O Panço é um dos caras mais legais da cena

por - 11:08

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Leonardo Panço é uma das figuras mais proativas e bem relacionadas do underground musical brasileiro. Já tocou em um dos bastiões nacionais com a Jason, tem livros sobre músicas lançados (procure por Esporro e Caras Dessa Idade Não Leem Manuais). A prova do bom relacionamento e de ser bem querido do meio é o seu novo disco, Tempos, lançado neste ano e contando com diversas participações especiais de nomes da cena independente do país.


Sem a internet, nada disso seria possível. Utilizando a mesma ferramenta, batemos um papo longo com ele, explicando sobre o processo de gravação do disco, composição das músicas e a escolha dos convidados. Também falamos de alguns projetos futuros e da ideia de Tempos sair em vinil.


Por que lançar um disco solo, já que você tem uma extensa carreira musical em bandas? Ou por que só agora lançar um disco solo?


Panço: São vários fatores mesmo. Eu já tinha essa vontade de fazer esse disco, já falo disso há muitos anos, mais de 10. Sempre foi essa a ideia, de ter vários cantores, mesmo antes do Dave Grohl fazer o Probot, que de certo modo é diferente, já que ele compôs letra também e já com cada uma direcionada pra cada pessoa. O meu foi diferente nisso. As músicas foram ficando prontas e aí fui vendo quem era amigo de cada faixa. E o porquê agora foi o tempo mesmo que disse. Precisava muito parar de tocar quando saí do Jason, minha cabeça estava em outras coisas da vida. E depois de alguns meses voltei a tocar, mas não tinha prazer. Parei de novo. E depois mais tarde voltei e rolou. Aí as músicas foram surgindo, tudo no meu quarto dos fundos, sem pressão, sem prazo, sem banda, sem ensaio no sábado pra ter que pegar quatro bus e ir mesmo se não estivesse com vontade. E depois foram só três ensaios pra gravar baixo e bateria, tudo rapidinho. E depois fui preenchendo as lacunas com tempo, pela internet, em casa, sem ter que me deslocar, perder tempo no trânsito, só fazendo quando estava com vontade mesmo.



01. "Blood Secret" (Com Karina Utomo, Heron Uzomi e Lucas Wirz)


Cara, o disco já começa com duas características (na minha visão), encontros inusitados e estilo bem pesado. Eu queria que você falasse mais do processo de composição envolvendo as pessoas convidadas.


Panço: Essa foi uma das primeiras que tive ideia pro arranjo da parte final, sempre foi pra ser assim, o Heron berrando e o Lucas tocando piano. Como o Lucas mora na Suíça, ele gravou lá e mandou. Essa acho que foi a terceira versão. Já o Heron foi bem simples, estava com ele no estúdio quando ele foi gravar, falei o que queria, ele gravou uns quatro canais, o que está no começo com a voz da Karina, e os do final e que se misturam, essa parte mais ideia do Bil na hora de mixar. Karina teve liberdade total de fazer o que queria na voz do começo. A única coisa que falei pra ela era que ela deveria cantar só até o minuto x porque dali pra frente já tinha dono. Ela gravou na Austrália uma demo, me mandou, eu gostei e ela gravou pra valer depois com o Tom, guitarra do Nation Blue, que fez um showzão aí em Natal em 2007. Foi bem fácil escolher essa faixa pra abrir por causa do começo. Quem gosta, sente os dois pés no peito, leva logo uma voadora. E quem não gosta, já vai embora, o que é uma pena de certo modo porque o disco é bem variado, mas é a vida. Só fica quem tempo pra dar pra um disco inteiro.



02. "Sincerely" - Com Emmily Barreto e Cris Botarelli


O disco tem uma variedade ímpar de convidados, inclusive de gerações diferentes. Nesta faixa tem duas meninas que tem um destaque enorme na cena potiguar. Você é próximo delas ou foi na cara de pau o convite? Foi intencional a mistura de gerações?


