Analisando semi-profecias

por - 15:07

bosta


Quem nunca presenciou uma atitude não muito pensada tomando ação e proferiu as malditas palavras “vai dar bosta isso” e logo após ver o ato se consolidando proferiu a frase, tão comentada nos becos escamosos onde os falsos profetas de biscoito da sorte se masturbam com a razão barata da obviedade, “eu já sabia”. Ah, o destino. Estamos fadados a falar ou a ouvir falar dos momentos em que todos já sabiam de algo que aparentava dar errado e ser obrigados a engolir os profetas de ideia errada.



Esta é uma questão que diz muito mais do que aquilo que foi dito. Estamos falando de um funcionamento humano muito comum e que não vai deixar de existir tão facilmente, afinal de contas, enquanto você ver alguém tentando se pendurar num varal fino de corda e suspenso a 10 metros de altura, as palavras “não vai dar certo” passarão pela sua mente. E a linha tênue que separa o babaca pessimista do bom senso as vezes pode ser ainda mais tênue quando colocamos situações mais ambíguas, que podem até dar certo, por bem ou por mal.



As opiniões se dividiram no caso mais recente da lógica da qual estamos falando. Em São Paulo, um camelo foi baleado na cabeça após ter tentado desarmar um policial que utilizava spray de pimenta para conter uma manifestação. Uma lata de spray de pimenta não parece letal até que se percebe que não somente com uma lata de spray de pimenta o policial estava. Muitos no momento não pareciam ter contido o rapaz em seu instinto de profeta “vai dar bosta”, pois muitos possivelmente perceberam que a manobra poderia dar certo. Não deu. Infelizmente para o manifestante e para o policial, que se fodeu.



Óbvio que aqui temos dois parâmetros além do fato da possibilidade de algo acontecer. A polícia de São Paulo gosta muito da versão antiga de RoboCop e acredita mesmo que fazendo cosplay dele, as coisas ficarão mais calmas. Funcionou em Delta City, né? E o outro lado acaba sendo o enaltecimento da sensação de estar blindado em um protesto quando se acredita estar com a razão. Não entro no mérito de dizer, neste caso quem estava errado, principalmente porque não vem ao caso. Uma pessoa morreu fazendo o que muitos agora julgam ter sido uma coisa errada. Mas por que as pessoas não o alertaram de que esta não era uma boa ideia no momento em que ele ia tomar a atitude? Talvez prever tal movimento fosse difícil, mas uma oportunidade as vezes não está a vista de todos. O mínimo que podemos fazer agora é não criticar o que alguém viu que talvez pudesse fazer.



Podemos entender que houve um despreparo de ambas as partes? Não sei. Definitivamente ambos não tiveram sorte e deu no que deu. Mas o que aprendemos no fim das contas é que independente das atitudes que os outros tomam frente a determinadas atitudes, devemos sempre lidar com os fatos depois que os eventos acontecem. É fácil criticar e comentar fatores passados, tal qual estou fazendo agora. Mas a diferença é que critico algo presente corriqueiramente em situações semelhantes. Criticar a atitude após o fato é como criticar a janela que foi posta na parede após a reforma ter acabado. Criticar o modo como é feita uma obra antes, durante e depois da obra permite que o arquiteto, mestre de obras e pedreiros pensem em como podem fazer o que sempre fazem de modo diferente, tornando o serviço diferente, de modo geral. Ou você pode falar que vai dar bosta e se camuflar na névoa da sabedoria momentânea.


mei

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