Ciclopoema entre Santa Cecília, Barra Funda e Higienópolis

por - 11:11

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(Baixe o PDF do Ciclopoema entre Santa Cecília, Barra Funda e Higienópolis aqui)


Os velhos cafetões desavisados, sentados no bar,


esquina do Elevado e Brotero – não podem nem ao menos sentir,


raios eletrônicos corroendo a pele alva de um cachorro de rua,


Não, eles não podem sentir, sabem que existe algo ali, porém não sentem,


muito menos veem,


moradores de rua pintando o asfalto com fuligem,


as prostitutas diurnas em revolução do sono,


clamando pela conta do café,


sentindo o gás freon enterrado em seus ouvidos,


o calor evaporado pelos poros do asfalto,


elas não sentem, são imunes ao mundo,


carros fortes batendo o protetor motorizado no chão,


o barulho do esmeril no teto do estacionamento –


nove da manhã,


nove da manhã MALDITO,


o ruído espalha-se, a luz alcança os mortuários esconderijos,


uma ciclovia pós-ovulação é perder o endométrio da alma,


a alma preparada para parir a conformidade,


nas ruas de um deus automotivo, automotor e autosemmotivo,


bicicletas são o anticristo,


ateísmo,


a comprovação que deus não existe, esse férrico maldito deus


Não Existe No Endométrio Bi – Pneumático Cicloviário!


Horror calcificado em


verdes folhas nascidas através do concreto


fechando-se em muros demolidos nas tardes de sábado


quando ousa-se sair


sentir o calor do inverno entre velhas sacadas -


Lopes de Oliveira solteando-se ao meio dia e alguns segundos.

o amor que resiste à vida...


ao isolamento perdurando eras e eras


nos vagões curvando-se ao peso dos corpos,


a irrealidade de um gekiga reverso, Yoshihiro Tatsumi


ao longe ecoando


desespero vermelho,


o calor em preto e branco separando estações pelo vento seco

avenida São João e suas válvulas entupidas de gasolina

fantasmas dos setenta transpassando as abóbodas da Sé

sem uma missa que redirecione o caminho,

Salomão e seu templo monetariamente viável

seus seguranças em forma de arca e coqueiros esvaziando bile ao ar livre

luzes da Paulista semiaberta coberta por pés e bombas

de efeito amoral...

benção nazista aos portões de ouro que marcam a entrada

mãos, os corpos colidem, os espaços fechando-se fechan...do-se

n..ão mais existe ar,

correr em sobressaltos através da multidão

o gargalo por onde a vida não mais escoa,

apenas retém o medo


os calcanhares escalando sobras,

a velocidade aumentando,


a solidão do bólido,

do ferro manufaturada cuspindo poluentes,


aos milhares de parcelas divididas que não andam

a riqueza que jamais chega por mais que se corra

jamais chegará nem ao menos morta próxima à estação Consolação,

onde deságuam as pessoas

de bem do bairro de onde

jardim suspensos são lixo

e os dentes podres dos pobres são pedras de crack,

Albuquerque Lins e seu hotel com fachada bem fechada por folhas,

quase uma casa mata, um bunker em neon e acetileno

o consolo dos sobreviventes que tentam travessar a faixa de pedestres

desavisados que ali ainda é território ocupado pelo Blitzkrieg automotivo


desemotiva, automortiva autoinseminação dentro de ejaculadas bocas


Alckmin dizendo no rádio que transporte público cresceu,


o radio fanho parece querer vomitá-lo


sentando-se e esperando o calor do inverno ir embora,

levando consigo as esperanças

que os idiotas e seus carros desapareçam


esqueçam que existe uma cidade vão embora


foder com outros pulmões sempre sem IPI,

com gostosas deixando claro que seu pau só cabe no estofamento,

e o estofamento dentro de todas suas vaginas

as saias rasgadas nas laterais,

os seios que em trações nas quatro rodas deixam claro a espanhola

a saída paranoica de achar seu grande amor


com a merda da sua bunda colada em um banco de couro


pré-hemorroidas...


o nazismo estampado na cara clara do ator menino


usado ao preparo de alma a comprovar uma elite caridosa


frequentadora de grandes livrarias


que ajuda uma criança branca, com olhos claros


meio sujo apenas


não são esses que sangram pelos viadutos


aceitando o destino estampado na lateral de um coletivo


que lhe leva metade da orelha


usada como cachimbo mais tardiamente [ ]


não são esses que fazem as unhas nas esquinas


deixando clara a higiene

em locais onde falta asseio do Estado,

Campos morreu em um avião, em Santos,

noites após a comoção nas redes sócio infantilóides

mais uma favela queimava dentro da cidade

outra vez o vermelho

o laranja consumiam os pilares da humanidade

outra delas queima essa noite levando embora a alma dos pilares

não há chuva – apenas especulação -

móveis beijados pelas labaredas -

cinza nascida da penetração em brasa do calor –

as pernas em lágrimas do desespero -

- do perder o nada que se tem –

[a única coisa que


poderia salvar esse momento seria


a voz de Tom Waits cantando I Don’t Wanna Grow Up]


mas isso não acontece quando não se frequenta a Livraria Cultura – o lar dos


meninos de rua brancos de olhos claros e que são atores da Rede Globo.