Panço: Eu fui pra Natal relançar o Esporro em 2013 a convite da editora e o Far from Alaska tocou na festa. Um dos amigos do Fialho, dono da editora, levou um red label de presente pra ele na festa e eu me joguei por ali e fui abastecendo meu copo de plástico. Aí pronto. Achei o show sensacional, quando bebo, consigo ficar um pouco simpático e mais falante, aí fui lá na chuva onde elas estavam e já fiz o convite. Depois eu enviei os arquivos, Emmily escolheu essa faixa, escreveu, e elas cantaram. Queria muito misturar uma galera antiga com outros jovens, né. Outra visão, outras influências, uma vivência diferente.


E a música tem bem a vibe Far From Alaska, foi feita pensando nos vocais delas ou já existia?


Panço: Todas as músicas foram gravadas sem saber quem cantaria, a pessoa que fosse convidada teria que escrever com aquela duração, com aquele número de partes, nada poderia ser mudado. No caso dessa, foi Emmily que ouviu todas e escolheu. Acho que já tinha rolado de a Karina escolher as dela. Acho que esse comecinho foi assim, escolham o que acharem melhor. Depois delas duas, eu fui indicado as músicas pras pessoas.



03. "Vê algo, Fala Algo" (letra: Haroldo Paranhos - Magüerbes)


O instrumental não me lembra Magüerbes, mas a letra encaixou legal. Vou aproveitar o gancho e vamos falar do que restou em você dos tempos de punk e HC ou você deixou tudo pra trás?


Panço: Não sei exatamente o que você quis dizer com as coisas que ficaram para trás nos tempos do hc. Acho que meu disco é punk no conceito, de ser o que ele é, sem amarras, livre. O punk não era isso? Liberdade de tocar, de fazer o que você tem vontade. Se for por esse aspecto, acho que segue. Se for musicalmente, acho que ainda tem umas coisas ali sim, mas tem muito mais realmente.


Exato, mas não é punk hardcore no estilo, quer dizer, eu não vejo nele o que eu via no Jason, por exemplo. Por isso falei do tempo passado.


Panço: Tem até um pouco, né. Nas duas faixas da Karina, que não a primeira, na do Quique também. Tenho umas 17, 18 músicas um pouquinho com a cara do Jason pra um disco no futuro. Mais pro primeiro disco, mas mais malvado. De repente pro segundo semestre do ano que vem.



04. "Desorgulho" (letra: Lucas Wirz)


Nessa música, temos uma letra do Lucas, guitarras do Gomão (Recife), teclados do Henrique (Natal). Eu queria saber quanto tempo demorou pra ela sair? Na real, faz quanto tempo que estas indas e vindas tem acontecido?


Panço: Fizemos um ensaio em abril de 2013 em que nove faixas ficaram prontas, mas só oito foram para o disco. Em julho fizemos outro ensaio onde acertamos as quatro últimas e gravamos baixo e bateria. Aí fui para Natal e terminei as guitarras e Geladeira fez o teclado, as partes dele no disco. Então todo o processo de o Gomes fazer as partes dele e todas as pessoas escreverem as letras, mandarem, gravar vozes, refazer, acertar, mixar e masterizar, durou de agosto de 2013 até maio deste ano.



05. "A Busca" (letra: Ive Seixas)


Você me disse que o pessoal escolheu as bases onde queriam colocar as letras e vozes, né isso? Alguma escolha te surpreendeu? A Ives aí soa bem diferente do trampo solo dela, por exemplo. Mesmo sabendo que ela tem um background no rock ...


Panço: Não. Somente Karina e Emmily. As outras pessoas eu que fui indicando quem ficaria com qual. Acho que uma das surpresas foi a do Bil porque não esperava que ele fosse cantar em inglês, já que o Noção de Nada e o Zander são em português. Mas a vibe dele foi essa e ficou ótima. A Ive veio do rock, né, fazia umas coisas bem gritadas no Ricto e esse som meu é bem diferente do trabalho atual dela. Não consigo imaginar alguém que pudesse ter feito mais bonito que ela.


