O Lupe de Lupe já venceu só por existir

por - 11:10

lupe de lupe


Há mais ou menos duas semanas, o Lupe de Lupe lançou seu novo single, “Eu Já Venci”. Nele, o grupo de Minas Gerais experimenta uma estrutura rítmica bem diferente, e quase inexistente, apenas para não cair no clichê e na repetição de algo que já fez antes.


O conteúdo da letra é polêmico, lembrando um pouco o que foi feito em “Há Algo de Podre no Reino de Minas Gerais”. Como sabemos que eles gostam bastante dessa ideia dedo na ferida, e que eles são uma das melhores bandas de rock nesse país, conversamos com o guitarrista e compositor desse novo som, Vitor Brauer, que até mandou um recado para quem tá com muita vontade de tocar, mas por algum motivo, fica meio encanado e não levanta a bunda do sofá para fazer alguma coisa.


Lembrando que “Eu Já Venci” é o primeiro single do novo álbum do grupo, que vai ser mais longo, diferente de tudo o que já fizeram e sai até o final de 2014.



Você não acha que lançar música polêmica é um tipo de marketing para vocês?


Sem dúvida, o povo se interessa mais em xingar alguém no Facebook do que ouvir uma música. Vamos combinar, são poucas pessoas que compartilham uma música de uma banda que elas não conhecem também, ainda mais uma banda de rock que hoje em dia é uma linguagem considerada "ultrapassada" por muita gente. Então, no meu ponto de vista, é melhor usar isso a nosso favor. Quem for inteligente vai ouvir além da polêmica, só gente estúpida que acha que tudo isso é gratuito e não presta atenção no resto da letra. Mas mesmo assim, a gente ganha mais atenção porque o povo quer é xingar e ficar puto com alguém que não são eles.


Você falou sobre linguagem ultrapassada e sobre o rock Você acredita no rock hoje? Tipo, de verdade? Eu conto poucas bandas que ainda fazem rock e me animam.


Excelente pergunta. Existe muita gente que só quer ouvir o que é "novo" pelo fato de ser "novo", e não porque traz uma carta nova pra mesa. Isso tem muito a ver com o som que tá na moda também. Hoje em dia é o rap, ou é o instrumental, ou até o experimental em alguns nichos específicos. Muitas coisas desses gêneros não trazem nada de novo, são gêneros que existem há muito tempo. Mas é o som que é "novo" no Brasil, por isso elas recebem mais atenção da juventude hoje em dia. Eu não acredito no rock no sentido de continuar fazendo a mesma coisa dos anos 90, e fazer canções iguais sempre, tem de evoluir, tem de melhorar, tem de criar o seu próprio gênero. Quem conhece a nossa banda, só precisa de ouvir 10 segundos de uma música pra saber que é a gente tocando, mesmo se a música for lenta ou rápida ou ter influência disso ou aquilo. Cada banda tem de erguer o seu próprio trono. É só assim que a música boa é feita. Existem milhões de bandas e artistas no país que continuam fazendo mais do mesmo, é aí que a gente tem de separar o que é "novo" e o que é "ultrapassado". Não necessariamente pelo formato ou linguagem. Tem muita coisa com bateria eletrônica e experimental que não traz nada de novo realmente, mas soa "novo" na primeira ouvida, assim como artistas de rap e artistas de instrumental ou erudito. O negócio é que o rock já parece que não tá trazendo nada de novo antes mesmo da gente ouvir. "Lá vem mais uma banda de rock", a gente diz. Porque o rock é o gênero mais gasto e de mais tempo no mercado independente também. Quantas bandas de samba e de reggae na música independente que são boas? São menos ainda se pararmos pra pensar. De outros gêneros que hoje em dia são ultrapassados também.


Talvez isso que não me anime. Eu vejo muita coisa igual, muito revival de não sei o que, muita banda que canta em inglês.


Aham. É foda porque tem muito público no Brasil pra revival também. Público de banda cover pra caralho também. O foda é que nós estamos sempre no meio de tudo, nem num lado nem no outro, nós não somos revival o suficiente pra pegar a galera do revival, e nós não somos "novos" o suficiente pra pegar a galera hipster, não somos virtuosos demais pra pegar a galera da virtuose e não somos caóticos o suficiente pra pegar a galera do caos, etc. Tocamos no Rio esses dias, mas lá a gente é previsível demais pra galera do experimental e imprevisível demais pra galera do indie rock. Não existe nada tão esquivo e arredio quanto a nossa banda e o nosso estilo. Pouca gente se associa com as nossas letras e o nosso som porque eles são quentes demais, altos demais, desafinados demais.


E proposital demais, certo?


(risos). Acho que sim. É o nosso estilo, mas aposto que aqui ou ali pode ter uma coisa mais tranquila né. A gente só segue o nosso instinto mesmo e tem uma auto crítica ferrenha.



Esse ritmo todo torto e estranho na música nova é alguma provocação?


Não, não, é só a gente tentando evoluir dentro das nossas limitações. Tentando buscar novos ritmos pra não continuar fazendo a mesma coisa, pra ficar mais divertido pras pessoas ouvirem e pra gente tocar também. Fazer uma música punk sem usar o ritmo punk clássico, essas coisas. Não dá pra ficar fazendo só "Há Algo de Podre..." e "17". Mas isso é uma mudança que vem acontecendo desde "Tainá Muller" e "Homem" do Distância. Que já eram músicas que tinham ritmos diferentes e complicados pra gente.


“Tainá Muller” me lembrou Red Hot em um trecho...


Ah, cada um lembra um trein né. Falaram que "Eu Já Venci" parece um baião (risos). Apesar de não gostar de Red Hot, acho que tem uns ritmos que o Red Hot usava no começo da carreira que podiam ser reciclados, sem dúvida. Eles tinham energia e fogo pra esse tipo de coisa, isso é inegável.


