Estrabismo do olho da rua

por - 14:06

geladinho


Coragem, filho da puta, coragem pra trabalhar mais um dia e se esgueirar entre as divisórias do escritório pra que seu chefe não insista naquela ideia idiota.

Falta pouco para ser demitido, você sabe disso e te agrada. Vai voltar à vida medíocre, vai voltar ao Super Nintendo, aos dezesseis bits de felicidade, à pornografia barata de três números. Um e noventa e nove. A estabilização econômica do país me deixava perplexo. Diversão solitária por um preço justo.

Eu tinha fome, eu sabia que certas coisas estavam pra acontecer. Eu perderia meu emprego e tudo voltaria ao normal, como sempre foi antes de eu trabalhar para esses vampiros. Quarenta e quatro horas por semana pra mim é um regime de quase escravidão, a vida fica resumida a algumas horas de sono e um carpete com cheiro estranho. Toda minha vida girava em torno da expectativa de adoecer e conseguir alguns três dias de atestado. Genialidade pra mim era isso, e eu me esforçava ao máximo. Chuva de madrugada, lá estava eu, tomando um prazeroso banho no meio da quase manhã escura e molhada. Uma amidalite seria uma benção.

Eu entrava encharcado numa conveniência vinte e quatro horas e me maravilhava tremendo com um picolé, os músculos rígidos. “Um drogado, só pode”, ouvia murmúrios da atendente. Minha saúde física era de aço, a amidalite nunca se apresentou para prestar seus serviços.

Não tomei café em casa, um pão de queijo e uma Coca-Cola brilhavam em meu cérebro, a única salvação possível para a ressaca brutal.

— Vou ali embaixo comprar meu café, alguém quer alguma coisa?

Silêncio...

Eu era um bem sucedido assistente em uma empresa que lambia os sapatos de prefeitos que mal cursaram o ensino básico, que não sabiam nem onde ficava o nariz da própria cara. Eu era bem sucedido, eu fingia muito bem me interessar pelas asneiras que eles proferiam. Projetos e mais projetos, muitas chances de dez ou vinte por cento.

Era um dia bonito, bonito como qualquer outro fora daquele escritório. As pessoas se comunicavam na rua, os pedestres disfarçavam não serem avessos ao contato visual com outras pessoas, o motorista de ônibus praguejava contra uma fechada, as buzinas se chocando contra as árvores da W3, eu deslizando pelo conjunto de sons ríspido. Era uma manhã que pulsava.

Do outro lado da rua do escritório, a banca de jornal me aguardava. O templo sagrado de meu café da manhã, talvez uma pornografia para a solidão de mais tarde.

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Moedas, muitas moedas pegando carona no indicador do rapaz da banca, deslizando pelo balcão de vidro. Ele tinha dificuldade com matemática, contava minhas moedas com afinco, sempre mais de uma vez. Dois anos tomando meu nutritivo café da manhã naquele mesmo lugar, e eu nunca perguntei o nome da criatura que traduzia toda a minha dificuldade em lidar com a humanidade das pessoas, mas eu o ajudava.


A dúvida mortificante que eu assistia em seus olhos referente à enorme quantia correspondente a um pão de queijo, uma Coca-Cola e um almanaque da Buttman me era mordaz, lhe acometia sempre, mas lá estava eu, um herói pronto a dignificar seu posto.


— Está certo, meu caro. Minha compra sempre dá a mesma coisa.


Essa pequena pílula, todas as manhãs, nos últimos dois anos arrebatava seus olhos do inferno macerante ao qual os infindáveis cálculos o tinham jogado. E eu ficava a imaginar quantas vezes ao dia ela passava por aquela experiência intermitente entre o céu e o Hades.


Eu não me importava que ele soubesse de minha solidão romanceada com as garotas da Buttman, em verdade ele nunca nem esboçou qualquer tentativa sutil de constrangimento, quanto a isso aqui cabe aqui minha humilde observação de que o rapaz era realmente muito profissional. Eu teria escrito uma carta de recomendação para ele: “declaro para os devidos fins que o referido rapaz é investido de uma atitude profissional ímpar, sabendo o mesmo, com intacta lisura, vender pornografia”.


