Amantes Eternos

por - 14:08

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Voltei ao cinema da Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ, no bairro do Derby, para ver um filme que estava curioso desde o ano passado. Demorei mais de um mês depois da estreia para assistir Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive), do diretor Jim Jarmusch (Simpsons, Flores Partidas, entre outros). O filme foi selecionado para o Festival de Cannes do ano passado e conta a história de um casal de vampiros e todos os seus incômodos com os caminhos seguidos pela humanidade. O casal, interpretado por Tilda Swinton (Eve) e Tom Hiddleston (Adam), tem um relacionamento secular e que já passou por pelo menos três casamentos.


O longa passa toda a leveza de um relacionamento extenso e também as angustias vividas pelos personagens principais. Seja com os caminhos seguidos pelos seres humanos (que eles chamam de zumbis), seja com o relacionamento eterno ou com as dificuldades de ser um vampiro nos tempos atuais. Um dos pontos mais interessantes do filme é a relação com as ditas “doenças modernas” e o uso desenfreado de drogas pela geração que acaba contaminando o sangue e trazendo doença aos vampiros. Sendo assim, a busca pelo sangue puro, cada vez mais difícil é um dos nortes para angustias dos personagens.


O drama é passado com a sutileza que parece ter sido perdida pelos tempos atuais, a característica natural do vampiro que é a sensualidade. Hoje em dia, a tal sensualidade virou sexualidade, relacionado apenas ao ato e não aos trejeitos vampirescos (vide True Blood, como exemplo atual). O nu é natural, nem um pouco forçado, a vampira não se oferece, o vampiro não se oferece, apenas deixam as coisas fluírem. Os atores ajudaram a deixar as coisas ainda mais naturais, fazendo com que as cenas se tornassem relativamente lentas e até triviais, porém, com a dose certa de erotismo.


O rock e nuances de musicalidade são usadas de forma genial na história, Adam é um musico soturno e que não pensa e nem quer fazer sucesso. Vive recluso em um casarão nos arredores de Detroit fugindo dos fãs, onde tem contato com um “faz tudo”, que desenrola guitarras clássicas para ele, entre outros coisas e esconde dos fãs. Vivendo deprimido, em meio a sua eternidade e a ausência de vontade de estar vivo. Ele também se relaciona com um médico, que faz as honras de traficante de sangue puro, entre eles, o delicioso e raro O negativo.



Eve vive na cidade de Tanger, passa as noites andando pelo vilarejo, acompanhado de perto o tráfico de drogas e visitando um amigo vampiro Christopher Marlowe (interpretado por John Hurt), que apresenta alguma doença. A distância parecer ser uma maneira de reaquecer o relacionamento longínquo dos personagens principais. Devido aos traumas de Adam, Eve resolver ir a Detroit reencontrar o seu amado. O filme tem várias cenas ótimas, com os dois dentro de um carro passeando na madrugada de Detroit e passando por velhos galpões e fábricas. Até o retorno da irmã de Eve, Ava (interpretada por Mia Wasikowska), uma vampira desajustada e que parece não reprimir seus instintos animais, não adaptada a vida moderna e educada do casal, acabando, momentaneamente, com a paz que reinava na monotonia do relacionamento.


Um fato desencadeia de maneira muito inteligente os problemas de se matar uma pessoa no mundo moderno. Era tão mais fácil nos tempos medievais, né?! Ao fugir da vida organizada de Detroit e retornar pra Tanger, o casal encara as dificuldades da vida noturna e de uma alimentação saudável. Durante toda a história, mesmo não demonstrando nenhuma afeição pela raça humana, a relação do casal com o mundo ao redor é de extremo respeito. Atitude repensada no momento de mudança, que encaminha o final do filme.


Ao sair do filme, ouvi diversos comentários negativos, alguns diziam que o filme era parado e sonolento e a única salvação foi a música. Interessante perceber o quão mal interpretado ficou o universo dracular após diversas histórias medonhas e superficiais sobre o mito. O filme do Jamursch é tocante e apresenta problemáticas na vida de um ser que não parece ter problemas em outras histórias contadas pelos descendentes de drácula dos tempos de porfiria.


O único ponto negativo do filme é não ter demonstrado um pouco mais a relação problemática do casal com a irmã da personagem. É tudo muito rápido, poderiam ter aproveitado mais a interpretação da Wasikowska, que se torna apenas uma ponta no filme. Porém nada que o faça perder seu brilho, tentando passar que nem tudo são flores, na magnifica procura pela eternidade.



Como acredito que o filme não deve estar mais em cartaz em quase lugar nenhum do Brasil, apenas nas locadoras para assistir em casa. Eis um link com diversas qualidades da legenda e do filme para vocês assistirem em casa. Pra quem é de Recife, você ainda tem duas chances de ver o filme na FUNDAJ. Na Sexta (19/9), o filme passa as 20h30, e na terça (23/9),  ás 15h10.

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