As barricadas culturais nas Ocupações do Isidoro

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10543633_10152582866896390_1077951185881654407_n(Foto por: Manuel Andrade)


Quem acompanha o Altnewspaper sabe que a gente tem um gosto especial e específico, dentre os interesses musicais e culturais: gostamos de cutucões sociais. Há pouco tempo girou pelas internetes – e por aqui também – as mobilizações sociais em torno do movimento “Resiste Estelita”, em Recife, que tratava de uma questão que eu venho martelando aos quatro ventos nos últimos anos – inclusive aqui: a retomada do espaço publico pelo público. Depois de tantos anos de política convencional, e depois das bombas de gás e das centenas de milhares de pessoas nas ruas no ano passado, é inevitável que, pro bem ou pro mal, alguma coisa mudou. Os grupos que colocam as mãos na massa talvez ainda sejam os mesmos, mas o que interessa é que a potência dessas iniciativas sociais tem ganhado mais voz a cada dia, e felizmente desestabilizado mentes acomodadas e alguns prefeitos-empresários.


Certa vez eu disse aqui que Belo Horizonte, a cidade-problema que me escolheu como morador (e também a algumas feras irritadas da crítica como o pessoal da Lupe de Lupe), apesar de encontrar dificuldades com uma das gestões municipais mais conturbadas da sua história – no nome do prefeito Márcio Lacerda – vinha sendo um dos exemplos mais fortes de luta popular, desde a época da ocupação do Espaço Luiz Estrela. Mas hoje eu venho aqui pra contar a história de um tipo diferente de ocupação, de uma que mantém todas as importantes questões culturais, mas que coloca em jogo algo ainda mais importante: a vida e a moradia das pessoas.


10629747_10152582867976390_7367627901620027825_n(Foto por: Manuel Andrade)


Em tempos de especulação imobiliária galopante, no cenário incerto de uma Copa do Mundo, que acabou por ter como um de seus resultados a higienização das ruas da cidade e intensificação do desrespeito aos direitos das populações carentes, surgiram as ocupações do Isidoro na forma de três agrupamentos que receberam os nomes de Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória, em uma região de Belo Horizonte que corresponde a um terreno não utilizado, porém dotado de enorme valor imobiliário, chamado Granja Werneck. As ocupações se iniciaram em 2013, e em pouco tempo se tornaram enormes: a estimativa atual é de que vivam na parte ocupada do terreno cerca de 30 mil pessoas, distribuídas em 8 mil famílias. Pessoas que construíram ali suas moradias, crianças que se adaptaram à região, começaram a frequentar a escola e se estabeleceram afim de construir suas vidas. Mas como não poderia deixar de acontecer, o direito à propriedade privada foi uma força política mais forte junto à prefeitura do que a iniciativa das famílias ocupantes. Depois de um prolongado toma-lá-dá-cá jurídico (ver o infográfico do Coletivo Margaridas abaixo), a liminar que exigia que a prefeitura se responsabilizasse pelo futuro das (futuras) famílias desabrigadas foi cassada e a ordem de despejo se manteve. A Polícia Militar de Minas Gerais realizou cercos no local e a população temia por uma ação violenta, como sabemos ser o habitual comportamento das polícias militares no país ultimamente, é só lembrar do episódio do Pinheirinho.


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O interessante é que a sociedade civil se organizou em peso em volta da resistência e diversos movimentos sociais como o Tarifa Zero e as Brigadas Populares se uniram para deixar mais claro que a questão de moradia para todos interessa a cidade. Desde a ameaça da reintegração de posse do terreno, providenciaram-se ônibus para fazer o transporte de pessoas que queriam ajudar até as ocupações. O resultado está sendo aquele híbrido de política e festa que é tão singular característica desses “novos movimentos”. As noites de vigília e as barricadas para evitar a eventual intervenção da PM se tornaram palco também de modas de viola, oficinas de arte, stencil, e muito mais. O movimento cresceu sob o nome de “Resiste Isidoro!” e tem chamado a atenção de grandes jornalões brasileiros e até da mídia internacional. A pressão é tanta que a situação foi de certa forma temporariamente congelada. A prefeitura argumenta que o terreno seria utilizado para construção de moradias populares, ao mesmo tempo em que ignora as intervenções de diversos órgãos, entre eles incluso o Ministério Público, e a situação – de reintegração iminente, que pode ocorrer a qualquer momento – é mesmo delicada. Mas a questão é que apenas através das ocupações e da participação publica é que vivemos uma chance da prefeitura se mostrar disposta (ou forçada?) a dialogar e dar inicio à busca por uma forma de consenso ou negociação, fórmula que tem se repetido não apenas em Belo Horizonte.



Independente do acontecimento ou não do despejo, toda essa história nos diz muito sobre os tempos que vivemos. Nos faz pensar se temos mesmo que esperar ações de cima que resolvam as nossas vidas ou se o realmente importante é se organizar e se entregar ao “Faça Você Mesmo”, não só no que se refere às artes. A tensão na região do Isidoro ainda acontece nesse exato momento, com a ameaça do despejo ainda presente. Se você se interessou pelo caso, ou está curioso quanto a algum detalhe, pode dar uma olhada nos blogs das ocupações, na página do movimento no Facebook, ou até mesmo em algum jornal de Belo Horizonte. Por aqui, resistimos por uma das razões mais importantes pela qual ainda vale a pena lutar: a construção de diálogos.


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