E cara, o que o pessoal pode esperar do novo disco? Ou é melhor não esperar nada?


Eu não sei, o Renan tem as composições dele lá que eu não vi ainda, o Gustavo vai aparecer nesse disco de novo (que ele apareceu no Sal Grosso, mas não fez música pro Distância). Eu tô me empenhando em fazer composições diferentes do que a gente costuma fazer. Então eu acho que as pessoas podem esperar um cd complicado, talvez coisas que a gente nunca fez antes, talvez algumas coisas parecidas. Mas o mais importante é que vamos vir com muito material. Queremos fazer um cd longo dessa vez.


Vai ser tipo um disco duplo do Racionais então?


Não sei, quem sabe (risos).


O que você percebeu na música independente de 2012 para cá? Teve algo que te chamou a atenção, desde aquela entrevista no Alt?


O Nvblado, apesar de não ser uma banda perfeita, eu acho que é uma banda a ser acompanhada. Fora isso, esse interesse por música experimental, principalmente no Rio de Janeiro, me impressionou muito. É muito bom como a música brasileira independente tá finalmente dando passos em direção ao mais difícil. Mas ao mesmo tempo, é realmente inacreditável como o interesse do público em letras boas está fora de moda no universo da música independente (fora do rap, digo). Não sei se isso é bom ou ruim, mas é uma coisa que me chamou a atenção ultimamente, principalmente nessa última ida ao Rio de Janeiro.


Talvez por ser complicado escrever letras.


Sim.


Porra, ótima resposta (risos).


Uai, não tem segredo esse assunto (risos).


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Você acha mesmo que só de respirar você já venceu essa galera?


(risos) Só de respirar não, mas só de continuar fazendo música e não deixar o sonho acabar, já diz que a gente já venceu. Essas bandas de modinha vão começando, ficando populares e depois acabando sem nem atingir ou ter influência em outras pessoas. A nossa banda criou o próprio gênero, o próprio trono, o próprio lugar, ninguém compete com a gente. A gente é único e é o melhor no que faz, então a gente já venceu sem nem ter de mexer uma peça no tabuleiro, simplesmente por não competir no mesmo jogo que todo mundo compete, por não perseguir a moda ou o público. Você lembra como era há uns 5 anos atrás? Como tinha um monte de banda tipo Los Hermanos? Hoje em dia a galera nem comenta mais isso direito, porque a modinha agora já é outra. Mas quantas bandas tentaram pegar a vibe Los Hermanos e não deram certo e por isso desistiram? Bandas que tinham contatos, que tinham fãs, que tinham apoios de blogs, revistas e até do Fora do Eixo. Muitas dessas bandas já foram esquecidas e sequer serão lembradas no futuro, porque eram uma em um milhão. Hoje em dia é outra coisa que é a moda, e nós continuamos correndo sozinhos e colocando fogo no mundo do nosso jeito, e por isso a gente já venceu. Mas não fomos os únicos que venceram, tem muita gente aí vencendo também.


E qual é a moda agora?


Aqui em BH é instrumental cover de Fela Kuti e outras brasilidades tilelês. Mas isso tem muito a ver com o nicho que tem dinheiro e que conhece muita gente. Um amigo cria uma banda, o outro começa a gostar da banda, e como eles fazem parte de uma espécie de elite intelectual belorizontina, acaba virando moda e virando cool. Um amigo é designer e faz a capa do disco, o outro é cineasta e faz o clipe, o outro tem um estúdio em casa, os caras já tem uma rede de contatos sem nem lançar um disco (risos)! E o galerão acaba indo atrás por osmose. Isso é uma coisa que tem em tudo quanto é cidade, o problema é que alguns simplesmente fazem mais do mesmo e uns poucos fazem algo novo. Aqui no Brasil tem tanta banda Fela Kuti que eu nem sei diferenciar uma da outra por exemplo.
Eu não sou completamente contra a moda, mas tem gente que só sabe seguir e poucos sabem liderar. E quem segue, acaba se tornando meio estúpido.


Manda um recado aí para o moleque que quer montar uma banda com potencial, sem ser cover, mas tá perdidão, fica com o pé atrás e etc.


O que eu digo é que todo artista tem de lançar, tem de produzir, não adianta ficar ensaiando pro resto da vida e só fazendo show. Junte os emails de contato de um monte de site de música independente (alguém vai ouvir seu lançamento), produza o que te representa nessa época, não adianta ficar esperando ter aquele equipamento ou aquele não sei o que, e lance. Muita gente por aí se interessa mais pela sua mensagem, pela sua vontade, pelas suas letras e composições, do que necessariamente com a qualidade da sua gravação. Não precisa de lançar o troço mais tosco do mundo também, faça algo que te deixe satisfeito, mesmo que não seja o melhor tratamento que uma música sua pode receber. Ao lançar uma coisa, você já larga aquilo de lado e começa a crescer mais e mais. Vê de fora suas qualidades e os seus defeitos e tenta melhorar. Não temos mais de ser "Artista Igual Pedreiro", temos de ser "Artista Igual Escritor", quanto mais tempo sua banda durar e as pessoas ouvirem o que você diz, maior você fica e maior sua audiência fica também, espere um dia ter no máximo o respeito de um escritor, que fica famoso num nível pequeno e possivelmente numa idade avançada. Faça a música pela música e só. É um mundo muito bonito o mundo da música, e se você está começando a sua jornada agora, aproveite, porque ela é lenta, longa e densa, mas de glórias repentinas e grandiosas. O bom escritor não se preocupa com a qualidade do papel ou da capa dura do seu livro, ele se preocupa com a palavra. Se der pra ler já é o suficiente, o mundo pode ser seu e fim.


 

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