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06. "Josué" (letra: Larry Antha)


Pra mim, essas é uma das músicas mais legais do disco. A letra é bacana, o vocal incorpora o espírito passado pelo letrista, idem para o instrumental. Eu fico me perguntando se tu curte quebra-cabeça panço, porque pra mim esse disco é um pouco isso, é por aí?


Panço: Acho que foi bem isso aí mesmo, um quebra-cabeça pra ser montado. Mas essa talvez tenha sido a mais fácil de escolher, nunca houve uma opção b. Quando fui fazendo o riff já achava que era o Larry e quando ficou pronta, realmente era ele a ser convidado.



07. "Broken Heart" (Karina Utomo)


Essa vai mais na linha dos seus velhos tempos. Eu queria saber se tem alguma letra sua nesse disco e se você já pensou em como vai fazer pra tocar ele ao vivo?


Panço: Não fiz nenhuma letra, são todas escritas por outras pessoas. E não há qualquer tipo de plano para tocar o disco ao vivo. Ele teria que ser reproduzido com outras pessoas e nunca ficaria no nível do que foi gravado.



08. "Willpower" (letra: Gabriel Zander)


Tem alguém que você não conhecia, mas gostava do trabalho e chamou pra participar do disco? E por que lançar um disco em dias atuais (já que o artistas se faz com o show e você disse que não vai rolar). 


Panço: Que eu não conhecia pessoalmente? Se for, Emmily e Cris eu não conhecia, Karina da Austrália nunca vi, temos amigos em comum, os caras do Nation Blue, que fizeram uma tour com o Jason em 2007 no nordeste. Eu queria muito lançar um disco meu, cheguei a cogitar lançar 3 EPs, porque acho que as músicas se dividem em três grupos amigos, mas no final das contas achei que a diversidade deveria guiar a história toda. E o disco é acima de qualquer coisa pra mim, né. Eu quero ouvir ele daqui 20 anos e gostar. Sei que poucas pessoas vão ouvir ele inteiro, basta você olhar no Soundcloud a diferença de plays entre a faixa 1 e a 12. Mas aí acho que é problema de cada um que não apreciar todas as faixas.



09. "Pode Crê que A Gente é Bem Sertanejão" (letra: Quique Brown)


O Quique é um cara ímpar, né? Eu queria muito conviver com ele no habitat natural, onde ele é/foi secretário de cultura. Deve ser massa ver um show do Leptospirose tocando em casa. Faz quanto tempo que você pensa o disco neste formato?


Panço: Vi o Leptospirose em Berlim, sempre fantástico. Penso nesse disco assim há mais de 10 anos, mas nunca consegui parar pra compor, sempre tudo ia pro Jason. E além disso eu gastava tempo demais com divulgação, marcar shows, tours, coisas que minavam a energia, e me tiravam do principal que é a criação. Então depois de sair do Jason, descansar um tempo, voltei a criar e veio a vontade de fazer o disco.



10. "Far Right" (letra: Karina Utomo)


Ótima música, bastante rápida, mas bem coesa. Fiquei curioso sobre o porquê da Karina ter ganho duas músicas no disco. Existe um por quê?


Panço: Karina acabou sendo a primeira pessoa pra quem mandei as músicas. Gosto muito da voz dela e falei pra ela escolher o que fosse a fim, ela escolheu três na verdade, não duas. E foi.



11. "Tempo Templo"


Essa música seria instrumental e os vocais entraram depois ou ela sempre foi pensada dessa maneira?


Panço: Sempre foi pensada para ter voz sim. Existiu a possibilidade de ter letra, mas ainda bem que ficou assim, porque está ótima.


Tem alguma coisa que você queria fazer nesse disco, mas não pode?