O sol era estanque, impenetrável, já passava das oito da manhã, eu queria ser demitido, eu ia ser demitido. Engraçado como algumas coisas que queremos acontecem facilmente, mas outras nem tanto.


Costumeiramente, a W3 era um lugar hostil. Fumaça, buzinas, o não contato visual, mas naquele dia ela me presenteou com uma garota.


Oh, doce avenida envenenada de solidão e claustrofobia ao ar livre, não é por ti que eu me apaixono, mas pela alma da menina da bolsa da Mulher Maravilha...


Ela lá esperando o ônibus pra algum lugar, e eu parado com um pão de queijo e uma coca.


Por que eu não vou lá e puxo conversa? Quem sabe se alguém me olhar da janela do escritório eu acelere minha demissão. Hesitei por um momento. Ela viu seu ônibus chegando e não fez sinal, ela simplesmente executou um passo de balé levantando a mão direita com graciosidade e leveza, e naquela hora eu senti como se uma marquise de um prédio houvesse caído em cima de mim. Eu havia sido esmagado por sua elegância.


Impulso infantil, saí correndo e chamei por ela: “Ei, moça”. Ela parou olhando para trás pra me escutar e perdeu o ônibus.


- Oi, você me conhece?
- Não. Você quer? Disse lhe oferecendo um pão de queijo mordido e uma coca aberta.


Ela me deu dedo, um dedo de unha vermelha, e mesmo neste gesto rude e agressivo ela foi apaixonante, em seguida me deu as costas, que belas costas. Então sentou de novo no banco da parada de ônibus. Que vida amarga...


Ela era linda, lembrava uma ex-namorada minha. Quando transávamos, por alguma razão obscura ao meu conhecimento, ela me chamava de viado quando estava pra gozar, e eu ria perturbadoramente por dentro, e o mundo ficava reduzido à dúvida produtora dessa obscuridade, e a transa com todos os seus fluidos corporais, tapas e carícias, ficava suspensa e irresoluta, em algum lugar da minha consciência, não participando das realidades materiais ali presentes. “Tu é um viado”, ela balbuciava em meio a uma gemefala.


Atravessei a rua saindo definitivamente de sua vida, e voltando para o escritório eu pensava andando debaixo da marquise das lojas da W3 o quanto seria interessante se ela realmente desabasse na minha cabeça, deixando assim a Mulher Maravilha da parada de ônibus livre de mim pra sempre, por que mesmo que eu nunca mais a veja, eu não evitarei pensar nela esta noite. Mas a marquise não desabou, de verdade, ela nunca desabou, sempre será só um sentimento deixado por ela.


Olhei para trás antes de entrar no prédio, ela ainda estava lá, esperando alguém que soubesse lhe oferecer pão de queijo de uma forma mais romântica e sutil.


Voltei para o escritório, a sacolinha preta recheada de mulheres da Buttman me causou raiva por que eu não tinha ciúmes delas. Eu queria ter ciúmes da Mulher Maravilha, mas não posso. Meu Deus, eu não posso. Eu só posso viver com essa marquise de mentira em cima de mim, me sufocando, espasmando meus polegares debaixo de pedregulhos de concreto e ferro.


Aquele dia eu fui demitido, e enquanto assinava a rescisão do contrato, eu me confundia num misto de alegria e pavor. Eu precisava pagar o aluguel, o aluguel é realmente muito perturbador, só agora entendo o que Bandini queria dizer. Não se preocupe, Bandini, venderei dindins de cachaça na rodoviária para que não me despejem.


No elevador eu conversava comigo... Tire ela da cabeça, Calixto, há outras mulheres interessantes na Liga da Justiça. Vá até uma casa lotérica e jogue na Quina.


Essas coisas passeavam pela minha cabeça enquanto eu rabiscava na parede do elevador com minha chave: “MARQUISES NÃO MATAM CALIXTO”.

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