, nem nunca pensei no assunto. Sempre desenhei, desde pequena. Meu pai me obrigada a estudar e fazer todos os exercícios dos livros escolares nas férias que antecediam o ano letivo. Restava quase nada de tempo para brincar. Aí minha fuga era desenhar na surdina, quando ele não estava por perto, em papéis escondidos em baixo dos livros. Na real eu nem sei se tenho um dom. Acho só que desenvolvi a única coisa que podia fazer na época. Nesses rabiscos clandestinos eu tinha outra vida, outras músicas, outras cores, outros cheiros. E eu aprendi a ser feliz desse jeito. O mundo dentro do papel passou a ser o meu mundo real e nunca mais quis sair dele.


Em todos os empregos de adolescente que tive (secretaria/auxiliar de dentista, arquivista de biblioteca e vendedora em shopping), logo as pessoas ao redor me pegavam rabiscando qualquer coisa e eu virava a caricaturista oficial de todos os aniversários. Um inferno. Todo mundo dizia que eu desenhava bem, mas não levava muito em conta, porque pra quem não desenha nada, qualquer palitinho é fabuloso.


Morava em Blumenau, numa época que a única coisa que tinha pra fazer era beber em postos de gasolina até ser expulso. Logo, eu tinha muitas horas no meu quarto pra desenhar e compor músicas sobre a tristeza infinita de existência que todo adolescente passa. Uma conhecida que trabalhava na Colcci (em Brusque) viu esses desenhos e chamou pra fazer teste. Fui mais pra ver como era o interior de uma fabrica assim, como era a sala de desenho. Não sabia escanear, não sabia o que era uma mesa de luz nem uma tablet, nem como abria o Photoshop e muito menos ouvido falar alguma vez na vida em Corel Draw. Enfim, eu devo ter feito um desenho fabuloso pra terem me contratado apesar de tudo isso (risos).


E foi isso. Caí de paraquedas.


Você é formada em letras, né? O curso te ajuda/ajudou em alguma coisa para este outro lado?


DH: Ajudou pra eu entender que quando tento aprender algo dentro de limites e padrões, deixo de pensar instintivamente na mesma hora. Depois da faculdade de letras nunca mais consegui escrever como antes, e não foi pra melhor.


Trabalhando com design e ilustração sem nenhuma formação técnica, me deparo com problemas básicos o tempo todo e por isso pensei algumas vezes em estudar esse trololó todo. Mas aí lembro da graduação e resolvo que o melhor a ser feito é procurar algum tutorial ou amigo da área que me ajude naquele momento.


E você prefere trabalhar sozinha ou com mais gente?


DH: Sempre trabalhei sozinha. Por ter todo aquele processo individual do meu mundo paralelo que te contei antes. Mas recentemente duas pessoas apareceram aqui nesse lugar que eu achava que era só meu. E não porque entraram, mas elas já estavam aqui comigo, só não tínhamos nos esbarrado ainda. Uma dessas pessoas é o Magno Borges que tá expondo na Epicentro Cultural (Vila Madalena, até dia 8 de Agosto) e me chamou pra desenhar duas paredes pra emolduras duas de suas telas. E foi inacreditavelmente fácil fazer isso com ele, por sermos tão similares na sincronicidade das nossas personalidades.


A outra pessoa que encontrei aqui em 2Q14 (1Q84-Murakamy) foi Sophia Panthera. E essa é um pouco assustadora, porque foi como encontrar uma replica de mim. A Dani do Mundo Bizarro. Estamos produzindo algumas coisas em 2Q14 e assim que materializarmos a nuvem underground, traremos para 2014 pro mundo ver.


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