Ah, sempre tem. Se tivesse mais dinheiro, claro que faria várias coisas diferentes. O Lucas teria usado um piano de cauda, Karina não teria gravado em casa, todos receberiam cachê, teria lançado em LP, teria uma assessoria pra divulgar, já teria feito um clipe, já teria feito camisas, faria um show de lançamento com todos eles, daria mais de um vinho de presente pro Heron. São tantas coisas limitantes com pouco dinheiro. Mas sempre acha-se um jeito de seguir em frente, né.



12. "Uma Vez Mais" (letra: Cesar Mauricio)


Você tem alguma relação com o Virna Lisi? Como conheceu o Cesar? Essa música foi feita pensando nele? O instrumental me lembra o Virna.


Panço: Minha relação com o Virna acho que é de gostar desde sempre. Vi um show no Circo acho que em 1990 com o Die Toten Hosen da Alemanha. Depois o Cesar fez a capa do lançamento TMB 001, que era o Ragnarok, e mais tarde um clipe em animação de uma música do Jason que tem uns 100 mil views. Pessoalmente a gente só se viu uma vez mesmo, na Lapa, mas nos falamos direto pela internet. A música não foi feita pensando no Cesar, nenhuma delas foi pensando em alguém. Não tenho essa manha. Elas vão surgindo, saindo como são. Depois de prontas é que eu fui pensando quem poderia fazer algo, quem se encaixava, quem tinha a ver com a música.


Uma dúvida minha, escrever o Esporro te deu instiga para compor ou to viajando? Tem algum outro livro na mira?


Panço: Uma grande parte do Esporro foi escrita no carnaval de 97, senão me engano. Depois fiz entrevistas, escrevi mais coisas, escanear, conseguir material, etc. E lá se foram 14 anos até ele sair. Então não tem qualquer relação com o disco agora. Tenho outro livro em andamento, mas não sei se sai no ano que vem, a ideia é essa. Chama Superfícies e deve vir com um CD encartado do disco novo, que já estou gravando. Instrumental dessa vez. Mas primeiro preciso vender mais livros pra abrir espaço em casa, fazer as camisas do Tempos, tentar lançar em LP (acabei de lançar uma campanha no Facebook pra isso).


Fala um pouco mais desse outro disco instrumental aí! E qual a ideia do novo livro? Está ligado a música?


Panço: Tinha muitos arquivos toscos no celular, queria fazer um disco de faixas curtas também há vários anos e não consegui. Muita coisa se perdeu com o tempo. E finalmente em abril passei uma semana em SP gravando com Babalu e Renato Ribeiro, ambos ex-Gigante Animal. Gravamos 21 faixas pra um disco instrumental que deve vir encartado no novo livro. Tudo vai se chamar Superfícies. Mas não sei ainda se entram as 21, ainda há muita coisa pra fazer. Já convidei três baixistas pra gente terminar mais uma etapa. Depois vou adicionar outros instrumentos. Piano, violino, vamos ver ainda. O livro deve vir mais na linha do Caras Dessa Idade, não tem muito a ver com rock não. Mais reflexivo, viajante, textos curtos. Um pouco a ver com o disco. Pra ser lido enquanto ouve o som. E deve ter fotos também. Passei umas 300 pro Flock opinar, dizer o que acha, jogar umas fora, me dizer umas verdades.


Panço, valeu mesmo a disponibilidade de fazer esse faixa a faixa. Tem mais alguma coisa que voce queira dizer?


Panço: Valeu você pela paciência. Hoje tá tudo tão rápido que ninguém mais tem paciência de uma coisa mais longa, de ler, ouvir. Queria dizer que o disco foi feito para quem gosta de música, pra quem tem o prazer de ouvir as 12 faixas, não se assusta na primeira, quem dá tempo de conhecer, voltar, ouvir de novo.


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1 comentários

  1. Ótima entrevista, me instigou a conhecer o trabalho e a divulgar também.
    Força na caminhada, INDEPENDENTE do que rolar hehehe

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