Tom inadvertidamente ninaria sobreviventes

vestido como Lúcifer crianças a dormir

o lamento da cidade grande estampado em mãos rugosas

acariciando a lástima dos que restaram

Waits salvaria todos nós se não estivéssemos com a cabeça enfiada no rabo.

...o desespero de não ter para onde fugir


diminuindo espaços,


a ironia cruel do mundo construindo frustrações

deixando Paranoia como cuidadora de almas humanas,

uma Guerra deixada por debaixo dos tapetes,

Kassab vendendo as terras centrais aos mafiosos, e,

...a quadrilha dos fiscais


vírus indestrutível mina os planos de isolamento

a fuga do amor aos refúgios,

...um vírus indestrutível

nada chegaria tão perto quanto os sofás Terra – Ar

lançamentos imprecisos aos escudos do Estado,

Alckmin e sua sombra de abutre falam ao jornal,

o bico acena ao caos,

as penas assopram fumaça do ônibus queimado ao longe,

sem água...Em caminhões fluorescentes ausentes de caçambas,

a seca chegando aos Elíseos campos hoje

a declarada guerra pelo centro da cidade

casa matas escondidas pela especulação imobiliária

barricadas feitas de lixo plástico e descaso

todo o cinismo violento da

poesia

fez florescer muitas vaginas,


hoje, apenas tédio e impotência

perduram

a voz de Kurt Cobain amarga no rádio

os pneus amargurados por não mais serem reis

FODAM-SE OS REIS!!!!!

cores asfálticas na Alameda Nothingmann

refletem laranja ozônio do céu

nas arestas muradas no prédio da Funarte

aladas pelo cheiro de crack

amalgama-se com as paredes almas dos usuários

Esse aí é um Red Nose irmão?”

Um Red Nose???????”

Existe uma guerra suja sendo travada,

nos maquinários imaginários de nossas almas

a batalha pelo centro da cidade vem de outrora

desde os tempos onde os escravos separados

da nova realidade imobiliária aristocrática

ficavam

a sujeira acumulada por entre os sinais de aluga-se ou vende-se

puta matriarca desse joguete sórdido

maldita mãe de sempre atrofiando cérebros

deserto da rua Apa esclarece a hipertrofia do rancor

os comerciantes raivosos e seus clientes criminosos

o aluguel do espaço público pelo ódio

pessoas com olhos fixos em telas

caminhando em faixas exclusivas

apatia genética

descarregada em binários corações

e as navalhas cravadas em suas almas

desolação descendo aos cântaros pela Consolação

enquanto traves e arcos fecham os ciclos menstruais da seca


segundos que separavam o velho senhor vendedor


da Schneider Elevadores


carregando a entrega de Dona Elisa

seu uniforme marrom como a terra que sobe pelas narinas

numa maldita quinta...

hummiltrecentosesessentareais ao todo

em seu rosto apenas desconsolo

separado por apenas um sopro da menina

comedora de cantos das unhas

arrebatando epiderme por onde seus dentes podem transpassar

à medida exata do desespero metropolitano

nós paulistas dividimos sempre as mesmas sensações,

desolação, desconsolo e desespero...

pois estamos perdendo a batalha

enquanto Roger e Lobão vomitam

enquanto Marina digita súplicas populistas

enquanto Aécio e seu olhar cocainômano ao longe refletem o nada

enquanto Dilma vocifera caninos

as metralhadoras soltas pela fronteira

atirando nas ladeiras do Rio

o fogaréu ardendo às vidas dentro das favelas

Moinho Buraco Quente Humaitá Piolho Alba Sonia Ribeiro Vila Prudente

Presidente Wilson Corujão Parque Santa Madalena Areião

mais de cinquenta, mais do que um papel de dez, mais que uma vida, milhares

os corações que incendeiam favelas


os mesmos que sem alma xingam as ciclovias


os mesmos que comparam favelas com lixo


os mesmos que acham parque para o povo biqueiras


os mesmos os mesmos os mesmos


sempre eles

organizados senhores e senhoras de bem

e seus falos anais ardendo em febre

a cada sermão novo do Pastor Feliciano.

Uma única certeza é que o foder da vida não tem limites

muito menos difere cor, raça ou credo

esta metropolezinha é o melhor de que somos capazes?”

por favor Ginsberg me responda...

São Paulo, 2014


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